Tanto as festas juninas quanto o semestre estão acabando e estive ocupado com a redação de um artigo para o Mestrado, mas isso não significa que abandonei meu hábito de ver (e recomendar) documentários sempre que possível. Neste mês, veremos a frágil beleza dos biomas colombianos, quanto custa a moda barata, como vivem os guarda-costas de famosos, como se faz humor no Oriente Médio e como é ser gay em Israel.


The true cost (92min., 2015) — Uma camisa social por $5, uma saia por $8,50 e um jeans por $20. Parece um bom negócio, mas será mesmo? Como é possível produzir tantas peças de roupas a preços tão baixos? Quais são, de fato, os verdadeiros custos por trás do que alguns chamam de “democratização da moda”? Sem qualquer conhecimento do setor têxtil mas com muita de vontade de encontrar respostas para essas perguntas, o documentarista Andrew Morgan correu o mundo. Pelo caminho, passou por lugares tão distinto como China, Bangladesh, Camboja, o interior do Texas e pólos da moda como Londres e Milão. O resultado dessas andanças é esse documentário, que pode ser dividido em três partes: na primeira, são discutidos os impactos e as causas da pressão por preços baixos sobre as condições de trabalho de quem costura as roupas em liquidação ou planta o algodão que será tecido. Na segunda parte, vemos os impactos ambientais e ecológicos na produção de couro na Índia. Por fim, são apresentados os impactos socioeconômicos da fast fashion de um ponto de vista mais amplo: de operários grevistas mortos no Camboja ao exigir um salário mínimo mensal equivalente a oito calças jeans ($160) à agricultora de algodão texana que perdeu o marido para um câncer causado pelo uso intensivo de agrotóxicos. Em contraponto à superficialidade das propagandas e dos vídeos das blogueiras de moda, Morgan buscou ouvir tanta gente quanto possível: designers de moda, jornalistas especializados, sindicalistas, ativistas ecológicos, promotores do comércio equitativo, economistas e um psicólogo (também tentou entrevistar responsáveis por marcas como Forever 21, Zara e H&M, mas sem sucesso). Como resolver um problema tão grande? A resposta pode estar na promoção não das roupas mas de novas formas de consumo, que deixem de ver as peças como itens descartáveis (como uma inacreditável propaganda de ternos, que chega a compará-los a papel-toalha). Mais do que o preço na etiqueta, é preciso levar em conta os custos sociais e ambientais da produção de uma camisa social, uma saia ou uma calça jeans…


Bodyguards: secret lives from the watchtower (91 min., 2016) Eles costumam aparecer em jornais, revistas e TV, mas ninguém repara neles. Quando são descritos, são apresentados como leões-de-chácara, capangas, seguranças, guarda-costas. Independente do nome, a tarefa desses caras (e de algumas mulheres) é a mesma: proteger o “principal”, que pode ser um artista pop, um líder político, um diplomata num país em guerra ou um chefe do crime organizado. Produzido e dirigido por Jaren Hayman, este documentário tem três partes ou “capítulos”. Na primeira, nós conhecemos alguns desses profissionais de segurança privada. Gente como Anton (que já trabalhou com 50 cent e Lil Wayne), Mikey (Justin Bieber), Kevin (James Whitey Bulger, um mafioso de Boston), Shamir e Tairon (guarda-costas militares) e Rory e Jason (Nelson Mandela). Em seguida, acompanhamos o trabalho e o treinamento desse pessoal, que têm de lidar com multidões de fãs ensandecidas a proteger seus principais em territórios hostis, além de resolver problemas logísticos, conter gente exaltada e despistar pessoas (parte disso é explicado por uma equipe de mulheres guarda-costas de Londres). Dependendo do caso, é uma rotina que pode envolver a criação de laços de amizade e companheirismo ou muita violência, com assassinatos, rajadas de metralhadoras ou risco de bombas. Por último, é apresentado o lado mais humano dos seguranças, que refletem sobre suas experiências mais memoráveis e falam dos sacrifícios que já tiveram que fazer. Se alguém pensa que vai se dar bem com as meninas ou com dinheiro trabalhando como guarda-costas, um aviso: esse ramo não é nada glamuroso, nem sempre é bem pago e exige gente pronta a tomar tiros no lugar de alguém, fazer disparos no momento certo, lidar com centenas ou milhares de adolescentes histéricos, rever suas posições políticas e/ou abrir mão da vida pessoal e familiar. Tudo pelo principal.


Just like us (71 min., 2010) — Eles parecem sempre carrancudos e mal-humorados. Elas muitas vezes têm as expressões ocultas por trás de diversos tipos de véu. Esses são dois estereótipos comuns sobre homens e mulheres árabes e muçulmanos (é importante lembrar que há uma diferença entre esses dois grupos). Para quebrar esse estereótipo de que não se ri no Oriente Médio, o comediante egípcio-americano Ahmed Ahmed faz uma turnê pela região, cujos bastidores são registrados por esse documentário. Em companhia de outros comediantes inter-étnicos, como um greco-canadense, um ítalo-americano, um iraniano-americano, Ahmed procura descobrir o que causa risos e, lugares como Dubai, Beirute, Riad e Alexandria. O que encontrou foram jovens cada vez mais dispostos a rir de si mesmos, de seus hábitos e costumes, de suas relações com o resto do mundo e mesmo dos estereótipos que os estrangeiros criaram mesmo que para isso tenham que participar de eventos clandestinos, como na Arábia Saudita e as hilárias experiências com taxistas, que parecem ser uma fonte de humor universal. Outros motivos para riso são mais imprevisíveis e surpreendentes, como crianças invadindo um palco de stand-up e as zoações feitas aos turistas por egípcios comuns. Ainda no Egito, Ahmed reencontra suas raízes e termina a turnê em Nova York com um espetáculo baseado em suas experiências. Conclusão: os árabes não só sabem rir mas também estão aprendendo a fazer todo mundo rir. Talvez por isso esse documentário também tenha sido classificado como comédia pelo Netflix.


Colombia – Wild Magic (95 min., 2015) — Qual é a primeira coisa que lhe vem à cabeça quando você pensa na Colômbia? Pablo Escobar? Café? Shakira, Shakira? Este documentário mostra o que está além dos estereótipos de nosso vizinho noroestino: como a animação de abertura, a trilha sonora executada pela Orquestra Sinfônica da Colômbia e, sobretudo, a vida selvagem do país. Ali existem muitas espécies como as onças-pintadas, as capivaras e as sucuris e ambientes como a Amazônia e os Llanos, semelhantes ao nosso Pantanal em comum conosco. Mas a natureza colombiana também guarda suas surpresas: o rio mais belo e colorido do mundo, a rã mais tóxica do planeta, o único urso sul-americano, o macaco mais raro da Terra, só descoberto em 2010, glaciares equatoriais à beira-mar e os páramos, zonas montanhosas extremamente úmidas, salpicadas de lagos e pântanos e que matam a sede de milhões de colombianos. Embora haja muitas áreas protegidas, com 59 parques nacionais, a Colômbia também se parece com a gente no desmatamento ilegal para a produção de monoculturas (como o icônico café), criação de gado e mineração. Seus inúmeros rios também vem sendo manchados pelo crescimento da população e da indústria. Dirigido por Mike Slee e narrado por Julio Sanchéz Cristo, este documentário não é apenas uma bonita peça de propaganda da natureza colombiana; é também um apelo pela preservação das riquezas do segundo país mais biodiverso do mundo. Só tem dois defeitos graves: o ambiente caribenho, talvez a face mais conhecida pelos turistas estrangeiros é mencionado apenas de passagem e o impacto ambiental do narcotráfico (outro grande clichê colombiano) é inteiramente ignorado.


Oriented (79 min., 2015) — Se ser gay é ter problemas por ser parte de uma minoria, imagine ser gay e palestino em Tel-Aviv. Não precisa imaginar, basta ver esse documentário. Khader Abu Seif, Fadi Daeem e Naeem Jiryes são três gays palestinos. Ou seriam três palestinos gays? Dá pra conciliar essas duas identidades? É possível, mas não quer dizer que seja fácil — ainda mais numa cultura tão machista quanto a do Oriente Médio. Diante disso, cada um age e reage de um jeito. Khader é o mais seguro de si, vivendo e namorando um israelense depois de ter saído do armário e ser bem aceito pela família. Fadi é o politizado, profundamente dividido entre suas duas identidades; também saiu do armário mas só foi aceito por sua mãe. Naeem, o mais novo, é o único que ainda não saiu do armário e procura uma forma de fazer isso. Quando não estão fazendo ativismo por meio de videoclipes, os três estão sempre juntos, divertindo-se, bebendo, trocando ideias e nas baladas da região. No entanto, enquanto discutem a possibilidade de uma Palestina mais aberta e mais acolhedora, explode um dos mais sérios conflitos árabe-israelense dos tempos recentes — a guerra do verão de 2014. Embora estejam relativamente seguros, todos sentem-se frustrados pela eclosão do conflito e também por suas próprias questões pessoais e emocionais. Quando a coisa aperta, eles vão passar férias em Berlim. Pode ter sido uma decisão compreensível para os três, mas não para o documentário, que termina fugindo das questões que deveria tratar.

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