leaping the chasm (1886)

Leaping the chasm (1886)

Se você já precisou fotografar algo ou alguém em movimento e teve sucesso, sem ter de precisar esperar alguns minutos por uma imagem borrada, agradeça a Henry Hamilton Bennett.

Ele nasceu no Canadá (em 1843), foi criado em Vermont e, aos 14 anos, mudou-se com a família para Killbourn City, cidadezinha no interior do Wisconsin, atualmente chamada Wisconsin Dells. Henry chegou a ser aprendiz de carpinteiro mas acabou no exército da União durante a Guerra Civil americana [1860-1865]. Sem muita experiência, acabou ferido gravemente numa das mãos por um disparo da própria arma. Esse acidente infeliz mudaria a vida de Bennett.

De volta à vida civil, ele percebeu que não tinha mais condições físicas de ser carpinteiro. Assim, em 1865, comprou o único estúdio fotográfico da cidade. Curiosamente, sua experiência como carpinteiro lhe ajudaria muito no novo ofício: Bennett foi capaz de construir e consertar seu equipamento quase sozinho (as únicas coisas que comprava prontas eram as lentes).

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Caixa de Ferramentas de Bennett

Como não havia muita demanda para retratos numa cidadezinha nos cafundós de um estado que até hoje é esparsamente povoado, Bennett voltou suas lentes para as paisagens ao redor de Wisconsin Dells. Para isso, foi necessário desenvolver uma sala de revelação portátil, que ele levava numa carroça ou num barco até lugares como o vale do rio Wisconsin, um pequeno cânion com numerosas formações de arenito. Tipo uma Ponta Grossa (PR), só que no norte dos Estados Unidos.

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Cleopatra’s Needle

Em 1868, Bennett teve um estalo que mudou a vida da cidade inteira. Ele percebeu que os aspectos tridimensionais das formações rochosas ficavam perdidos nas fotografias bidimensionais. Foi então que ele começou a fazer imagens estereoscópicas. Reproduzidas em cartões-postais e suvenires, essas fotografias em 3D eram vendidas nas principais cidades dos EUA, atraindo cada vez mais turistas para Killbourn City, que logo tornou-se Wisconsin Dells.

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A câmera estereoscópica de Bennett

Nos anos seguintes, Bennett ampliou seu estúdio e fez muito dinheiro tirando fotos para os turistas e vendendo suvenires e cartões-postais. Na época, levava vários minutos para uma fotografia ser tirada. Em 1875, com uma demanda cada vez maior de turistas com cada vez menos tempo, Bennett começou a desenvolver um sistema de disparo aperfeiçoado, que permitiria captar imagens instantaneamente.

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Angel Rock with Boy

O novo sistema não apenas permitia fotos mais rápidas, mas também fotos de coisas mais rápidas. Agora era possível fixar a imagem de uma pessoa em pleno ar durante um salto, como na foto de abertura desse artigo. Essa, aliás, é a mais famosa foto de Bennett: a de seu filho Ashley saltando entre duas rochas, registrada em 1886.

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Bennett numa jangada (1886)

A essa altura, as chapas úmidas já eram coisa do passado. Com chapas secas e seu inovador sistema de disparo instantâneo, Bennett percebeu que poderia criar narrativas a partir de uma série de fotos sobre o mesmo evento. Assim, em 1886, Bennett e seu filho acompanharam um grupo de lenhadores numa viagem de 100 milhas. Voltaram com 30 fotos que, juntadas a outras imagens de arquivo, foram publicadas como The Story of Raftsmen’s Life on the Wisconsin [História da Vida dos Jangadeiros no Wisconsin]. Por esse motivo, Bennett é considerado um dos pais do fotojornalismo de ação.

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Wisconsin Dells (1896). Note a nitidez dos reflexos na água.

Mesmo com essas inovações, as câmeras da época ainda não registravam muito bem imagens do céu ou da água. Assim, Bennett também aperfeiçoou métodos de edição de imagem, sobrepondo negativos de céu e terra ou terra e água para criar uma única foto.

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Henry Hamilton Bennett (1843-1908)

Ironicamente, parte das inovações de Bennett levaram-no ao seu declínio. Seu sistema de disparo instantâneo permitiu o aparecimento de câmeras portáteis — como a clássica Kodak — nos anos 1890. Agora armados com suas próprias câmaras, os turistas que chegavam a Wisconsin Dells já não precisavam dos serviços de Bennett. Mesmo assim, ele conseguiu manter seu estúdio aberto, vendendo material fotográfico e presentes. Bennett continuou fotografando paisagens até falecer, em 1908, aos 65 anos. Com diversas remodelações, sua família manteve seu estúdio até 1999, quando foi restaurado à moda antiga e tombado pela Sociedade Histórica de Wisconsin.

Mais fotos de H. H. Bennett podem ser vistas aqui.

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