Moinhos de vento em Consuegra, perto de Toledo, em La Mancha.

Toda ficção tem um fundo de verdade, mas será que algo tão fantástico quanto um cavalheiro atacando um moinho de vento seria baseado em fatos reais?

Para o historiador e arquivista espanhol Javier Escudero há evidências para dizer que sim. Como conta o jornal espanhol La Región, Escudero passou mais de dois anos revirando documentos do Arquivo Diocesano de Cuenca e descobriu fatos que podem ter inspirado diversos episódios de Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes [1547-1616].

Escudero disse ao periódico que “praticamente todas as histórias que aparecem nos primeiros 20 capítulos do Quixote são fatos reais” — do hábito de vestir-se de cavalheiro a sair de pousadas sem pagar e atacar um moinho de vento. Este episódio, o mais famoso do livro de Cervantes, pode ter sido inspirado por um incidente envolvendo Dom Agustín Ortiz.

De acordo com os documentos encontrados, D. Ortiz era filho de um cavalheiro da Ordem de San Juan e parte de uma família importante de La Publa de Almoradiel, próximo de El Toboso. Ele também deve ter sido a ovelha negra da família, exercendo vários bicos para se sustentar. Numa manhã de 1594, quando atuava como barbeiro, Ortiz teve uma treta no moinho de vento de Pedro de Morales, el viejo, na estrada de Santa Ana de El Toboso. O motivo do ataque foi bem mais mundano que os gigantes de Quixote.

Folha de documento encontrado nos arquivos de Cuenca por Javier Escudero.

Entre as dez da manhã e o meio-dia, o fidalgo esteve moendo grãos no moinho e, como todo fidalgo, levava sua espada embainhada. Entretanto, ficar lá deu ruim para Ortiz, que encontrou seus desafetos Pablo López e Pedro de Morales (que parece ter sido filho do moleiro).

Em meio à discussão, num ato de “aviso ou ameaça, ou orgulho de um fidalgo frustrado”, segundo Escudero, Ortiz sacou a espada. Em seguida, atacou uma cruz de madeira do tamanho de um homem que ficava perto do moinho. Com a espada, Ortiz a cortou pela base, jogou-a contra a parede do moinho e continuou golpeando-a até fazer picadinho da cruz.

O incidente teria sido esquecido pela História, mas a sorte de D. Ortiz mudou alguns anos depois. Em 1599, o fidalgo foi eleito alguacil (xerife) e resolveu acertar as contas com seus inimigos, entre os quais López e Morales. Diante da ameaça, os dois denunciaram Ortiz à Inquisição pelo incidente ocorrido anos antes no moinho de vento.

No Tribunal da Inquisição sediado em Cuenca, Pablo López e Pedro de Morales declararam que tentaram advertir o fidalgo do que estava fazendo — tal qual o que Sancho fez com Quixote. D. Ortiz, no entanto, menosprezou a advertência e continuou seu ataque enfurecido, chamando a atenção dos moleiros vizinhos.

Preso pelos inquisidores, D. Ortiz negou o incidente e, em sua defesa, chamou duas testemunhas: o padre Tapia e Guiomar Villaseñor. Tapia, que havia estudado com Ortiz na infância, deu fé de que o fidalgo era cristão velho e incapaz de cometer tamanha blasfêmia. O processo terminou em pizza: Ortiz foi apenas repreendido verbalmente pelos inquisidores e pagou 3 mil maravedis de fiança antes de ser solto.

Esta é apenas uma dentre as histórias reais encontradas por Javier Escudero nos documentos antigos da Igreja, da Real Chancelaria de Granada e do Arquivo Histórico Nacional da Espanha. Segundo o arquivista, os casos que mais se assemelham ao Dom Quixote envolvem membros de três famílias: os Acuña, os Villaseñor e os Ortiz. O próprio Cervantes teria escrito que conheceu os Villaseñor. É do contato com essas famílias, segundo Escudero, que o autor de Dom Quixote deve ter tirado sua inspiração para alguns episódios.

Javier Escudero, que tem apresentado os resultados de suas pesquisas em congressos de arquivistas, ressalta que o escritor foi “fiel à realidade e a La Mancha” e se diz surpreendido pelas suas descobertas, considerando “curiosíssimo que o ataque aos moinhos de vento possa ser real.”

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