Larvas de S. exigua sobre folha de soja [Imagem: Michasia Dowdy, University of Georgia, Bugwood.org]

Larvas de S. exigua sobre folha de soja [Imagem: Michasia Dowdy, University of Georgia, Bugwood.org]

Das manadas de leões a potências coloniais, dividir para conquistar é uma estratégia comum entre os predadores animais. A mesma estratégia parece ser a arma das plantas contra os herbívoros simples, como as lagartas.

Sem poder sair correndo diante de um predador, as plantas parecem bastante vulneráveis e sempre prontas a virar comida. Mas elas não são tão inofensivas quanto parece, especialmente se você é uma lagarta comedora de pés de tomate. Nesse caso, é melhor evitar o tomateiro se não quiser virar uma lagarta zumbi canibal.

O que parece um roteiro de filme B antivegetariano na verdade é o resultado de uma pesquisa conduzida pelo professor de biologia integrada John Orrock, da Wisconsin-Madison, e dois de seus orientandos, o pós-doutorando Brian Connolly e o graduando Anthony Kitchen. Partindo de várias pesquisas anteriores baseada na interação entre as larvas da traça Spodoptera exigua e o tomate, Solanum lycopersicum, Orrock percebeu que havia relatos de canibalismo entre os insetos.

Por mais grotesco que nos pareça, o canibalismo é uma ocorrência comum no mundo natural, sobretudo quando há uma extrema ausência de outras fontes de alimentação. No caso da S. exigua, isso pode acontecer quando há lagartas demais e plantas de menos em determinada área. A literatura anterior já indicava isso, mas Orrock e seus colegas continuaram intrigados porque também havia relatos de canibalismo entre as pragas mesmo com tomateiros de sobra. Como uma lagarta herbívora transforma-se em um canibal?

Tomates assassinos

Os pesquisadores perceberam que esse poderia ser um truque de defesa do pé de tomate. Não é difícil imaginar uma lagarta mordendo uma folha de tomate, fazendo uma cara feia com o extremo mau gosto e passando a mastigar outra S. exigua para matar a fome. Mas qual seria a substância zumbificadora?

Como outras plantas, o tomate emite substâncias para tentar se defender do ataque de um herbívoro. Uma dessas substâncias é o metil-jasmonato (MeJa), que já era conhecido como uma espécie de alarme vegetal. Quando emitido, o MeJa poderia ser detectado por via aérea pelas plantas vizinhas, que poderiam se preparar para a possibilidade de ser comida.

Juntando tudo isso, foi fácil criar um experimento. Tudo o que Orrock et. al. tiveram que fazer foi juntar tomateiros, lagartas e MeJa num mesmo ambiente, um tapauér contêiner de plástico. Dentro de cada pote foi colocado um pé de tomate, que foi borrifado com diferentes concentrações de MeJa ou uma solução inerte, e oito larvas. A cada dia, contava-se o número de lagartas para saber quantas haviam comido (ou sido comidas). Após oito dias, foram pesadas as plantas, o que determinou quanto material vegetal foi preservado.

Os resultados, publicados na Nature Ecology & Evolution em 10/07, indicam que as lagartas consomem as plantas inteiras antes de voltar-se ao canibalismo quando há pouca ou nenhuma concentração de MeJa. Por outro lado, as S. exigua expostas a plantas com fortes doses dessa substância tornaram-se canibais depois de apenas algumas mordidas no tomateiro.

Segundo Orrock, em comunicado ao Phys.org, “do ponto de vista da planta, essa é uma doce vitória. Os canibais beneficiam a planta não apenas consumindo herbívoros mas também não tem muito apetite por matéria vegetal, provavelmente porque já estão satisfeitos após comer outras lagartas.” É um resultado impressionante, mas precisava de uma comprovação.

Comida congelada

Mesmo num período sabático na Universidade Comunitária de Virgínia, o próprio Orrock se encarregou de comprovar seu experimento com uma segunda experiência. Dessa vez ele colocou uma única lagarta em potes contendo folhas com ou sem doses moderadas de MeJa. Alguns contêineres também receberam lagartas que pareciam vivas mas estavam semicongeladas e não poderiam disputar o petisco vegetal. Mesmo assim, as S. exigua expostas a folhas com bastante MeJa acabavam preferindo consumir o colega semimorto.

Nesse caso foi possível medir as taxas de crescimento das lagartas. Tanto nas lagartas que comeram as plantas inofensivas quanto nas que se tornaram canibais o acúmulo de biomassa foi praticamente igual. Por outro lado, S. exigua que tiveram apenas a opção de comer plantas bem defendidas por MeJa comeram pouco e cresceram menos.

Como larvas de S. exigua são uma praga agrícola bastante comum, esse mecanismo de defesa natural poderia ser estimulado, o que evitaria o uso de agrotóxicos. No entanto, Orrock e seus colaboradores ainda não sabem se ou como funcionaria o canibalismo induzido em campo aberto. Diferente de um pote dentro de um laboratório, numa lavoura as lagartas poderiam fugir de uma planta bem armada para outra menos defendida. Mas o que aconteceria se vários pés de tomate recebessem altas doses de MeJa? A resposta deve estar numa nova pesquisa, que ainda está sendo planejada por Orrock e sua equipe. S. exigua, tremei!

Referência

rb2_large_gray25ORROCK, John, CONNOLY, Brian & KITCHEN, Anthony. Induced defences in plants reduce herbivory by increasing cannibalism [Defesas induzidas em plantas reduzem herbivoria ao aumentar canibalismo]. Nature Ecology & Evolution. Published online: 10 July 2017 doi:10.1038/s41559-017-0231-6

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...