Este tumor ósseo tem milhões de anos – e teria sido uma pedra no sapato de seu portador, se houvesse sapatos em um passado tão remoto. [imagem: Patrick Randolph-Quinney]

Para muita gente, o câncer é uma doença moderna, resultado de nossos maus hábitos, da poluição ambiental ou da crescente longevidade humana. Como se fosse um castigo pelo nosso atual estilo de vida. E, no entanto, a história dessa doença é bem antiga. Gregos e romanos já haviam descrito a existência de tumores na antiguidade, comparando a dor de seu crescimento às pinçadas de um caranguejo — câncer é caranguejo em latim. Agora, pesquisadores britânicos e sul-africanos descobriram evidências antiquíssimas: tumores em fósseis de hominídeos.

Se o sofrimento dos portadores de câncer ainda é grande, imagine como era ter um tumor no pé há milhões de anos, muito antes de qualquer tratamento paliativo ou uma analogia com caranguejos. Esse é o caso descoberto pelo Dr. Patrick Randolph-Quinney, da University of the Witwatersrand (África do Sul) e seus colegas da University of Central Lancashire (Reino Unido).

Randolph-Quinney et. al. observaram a mais antiga evidência de câncer maligno no osso de um pé desenterrado na caverna sul-africana de Swartkrans. O tumor foi identificado como um osteosarcoma, uma forma agressiva de câncer ósseo que, ainda hoje, costuma atingir indivíduos jovens e pode ser fatal sem tratamento. Esse câncer fóssil foi datado entre 1,6 e 1,8 milhões de anos atrás, mas ainda não está claro se o portador desse tumor era um Paranthropus robustus ou um Homo ergaster. Até agora a mais antiga evidência comprovada de câncer em hominídeos era uma costela de Neanderthal com cerca de 120.000 anos.

“Devido ao seu estado”, explicou ao Sci-News o Dr. Bernhard Zipfel, um dos co-autores da descoberta, “não sabemos se esse único osso do pé canceroso pertenceu a um adulto ou uma criança, nem se o câncer levou o indivíduo à morte, mas podemos dizer que a capacidade de correr e andar do portador foi afetada. Em resumo, deve ter sido doloroso.”

Nesta renderização da vértebra do Australopithecus sediba, o tumor está destacado em tons rosados na sequência inferior. [Imagem: Paul Tafforeau/ESRF]

E esse nem é o caso mais antigo identificado pela equipe de Randolph-Quinney. Os pesquisadores também encontraram um tumor numa vértebra de Australopithecus sediba localizada em Malapa, também na África do Sul e datado de 1,98 milhões de anos. Curiosamente, o quadro desse caso mais antigo é mais claro que o daquele câncer no pé. Nessa vértebra, mais bem preservada, os cientistas observaram um tumor neoplásico benigno, que afetou um indivíduo macho, com desenvolvimento equivalente ao de um menino humano de 12 ou 13 anos.

Para Randolph-Quinney, o desenvolvimento de um tumor benigno num australopiteco é “fascinante não apenas por ser encontrado nas costas, um lugar extremamente raro onde a doença se manifesta em humanos modernos, mas também por ser uma criança. Esta é, de fato, a primeira evidência de tal condição num indivíduo jovem e todo o registro fóssil humano.”

Ainda não se sabe ao certo qual a causa de ambos os tumores, que são descritos num par de artigos publicados no South African Journal of Science. É possível que sejam de origem genética, mas esse tipo de análise ainda não foi realizada no material recém-descoberto. Mesmo assim, é o bastante para afirmar que o ambiente pré-histórico não era assim tão saudável e que o câncer vai muito além do nosso estilo de vida moderno — e, definitivamente, não é um castigo.

Referências

rb2_large_gray25Edward J. Odes et al. 2016. Earliest hominin cancer: 1.7-million-year-old osteosarcoma from Swartkrans Cave, South Africa [Mais antigo câncer em hominídeo: osteosarcoma de 1,7 milhões de anos vindo da Cavernsa Swartkrans, África do Sul]. South African Journal of Science 117 (7/8); doi:10.17159/sajs.2016/20150471

Patrick S. Randolph-Quinney et al. 2016. Osteogenic tumour in Australopithecus sediba: Earliest hominin evidence for neoplastic disease [Tumor osteogênico em Australopithecus sediba: mais antiga evidência de doença neoplásica em hominídeos]. South African Journal of Science 117 (7/8); doi: 10.17159/sajs.2016/20150470

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