Há meio século, dois especialistas ligados ao governo dos EUA publicaram um livro com cenários para um futuro então distante: o ano 2000. Como eles se saíram?

Há exatos 50 anos, Herman Kahn (1922-1983) e Anthony J. Wiener (1930-2012) publicaram o livro O Ano 2000: uma estrutura para especulação sobre os próximos trinta e três anos. Estrategista militar ligado à RAND Corporation, Kahn trabalhou no desenvolvimento da Bomba-H e, mais tarde, estudou estratégias de guerra nuclear (e diz-se que foi uma das inspirações para o Dr. Strangelove de Kubrick); formado em Direito por Harvard e consultor privado, Wiener era um autoproclamado futurólogo. Ambos foram fundadores do Hudson Institute, think-tank que bancou a publicação do livro.

Em 500 páginas, os dois apresentam um panorama para o fim do século XX e começo do século XXI nas áreas de economia, ciência e tecnologia, sociedade, relações internacionais e tratam das possibilidades de conflitos nucleares e “outros pesadelos do séc. XXI”, como uma nova Grande Depressão, políticas de controle social e a ascensão de movimentos de massa ou elitistas. Também são listados 100 desenvolvimentos tecnológicos que deveriam aparecer até o ano 2000 (o que merece um post à parte).

Vejamos um quadro de “projeção relativamente apolítica e livre de surpresa” para o “terço final do século XX”:

1. Continuação da “tendência múltipla” básica, a longo prazo
2. Aparecimento da cultura “pós-industrial”
3. Capacidade mundial para a tecnologia moderna
4. Mundo muito pequeno: necessidade crescente de “estabelecimento de zonas”, regionais ou mundiais, para controle de armas, de tecnologia, da poluição, do comércio, do transporte, da população, da utilização de recursos e coisas semelhantes
5. Altas taxas de crescimento (de 1 a 10%) do PNB per capita
6. Aumento da ênfase sobre “significado e propósito”
7. Muitos distúrbios nas nações “novas” e, possivelmente, nas nações em industrialização
8. Alguma possibilidade de movimentos de massa sustentados, “nativistas”, messiânicos, ou outros
9. Segunda ascensão do Japão (por ser a terceira das maiores potências do mundo, nominalmente ou, talvez, realmente)
10. Uma ascensão ulterior da Europa e da China
11. Aparecimento de novas potências intermediárias, tais como Brasil, México, Paquistão, Indonésia, Alemanha Oriental e Egito
12. Algum declínio (relativo) dos EUA e da URSS
13. Uma possível ausência de graves questões de “vida ou morte” políticas e econômicas nas velhas nações

Dentre os itens apresentados, alguns são genéricos demais (1, 6, 7, 13) enquanto outros podem ser classificados como Corretos e Parcialmente Corretos. Entre os Corretos: 2, 3, 4 (este último descreve razoavelmente bem o aparecimento de blocos de livre-comércio nos anos 1980-90); 8 (dentre os movimentos messiânicos cabe destacar tanto o fundamentalismo islâmico, que ganhou força com a Revolução Iraniana em 1979, quanto o evangélico, que começa a se fortalece nos EUA a partir dos anos 1980); 9 (vide o boom da economia japonesa nos anos 1980) e 10 (vide União Europeia e abertura da China, também a partir dos anos 1980). Parcialmente Corretas são as previsões 11 (grupos como o BRICS e o G-20 incluem os países destacados, mas só se tornaram influentes nos últimos anos) e 12 (apesar do colapso da URSS, tanto a Rússia quanto os EUA perderam a influência que tiveram até o fim dos anos 1980).

Alguns detalhes sobre a sociedade pós-industrial foram apresentados nos pontos a seguir:

1. Renda per capita cerca de cinquenta vezes maior que a renda pré-industrial
2. A maioria das atividades econômicas é terciária e quartenária (orientada para a prestação de serviços) em vez de ser primária ou secundária (orientada para a produção)
3. As firmas comerciais não são mais a principal fonte de inovação
4. Pode haver mais “consentidores” do que “negociadores”
5. Mínimo real de renda e bem-estar
6. A eficiência não é mais fundamental
7. O mercado desempenha papel reduzido comparado ao setor público e às “contabilidades sociais”
8. Cibernetização generalizada
9. “Mundo pequeno”
10. Típica “duplicação de tempo” entre três e trinta anos
11. Sociedade culta
12. Rápido aperfeiçoamento de instituições e técnicas educacionais
13. Desintegração (na classe média) de valores orientados para o trabalho, para a realização e para o progresso
14. Desintegração dos valores de “interesse nacional”
15. Tornam-se centrais os critérios sensitivos, seculares, humanistas e, talvez, auto-indulgentes.

Embora algumas dessas especulações sejam basicamente Corretas, outras são claramente uma extrapolação do mundo do fim dos anos 60, quando o livro foi escrito. Dentre as Corretas, destacam-se os pontos 2 (ex: importância dos setores de serviços e de ONGs a partir dos anos 1990); 3 (ex: start-ups ligadas ao setor de informática, desde os anos 90); 8 (parcialmente correta com a robotização da indústria a partir dos anos 1970); 9 (eco da “Aldeia Global” prevista por Marshall McLuhan na mesma época, concretizou-se com o advento da internet e do aperfeiçoamento dos transportes transoceânicos e intercontinentais) e 10 (exemplificado pela Lei de Moore do setor tecnológico).

Por outro lado, as extrapolações do Estado de Bem-Estar social (4, 5, 6, 7, 11, 12 e 13) vigente na época da redação do livro foram inteiramente atropeladas pela ascensão do neoliberalismo a partir do fim dos anos 1970. Para além do ano 2000, Kahn e Wiener apresentam um “início relativamente livre de surpresas do século XXI”:

1. Esperamos a ascensão de novas grandes potências – talvez Japão, China, o bloco europeu, Brasil, México ou Índia
2. Haverá novas questões políticas e até “filosóficas”
3. Haverá nivelação, ou diminuição, de alguns aspectos da tendência múltipla básica, a longo prazo, tal como da urbanização
4. Os mundos pós-industrial e industrial estarão, em grande parte, realizados
5. Algum êxito parece provável quanto ao controle da população, controle de armas, e algum tipo de acordos de segurança internacional, embora possivelmente não se chegue ao “governo mundial”
6. No mundo em industrialização, movimentos perturbadores, ideológicos e irracionais continuarão, provavelmente, a desempenhar papeis destruidores, embora geograficamente confinados
7. Nos EUA e na Europa Ocidental haverá, presumivelmente, um retorno a determinados conceitos gregos e europeus antigos, da boa vida, ou uma alienação intensificada e busca da identidade, valores, sentido e propósito – busca esta tornada necessária e facilitada pela prosperidade e liberalidade sem precedentes da economia pós-industrial

Quanto a estas sete previsões, a primeira se concretizou em parte (especialmente na parte europeia e asiática). O segundo e o sétimo pontos têm algo em comum: o surgimento de demandas como inclusão social e reconhecimento de identidade e gênero, por exemplo, trouxeram novos problemas políticos. Há algum hedonismo na sociedade do consumo, mas ele é bem diferente do existente no mundo antigo.

De resto, os chutes passaram longe da realidade: a urbanização e a explosão populacional não foram refreadas e vários acordos internacionais, inclusive no campo da segurança, não se realizaram; em vez de fortalecida, como fica implícito pela menção a “governo mundial”, a ONU está enfraquecida. Sociedades industriais e pós-industriais existem, mas boa parte da população ainda vive em economias de transição ou mesmo pré-industriais (como na África e na Ásia Central). Por fim, movimentos ideológicos perturbadores e irracionais grassam não apenas nos países em desenvolvimento mas também nos mundos industrial e pós-industrial.

Referência

KAHN, Herman; WIENER, Anthony J. O Ano 2000: uma estrutura para especulação sobre os próximos trinta e três anos. Trad: Raul de Polilo. 2ª. Edição. São Paulo: Melhoramentos, 1969. pp. 52; 54-55 e 55.

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