As ovelhas em primeiro plano dessa concepção artística estariam onde hoje é o litoral da região de Calais, na França. [Imagem: Chase Stone/ICL]

As ovelhas em primeiro plano dessa concepção artística estariam onde hoje é o litoral da região de Calais, na França. [Imagem: Chase Stone/ICL]

Como e quando aconteceu a separação entre a Grã-Bretanha e o continente europeu? Foi, literalmente, uma cascada de eventos.

São apenas 30 os quilômetros de mar que separam Dover, na Inglaterra, de Calais, na França. Há milhares de anos, era possível fazer esse trajeto a pé. Onde hoje é o Canal da Mancha, havia um terreno baixo e ondulado, protegido por paredões de calcário semelhantes aos que ainda hoje se veem no litoral sul inglês.

Evidentemente, toda essa baixada foi inundada, criando uma grande ilha ao largo da Europa Ocidental. Como e quando isso aconteceu? Uma colaboração entre os cientistas do Imperial College de Londres (ICL) e seus colegas europeus revela que o Estreito de Dover se abriu em duas etapas. Inicialmente, houve a formação de um lago atrás dos paredões. Eventualmente, outros lagos se formaram e transbordaram, inundando toda a área entre os territórios francês e britânico.

Esse antigo lago, do tipo pró-glacial, foi proposto pela primeira vez há mais de 100 anos. De vez em quando o lago inundava, causando o surgimento de cascatas que erodiam os paredões de calcário vizinhos. Enfraquecida pela erosão, a barreira de pedra acabou entrando em colapso, inundando toda a região. É uma boa teoria, mas faltavam evidências físicas — até agora.

Novos dados geofísicos coletados por cientistas da França e da Bélgica foram combinados com o mapeamento submarino feito pelo Reino Unido. Dessa forma, os pesquisadores encontraram uma linha de bacias escavadas na rocha submersa. Com alguns quilômetros de diâmetro e até 100 metros de profundidade, essas bacias teriam sido formadas por quedas d’água dos paredões calcários. Sete dessas bacias foram identificadas em estudo publicado na Nature Communications. Para os pesquisadores, esses buracões são evidências do fluxo de água vindo do lago pró-glacial.

Fossa D, uma das bacias identificadas pelo estudo publicado na Nature Communications [vide referência].

Fossa D, uma das bacias identificadas pelo estudo publicado na Nature Communications [vide referência].

Com base no tamanho e na localização dessas bacias, os cientistas estimaram a altura e o comprimento do paredão entre a Europa e a Grã-Bretanha: era uma serra estreita de 100 metros de altura e 32 quilômetros de comprimento, que corria próxima ao que hoje são os portos de Calais e Dover. A equipe ainda não tem uma linha do tempo exata dos eventos, mas a inundação definitiva teria ocorrido há cerca de 450 mil anos. O processo, porém, começou alguns milhares de anos antes.

Naquela época, durante um período glacial, a baixada da Mancha não era exatamente um lugar aprazível. O terreno era irregular e frio, parecido com o interior da Sibéria atual. Às vezes, porém, esquentava, formava-se o lago pró-glacial e as cascatas sobre os paredões de calcário. Embora intermitente, foi um processo intenso o bastante para enfraquecer o paredão. Eventualmente, começaram a se formar diversos lagos e o volume das cachoeiras alcançou níveis catastróficos. Em relativamente pouco tempo, as escarpas rochosas entraram em colapso, seus destroços foram levados pela enxurrada diluviana e a Grã-Bretanha tornou-se uma ilha.

Mapa batimétrico produzido pela equipe britânica. Note a (discreta) continuidade submarina entre as estruturas calcárias, assinaladas pela linha pontilhada. [Imagem: ICL]

Mapa batimétrico produzido pela equipe britânica. Note a (discreta) continuidade submarina entre as escarpas calcárias, assinaladas pela linha pontilhada. [Imagem: ICL]

O ato final da catástrofe pode ter tido um empurrãozinho sísmico, segundo a Dra. Jenny Collier, do Departamento de Ciências da Terra e Engenharia do ICL. “Em termos de falha catastrófica da serra, talvez [tenha sido] um tremor de terra, que ainda é característico dessa região atualmente, o que enfraqueceu o paredão”, explicou Collier em comunicado do Phys.org.

Hoje as bacias localizadas por Collier e seus colaboradores estão repletas de sedimentos, que serão analisados para determinar o período de escavação e sedimentação das bacias. Entretanto, não vai ser fácil colher amostras para análises em meio a áreas com grandes marés e com o mais intenso trânsito naval do mundo.

Referência

rb2_large_gray25Gupta, S. et al. Two-stage opening of the Dover Strait and the origin of island Britain [Abertura em dois estágios do Estreito de Dover e a origem da ilha britânica]. Nat. Commun. 8, 15101 doi: 10.1038/ncomms15101 (2017). Publicado on-line em 04/04/2017.

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