Vista, através do arame farpado, dos barracões de prisioneiros no campo de concentração de Flossenbürg. Flossenbürg, Alemanha, 1942. [Imagem: Bildarchiv Preussischer Kulturbesitz]

Vista, através do arame farpado, dos barracões de prisioneiros no campo de concentração de Flossenbürg. Flossenbürg, Alemanha, 1942. [Imagem: Bildarchiv Preussischer Kulturbesitz]

Nos campos de concentração, arames farpados eram as barreiras que prendiam os prisioneiros judeus. Curiosamente, foram rolos de arame que gravaram suas primeiras memórias após a libertação.

Enquanto avançavam pelos territórios ocupados pela Alemanha Nazista nos estágios finais da II Guerra Mundial, as Forças Aliadas puderam ver, ao vivo, os horrores de campos de concentração, muitos dos quais abandonados às pressas. Cientes da importância do achado, os militares aliados registraram a chocante descoberta em filmes — alguns dos quais foram usados mais tarde como prova no Julgamento de Nuremberg. No entanto, nenhum desses registros cinematográficos dava voz aos sobreviventes do Holocausto.

O professor de psicologia David Boder [1886-1961], do Instituto de Tecnologia de Illinois percebeu essa lacuna e resolveu fazer alguma coisa. Assim, no verão de 1946, ele passou por campos de refugiados na França, na Suíça, na Alemanha e na Itália, onde gravou entrevistas com cerca de 130 judeus sobreviventes, que falavam nove línguas. Essas gravações de primeira mão foram feitas como que havia de mais sofisticado na época: o gravador de arame. Em cerca de 200 rolos de arame, Boder registrou 120 horas de entrevistas, com algumas das primeiras memórias orais dos sobreviventes dos campos de concentração, além de canções e orações.

Um gravador de arame da marca Peirce, fabricado em 1945, tem o tamanho de uma maleta. Boder deve ter usado um equipamento similar. [Imagem: Wikimedia]

Um gravador de arame da marca Peirce, fabricado em 1945, tem o tamanho de uma maleta. Boder deve ter usado um equipamento similar. [Imagem: Wikimedia]

Embora fosse moderno, o gravador de arame logo se tornou obsoleto com a chegada dos gravadores de fita magnética, mídia que se tornou comum na virada da década de 1950. Hoje pouco lembrado, o gravador de arame foi precursor da fita e seguia o mesmo princípio: uma cabeça de gravação magnetizava o arame à medida que ele era transferido de um rolo para outro. Para os padrões da época era bastante portátil e tinha uma qualidade melhor do que os fonógrafos de cera. Boder, portanto, pode ter tido a melhor das intenções, mas escolheu a mídia errada (também errou ao tentar transcrever todo o material sozinho). Em pouco tempo, suas gravações caíram no esquecimento. Em 1967, parte da coleção de arames gravados de Boder acabou doada ao Centro Cummings de História da Psicologia da Universidade de Akron (UA), nos Estados Unidos.

Apesar da importância do conteúdo, o acervo de Boder manteve-se praticamente intocado durante meio século. Com o passar dos anos, os arames tornaram-se cada vez mais difíceis de ouvir. Não apenas pela natural queda da qualidade das gravações mas sobretudo pela dificuldade em encontrar um leitor de arames gravados. Lidar com mídia obsoleta é um problema que pode ser resolvido com a digitalização, coisa que a UA vem fazendo há algum tempo. Foi isso que levou à redescoberta de um rolo de arame que continham canções do Holocausto que pensava-se estar perdidas.

Parte do esquecimento deve-se a um erro de arquivamento — a gravação estava guardada numa lata com a etiqueta errada — que foi facilmente corrigido. Mais difícil foi conseguir ouvir o rolo para saber o que ele realmente tinha. Embora o Centro Cummings tivesse alguns gravadores de arame em sua coleção, nenhum era compatível com os rolos de Boder. Durante um ano James Newhall, produtor multimídia da UA, tentou achar um modelo que servisse. Quem o encontrou foi uma funcionária do laboratório de Newhall, Litsa Varonis. O equipamento estava em oferta no eBay e Varonis o adquiriu e fez a doação à universidade. Pouco depois disso, a sra. Varonis se aposentou mas não teve sossego.

O equipamento adquirido e doado não chegou à universidade em melhor estado. Não funcionava muito bem e era necessário fazer adaptações para permitir o processo de digitalização. Newhall recorreu a sra. Varonis e ela pediu ajuda ao marido, Orestes Varonis. Também aposentado, seu Orestes havia sido engenheiro elétrico e orientou Newhall no restauro e adaptação do velho aparelho. “Passamos muito tempo em pesquisa e experimentos”, conta Newhall em comunicado divulgado pelo Phys.org. “O gravador já não usa tubos de vácuo ou tiras elásticas e foi reconstruído quase inteiramente com novas peças. Agora tem um mecanismo de tração mais simples e preciso.”

Embora pareça improvisado, o equipamento construído por Varonis e Newhall permitiu ouvir e digitalizar um dos rolos de Boder. [Imagem: Universidade de Akron/divulgação]

Embora pareça improvisado, o equipamento construído por Varonis e Newhall permitiu ouvir e digitalizar um dos rolos de Boder. [Imagem: Universidade de Akron/divulgação]

Era justamente por isso que Jon Endres estava esperando. Endres foi o encarregado de digitalizar as gravações perdidas. O que ele ouviu foi uma gravação feita no campo de refugiados de Hénonville, no norte da França. Registrada em alemão e iídiche, a peça continha canções que os prisioneiros eram obrigados a cantar durante sua rotina de trabalhos forçados. Para Endres, “a descoberta dessa latinha única contendo uma gravação perdida significa que essas canções podem ser ouvidas de novo, podem ser estudadas e nos informar de novas maneiras sobre as experiências, as alegrias e as frustrações dessas pessoas deslocadas [à força].”

Além da ajuda do casal de aposentados, a descoberta exigiu outra colaboração. A UA pediu ajuda ao Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos para fazer a transcrição e tradução do material. Como forma de agradecimento, o Museu recebeu uma cópia digitalizada da gravação descoberta. Há grandes chances de se encontrar novas gravações esquecidas ou mesmo inéditas: a coleção de Boder continua sendo organizada e restaurada e o Centro Cummings tem incentivado a colaboração de pesquisadores visitantes.

O equipamento reconstruído pelo Sr. Varonis e Newhall pode ser visto em ação no vídeo a seguir, que explica como foi o trabalho de recuperação desse material. Também é possível escutar um pequeno trecho da gravação feita por Boder há 70 anos.

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