Famosos pelo seu calendário complexo, os maias também tinham um mecanismo para corrigi-lo. Semelhante ao nosso ano bissexto, esse sistema pode ter surgido bem antes de Copérnico.

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Página 24 do Códex de Dresden, onde está o Prefácio da Tabela de Vênus

Descoberta há cerca de 120 anos, a Tabela de Vênus do Códex de Dresden é notável pelos registros dos movimentos do segundo planeta do sistema solar e por uma espécie de ano bissexto aplicado ao calendário maia. Embora seja mais complexo que o nosso, o sistema de contagem de tempo dos maias também precisava de correções periódicas. No entanto, esse bissexto ameríndio sempre foi visto pelos estudiosos como uma curiosidade, algo que seria usado apenas para fins astrológicos.

Geraldo Aldana quer mudar essa interpretação. Professor de antropologia da Universidade da Califórnia-Santa Bárbara (UCSB), Aldana propõe uma nova interpretação: a Tabela de Vênus teria sido parte de um projeto empírico de ajuste do calendário maia, com propósitos práticos.

No Prefácio da Tabela de Vênus, à página 24 do Códex de Dresden, há uma sutileza matemática no texto: uma correção para o ciclo irregular de Vênus, que é de 583,92 dias terrestres. Basicamente, é o mesmo esquema de arredondamento a longo prazo que usamos no calendário gregoriano e seus anos bissextos. Embora seja conhecido desde os anos 1930, esse mecanismo de correção sempre recebeu pouca atenção dos estudiosos, que consideravam que ele foi feito com métodos puramente numerológicos.

Embora a numerologia tivesse sua importância entre os maias, Aldana considera que essa é uma visão preconceituosa que precisa ser corrigida. Gregos e egípcios criaram suas versões do ano bissexto com base em observações gravadas nos registros históricos. Esse também seria o caso entre os maias, segundo o professor de antropologia da Califórnia, que começou a se perguntar como e quando o bissexto mesoamericano foi descoberto.

Em busca de uma nova interpretação, Aldana empreendeu estudos hieriglíficos, arqueológicos e astronômicos. Estudando detalhadamente o texto hieroglífico da Tabela de Vênus, Aldana reparou que um verbo importante e recorrente — k’al — pode ter um significado — encerrar — diverso do que normalmente lhe é atribuído pelos historiadores. Na leitura do professor, esse termo teria sentido histórico e cosmológico.

As ruínas de Copán não são apenas um destino turístico mas uma fonte histórica.

Assim, a Tabela teria resultado de um processo de coleção e comparação de registros astronômicos de longa data e não de mera numerologia. Se a Tabela teve mais de uma fonte, seria possível identificar alguma. Para descobrir, Aldana foi ao sítio arqueológico de Copán, em Honduras. Lá, soube que essa antiga cidade-Estado maia também mantinha seus registros de observações de Vênus. Esses dados teriam sido usados na confecção da Tabela de Vênus, segundo o antropólogo.

Mas o que Copérnico tem a ver com isso? Embora vivesse bem depois do declínio maia e jamais os tenha conhecido, o astrônomo polonês também precisou fazer cálculos para melhorar o calendário (a reforma proposta por Copérnico nunca foi implementada, mas seus cálculos auxiliaram na reforma empreendida por Gregório XII em 1582). Foi ao procurar meios de determinar com precisão a data da Páscoa e ao estudar registros históricos que Copérnico topou com um sistema heliocêntrico. Para Aldana, algo semelhante pode ter acontecido no Império Maia.

Segundo o professor, as correções ao calendário maia teriam sido motivadas por razões práticas, como calcular a data de festividades religiosas ou feiras comerciais. Se isso foi feito com base em registros históricos e com esses propósitos, argumenta Aldana, é possível determinar a época em que os maias passaram a usar essa espécie de ano bissexto.

Gerardo Aldana, prof. de antropologia da UCSB.

Então onde e quando viveu o Copérnico maia? Quem foi esse indivíduo? O professor da Universidade da Califórnia não tem resposta para todas essas perguntas mas os resultados de suas pesquisas, publicados no Journal of Astronomy in Culture, indicam que o Copérnico maia viveu antes.

Bem antes: as correções ao calendário venusiano teriam sido feitas em Chich’en Itzá durante o chamado Período Clássico Terminal (entre os séculos VII e XI do nosso calendário). Os cálculos de Aldana indicam que esse trabalho pode ter sido feito sob patrocínio de K’ak’upakal K’awiil, que viveu no fim do século IX e foi uma das mais importantes figuras históricas do período.

A Tabela de Vênus, portanto, foi fruto do trabalho da ciência maia e não de chutes numerológicos bem-sucedidos. Mesmo assim, é difícil saber que foi o autor da Tabela. “Eu não tenho um nome para essa pessoa”, esclarece Aldana em comunicado divulgado pela UCSB, “mas tenho o nome da pessoa que provavelmente era uma autoridade da época. É como se você soubesse quem era o papa sem saber qual foi o nome de Copérnico. Você sabe que o papa poderia tê-lo encarregado da tarefa, mas nunca saberia quem a fez.”

Referência

rb2_large_gray25ALDANA, Gerardo. Discovering Discovery: Chic’en Itza, the Dresden Codex Venus Table and 10th Century Mayan Astronomical Innovation [Descobrindo a Descoberta: Chic’ en Itzá, a Tabela de Vênus do Códex de Dresden e a Inovação Astronômica Maia do século X]. Journal of Astronomy in Culture, 1(1), Agosto 2016, pp. 57-76.

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