arline feynman

Feynman e Arline, no primeiro Natal que passaram juntos, em 1943.

Namore alguém que te ame como Feynman amou Arline

Embora normalmente trabalhem com equações e conceitos muitas vezes inacessíveis ao público leigo, existem momentos em que os físicos são como todos nós: eles também amam e também sofrem quando perdem entes queridos. A morte, afinal, é a única certeza da vida, mesmo para um físico como Richard Feynman [1918-1988]. Famoso tanto pelos seus diagramas quanto pelos seus causos mais tarde reunidos num livro, Feynman não pôde ser brincalhão o tempo todo.

Aos 27 anos, ele perdeu a esposa, Arline Helen Greenbaum, para a tuberculose. Os dois se conheceram ainda no colegial, mas só puderam se casar (secretamente, em 1942) após a graduação dele. Enquanto ele trabalhava no Projeto Manhattan, ela passava quase todos os dias internada por causa de sua doença. Quando não podiam se ver nos finais de semana, o casal costumava trocar cartas cheias de humor e amor.

Foi somente por meio de uma última carta, escrita cerca de um ano após a morte da amada, que Feynman pôde superar seu luto. Selada em 1946, esta missiva foi mantida em segredo pelo físico até a sua morte e só foi desenterrada pelo Open Culture. Na tradução que fazemos a seguir, é possível ver um Feynman romântico e com saudade da esposa, mas que não deixa de ter umas linhas de humor. Era assim, afinal, que ele costumava escrever para Arline:

17 de Outubro, 1946

D’Arline,

Eu te adoro, meu docinho.

Eu sei o quanto você gosta de ouvir isso, mas não escrevo apenas porque você gosta: escrevo porque isso me aquece por dentro só de te escrever.

Passou um tempo terrivelmente longo desde a última vez que te escrevi — quase dois anos. Mas eu sei que você vai me perdoar porque você entende como eu sou, teimoso e realista. Pensei que não havia sentido algum em escrever.

Mas agora eu sei, minha querida esposa, que é hora de fazer o que adiei por tanto tempo e que costumava fazer com tanta frequência no passado. Quero te dizer que te amo. Quero te amar. Sempre irei te amar.

Tem sido difícil pra minha cabeça entender o que significa te amar após a sua morte — mas eu ainda quero te confortar e cuidar de você e espero que você me ame e cuide de mim. Quero discutir meus problemas contigo, quero fazer pequenos projetos contigo. Até agora, não havia pensado que pudéssemos fazer isso, o que nós devemos fazer. Começarmos a aprender a fazer roupas juntos — ou a estudar chinês — ou arranjar um projetor de cinema. Posso fazer alguma coisa agora? Não. Estou sozinho sem ti e você era a “mulher-ideia”, a instigadora-geral de todas as nossas grandes aventuras.

Quando estava doente, você ficou aborrecida por não poder me dar algo que você queria e pensou que eu precisava. Não precisava ter se preocupado. Como te disse então não havia razão para tal porque eu te amei tanto e de tantas maneiras. E agora isso está cada vez mais claro: tu não pode me dar nada agora e mesmo assim, eu te amo tanto que você impede meu caminho para amar mais alguém. Quero que continue assim. Você, morta, é tão melhor do que qualquer pessoa viva.

Sei que vai me dizer que sou bobo e que deseja que eu seja plenamente feliz, sem você no meu caminho. Aposto que você está surpresa que, depois de dois anos, eu nem mesmo tenha uma namorada (exceto você, meu docinho). Mas não há nada que você possa fazer, querida, nem eu — e eu não entendo, pois encontrei muitas garotas e algumas bonitas e não queria ficar sozinho. Mas em dois ou três encontros, tudo parecia virar cinzas.

Só me resta você. Só você é real.

Minha esposa querida, como eu te adoro!

Eu amo minha esposa. Minha esposa está morta.

Rich.

P.S. Por favor, perdoe-me não te enviar isso — é que não sei qual é o seu novo endereço.

Apesar da pungência, Feynman não foi exatamente fiel ao conteúdo dessa carta (que provavelmente nem foi a última de amor que ele escreveu). Ele se casou mais duas vezes: com Mary Louise Bell entre 1952 e 1956 e com Gweneth Howarth a partir de 1960.

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