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Más notícias para a habitabilidade do sistema formado por uma anã-vermelha e sete planetinhas: o lugar é uma frigideira magnética.

TRAPPIST-1 tornou-se o sistema solar queridinho da comunidade científica e dos jornalistas quando, há quase dois meses, foi anunciada sua descoberta. Formado por uma anã-vermelha de tipo M e um complexo grupo de sete planetas, o sistema TRAPPIST-1 poderia ter três planetas na zona habitável. Situado a cerca de 40 anos-luz de distância e com estimados 500 milhões de anos de idade, esse sistema extrassolar é praticamente um bebezinho — e os humanos costumam gostar de todo tipo de bebês.

No entanto, uma pesquisa conduzida por pesquisadores do Observatório de Konkoly, na Hungria, mostra que TRAPPIST-1 não é lá um bebê muito agradável. Liderados pelo astrônomo Krisztián Vida (sim, esse é o nome dele), os astrônomos analisaram os dados fotométricos brutos da missão K2 do Telescópio Espacial Kepler. Com base na curva de luz derivada de 80 dias de observações, os cientistas identificaram diversas erupções (ou flares) altamente energéticas.

Embora seja outro tipo de estrela, maior e mais velha, o nosso sol também tem seus ataques de brilhantismo. Os flares solares são resultado de tempestades energéticas causadas pelo rompimento de linhas magnéticas. O mesmo fenômeno deve estar acontecendo em TRAPPIST-1, só que lá a intensidade e a frequência dessas explosões são muito maiores.

Curva de luz da erupção solar mais intensa registrada em TRAPPIST-1. Nos detalhes, eventos antecedentes (à esq.) e subsequentes (à dir.).  [Imagem: Vida et. al., 2017]

Curva de luz da erupção solar mais intensa registrada em TRAPPIST-1. Nos detalhes, eventos antecedentes (à esq.) e subsequentes (à dir.). [Imagem: Vida et. al., 2017]

Foram observados flares nas frequências de raios-X e ultravioleta mas também na bem visível luz branca. A mais intensa das erupções em TRAPPIST-1 liberou cerca de 1033 ergs em luz branca. Isso equivale ao Evento de Carrington, uma tempestade solar registrada em 1859 que foi tão forte que causou auroras em latitudes tropicais e fritou linhas telegráficas.

Para agravar a situação, os planetas daquele sistema estão muito mais próximos (entre um e seis centésimos de unidade astronômica) de sua estrela-mãe. Essa é uma má notícia para quem esperava que TRAPPIST-1 fosse um lugar propício à vida. A conclusão do estudo pré-publicado por Vida et. al. na plataforma arXiv.org (e à espera de revisão pelo Astrophysical Journal) é que essas frequentes tempestades magnéticas devem alterar de maneira irreversível as atmosferas dos planetas ao redor de TRAPPIST-1. Se existirem, as atmosferas desses planetas seriam instáveis demais para abrigar vida.

Como acontece com a Terra, campos magnéticos podem proteger a atmosfera dessas turbulências solares. Não sabemos se os planetas de TRAPPIST-1 são dotados de magnetosferas, mas isso parece improvável. Diante do contexto descoberto por Vida e seus colaboradores, estima-se que os planetas de TRAPPIST-1 precisariam de campos magnéticos fortíssimos, da ordem de dezenas ou centenas de Gauss (o da Terra, por comparação, mede apenas meio Gauss). Mergulhado numa frigideira magnética invisível à distância, o sistema TRAPPIST-1 parece sedutor. Mas ali qualquer ser vivo (ou talvez até robótico) acabaria frito. Como diria o Almirante Akbar: IT’S A TRAP!

Referência

rb2_large_gray25Vida et al. Frequent flaring on TRAPPIST-1 – unsuited for habitability? [Flares frequentes em TRAPPIST-1 – inadequado à habitabilidade?] arXiv:1703.10130 [astro-ph.SR]

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