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Por Erick Lins*

Esses dias deparei com um artigo do Atila Iamarino publicado no Rainha Vermelha. É um texto do ano passado que só li agora, intitulado A ciência brasileira está em crise e a culpa é dos cientistas. É um texto provocativo e aborda basicamente a qualidade, não da produção científica no país, mas sim de sua comunicação e alcance ao grande público.

O que se viu é que os resultados do trabalho dos pesquisadores não chega ao conhecimento da população, mesmo a parcela que afirma ser interessada por ciência. Recentemente tivemos casos em que até formuladores de políticas públicas e autoridades passaram a questionar — ou melhor, afirmar que é insatisfatória — a efetividade dos investimentos em pesquisa.

Eis um exemplo:

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Ora, se até autoridades em áreas de alta especialização não conseguem compreender a importância de certas linhas de estudo, que dirá o leigo: ele sabe que os recursos para pesquisa são quase sempre públicos, ou seja, vêm do seu próprio bolso. Por outro lado, ele não sabe o que é de fato produzido com esse investimento.

Coincidentemente (ou não), vi um artigo bacana no JPCC (Journal of Physical Chemistry – C) de autoria de Osvaldo Oliveira Jr. do Instituto de Física da USP em São Carlos, publicado no início deste ano. O paper não trata de comunicação científica, e sim de dados objetivos sobre a produção acadêmica nacional no período recente em diversas áreas. Achei que valia o contraponto pra pensarmos mais sobre onde está o gargalo da percepção popular — se é no impacto e na qualidade da pesquisa ou se é na divulgação, ou se um pouco de ambos. Replico a seguir algumas das observações mais importantes do artigo.

Número de publicações

Houve um aumento substancial no número anual de publicações de autores e co-autores brasileiros entre 1981 e 2014, chegando ao total de 40.500 no último ano do levantamento. O número de publicações tendo “Brazil” como país de origem no Web of Science , a base utilizada por Oliveira, chegou a quase 47.000 em 2015 e se encontra em 38.000 até Outubro de 2016.

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Interessante ver que o número sobe mais entre 2006 e 2008, mas não há informação sobre o que teria motivado isso.

Em outra plataforma que agrega publicações científicas, o Scimago & Country Journal Rank mostra o Brasil em primeiro lugar disparado na América Latina em número de artigos publicados no período de 1996-2015. Só no ano de 2015 foram mais de 61 mil documentos. No ranking global, no entanto, estamos na 15ª posição, atrás de nossos “concorrentes diretos”, como Índia (9ª), Rússia (13ª) e Coréia do Sul (12ª), porém bem à frente da África do Sul (34ª).

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Essa base possui o índice H (última coluna), que leva em conta a quantidade de artigos publicados e o número de vezes que eles foram citados. Isto avalia portanto a relevância dos trabalhos, e nesse quesito estamos à frente dos demais hermanos.

Áreas de destaque

Este é Top 10 áreas de maior produção no Brasil entre 2007 e 2011 (dados da Thomson Reuters compilados por Oliveira)

  1. Agronomia

  2. Ciência de Plantas e Animais

  3. Farmacologia e Toxicologia

  4. Microbiologia

  5. Meio-ambiente/Ecologia

  6. Ciência Sociais

  7. Medicina Clínica

  8. Biologia e Bioquímica

  9. Neurociências

  10. Imunologia

Algumas coisas não surpreendem nessa lista: ter agronomia e ciências de plantas e animais no topo são coerentes com aquilo que entendemos como sendo a vocação do país. Agronegócio forte requer desenvolvimento técnico, que por sua vez vem com investimento em pesquisa aplicada. Esses ramos estão presentes não só nas universidades, mas são levados a todo vapor pela Embrapa em seus vários centros espalhados pelo Brasil.

Curioso é ver como as ciências sociais são tão mais produtivas do que áreas de alto impacto como imunologia. Essa é uma característica que os países “concorrentes” do Brasil (elencados por Oliveira como BRICK – Brasil, Rússia, Índia, China e Coréia do Sul) não compartilham.

O que isso quer dizer? Existe alguma correlação entre desenvolvimento técnico, ou PIB per capita ou qualquer outra mensuração econômica objetiva, com a produção científica nessas áreas? Do outro lado, existe causa e efeito entre a força das pesquisa em ciências sociais e melhoria da qualidade de vida da população desses países (esse cenário talvez tenha mais variáveis no meio do caminho, entre elas a de ordem política).

O artigo traz ainda dados quantitativos, como a evolução no número de Mestres e Doutores, em um crescimento coerente com o do número de publicações:

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Mostra também a evolução no número de patentes, e insinua uma relação com nossa balança comercial em áreas de alta exigência técnica:

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No primeiro gráfico, mais uma comparação com nossos colegas do BRICK, que mostra que a China está dando lavada em todo mundo. As universidades brasileiras não são mesmo famosas pela sua cultura de patentes, talvez por toda uma conjuntura que permeia sua administração — ainda existe uma corrente que entende que o certo é afastar a academia da iniciativa privada de qualquer jeito. O que é meio esquizofrênico, já que as universidades federais bem estruturadas possuem suas incubadoras de empresas e seus centros de empreendedorismo, inclusive com áreas dedicadas à busca por patentes — é o caso do Centro de Desenvolvimento Tecnológico da Universidade de Brasília (CDT/UnB), só para citar um exemplo.

O segundo gráfico mostra dados do déficit na balança comercial especificamente em áreas de alta tecnologia. Nota-se que no quesito ‘produtos químicos’ nós dependemos muito do que vem de fora, mais até do que nas demais áreas comparadas (‘tecnologia da informação’, ‘farmacêutica’, ‘saúde’ e ‘equipamentos’). Esse déficit fica mais acentuado em 2013, chegando a R$ 80 bilhões segundo dados do MCTI.

Mas e a qualidade?

Oliveira também analisou o impacto das publicações, e a nossa situação perante outros países. Os dados para esta análise são originários da FAPESP, embora não fique claro como foi feito esse cálculo. São levados em conta 3 “impactos”:

  • Impacto Social — pesquisa que influencia ou resulta em novas políticas públicas,

  • Impacto Econômico — interfaceando com empresas e indústrias, são estudos que contribuem diretamente para seu crescimento e competitividade, e

  • Impacto Intelectual — que coaduna com a pesquisa não-aplicada, contribuindo para a expansão do conhecimento.[2]

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Aqui vemos que alguns países demonstram crescimento em impacto nas duas últimas décadas, como Reino Unido, Itália e China. O Brasil tem perfil mais equânime, ainda que com alguns altos e baixos, enquanto os EUA estão constantes lá no topo há um bom tempo.

Quanto à Química e a Físico-Química

Falando especificamente de físico-química, Oliveira enfatiza que esta é uma área que navega entre diversas outras, e é a mais disseminada dentre as grandes áreas da Química no Brasil, mesmo quando não é o fim do estudo em si — isto é, provê ferramentas, modelos e métodos para alcançar outros resultados específicos. De fato, várias coisas “geradas” na físico-química servem para embasar ou permitir experimentos em outras áreas, ou ajudam a compreender comportamentos em nível molecular, além de fundamentar uma variedade de técnicas analíticas como espectroscopia. No gráfico, ele mostra número de artigos publicados por autores brasileiros ou com endereço de correspondência no Brasil em períodicos que possuam os termos “physical chemistry”,chemical physics” e “electrochem”. Isso dá portanto uma contabilização conservadoa, já que periódicos generalistas, como JACS (Journal of the American Chemical Society), estariam fora.

imageO perfil da contribuição da produção em físico-química também é crescente. Oliveira faz ainda um breakdown de como outras palavras-chave poderiam muito bem aparecer nesse cômputo — como colloids, nano, fuel cells etc.

Tentei buscar um número atualizado ate Novembro de 2016 com a busca avançada do Web of Science com os três tópicos que ele propõe incluídos na definição do periódico, restringindo somente para publicações do Brasil como país de origem (isso exclui pesquisadores brasileiros trabalhando no exterior), e até aqui temos 87 artigos, por enquanto 21 a menos do que no ano passado.

Conclusão

O impacto da nossa pesquisa talvez não seja o desejável, contudo vem evoluindo — em certos aspectos mais do que em outros. Se por um lado temos alimentado bem o campo acadêmico, por outro a indústria pouco tem se beneficiado desse trabalho. E aí podem ter outros motivos envolvidos que não a qualidade da pesquisa, como o próprio interesse da indústria em investir em novas tecnologias ou mesmo os obstáculos da obtenção de patentes.

Oliveira fez um ótimo trabalho de compilação, e eu espero que continuemos mapeando esse cenário e medindo seu desempenho, afinal “não é possível gerenciar o que não se pode medir.”

Referências

rb2_large_gray25[1] Osvaldo N. Oliveira, Research Landscape in Brazil: Challenges and Opportunities [O Cenário da Pesquisa no Brasil: Desafios e Oportunidades], J. Phys. Chem. C, 2016, 120 (10), pp 5273–527 DOI: 10.1021/acs.jpcc.6b01958

[2] Carlos Henrique de Brito Cruz, Busca pela Excelência em Universidades no Brasil, apresentação, http://www.fapesp.br/eventos/2014/01/Excellence/excellence-in-higher-ed-chbc20140122.pdf


* Erick Lins é autor do ComplexoAtivado e propôs essa contribuição ao hypercubic. Estamos acertando uma colaboração e ele vai escrever aqui às vezes. Se você também quiser colaborar conosco (com textos ou ilustrações), entre em contato.
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