Roemerwein in Speyer By Immanuel Giel - Own work, CC BY-SA 3.0, [via Wikimedia]

Roemerwein in Speyer By Immanuel Giel – Own work, CC BY-SA 3.0, [via Wikimedia]

Quanto mais velho o vinho, dizem, melhor. Mas você dificilmente iria aceitar uma dose do vinho mais velho do mundo.

Envelhecidos em barris de madeira ou ânforas de cerâmica, vinhos são há séculos uma bebida distinta e cara, muito cara. Uma das safras mais antigas (e caras) disponíveis atualmente é a de 1969 do Bourgogne Rouge Henri Jayer Richebourg – Grand Cru, que tem valor estimado em R$ 112.805,00 segundo o site de buscas especializado Wine Searcher. Se uma garrafa de quase meio século vale tanto, que valor teria um vinho que remonta aos tempos do Império Romano? Esse tesouro de valor incalculável para os enólogos existe e encontra-se no Museu Histórico do Palatinato em Speyer, na Alemanha.

Conhecido simplesmente como Römerwein [Vinho Romano em alemão], este vinho foi descoberto em 1867 na escavação da tumba de um casal de nobres romanos na região de Speyer. Haviam seis garrafas no sarcófago da mulher e dez no do homem, das quais somente esta continuava cheia. É difícil estimar a safra de uma bebida tão antiga, mas acredita-se que a garrafa de 1,5 litro, produzida na região e decorada com golfinhos de vidro junto ao gargalo, tenha sido enterrada com seu dono em algum momento entre os anos 325 e 359. Encontrada intacta, a Garrafa de Speyer, como também é chamada, jamais foi aberta e seu conteúdo foi preservado hermeticamente graças a uma mistura de cera com azeite de oliva.

Mesmo que fosse aberta, dificilmente você aceitaria uma dose desse vinho de 1600 anos. Embora o conteúdo da garrafa não tenha passado por uma análise química detalhada, os cientistas calculam que há muito o álcool do vinho já não existe mais. Apesar da preservação — e de uma mistura de ervas em meio ao líquido, algo típico dos vinhos da Antiguidade —, o sabor e o aroma não devem ser dos melhores [1]. Diferente de um vinho envelhecido moderno, o preço incalculável dessa garrafa única no mundo deve-se mais ao seu valor histórico do que ao seus gostos e retrogostos.

Quem quiser provar um vinho de sabor milenar — mas não tão antigo — pode fazer isso na Sicília. Lá, em 2013, cientistas da Universidade de Catânia fabricaram vinhos seguindo à risca métodos da Antiguidade registrados por Virgílio nas Geórgicas e por Lucius Junius Moderatus Columella, vinhateiro do século I e autor de De Re Rustica, um manual de agricultura em 12 volumes que esteve em voga até o século XVII. Sem mecanização, fermentação artificial, pesticidas ou fertilizantes, os fabricantes romanos de vinho não seriam muito diferentes do pessoal que faz bebidas orgânicas hoje em dia. Será que algum dia arqueólogos do futuro vão encontrar um vinho hipster enterrado por aí?

[via Open Culture]


Nota

[1] Digo isso por experiência própria. Quando tinha uns dez anos, ajudei meu pai a escavar o quintal para a instalação de uma piscina. A cerca de 60 centímetros de profundidade, mais ou menos no meio do que seria a piscina, encontramos uma garrafa de vinho que meu avô havia enterrado uns 30 ou 40 anos antes. O frasco era de formato lenticular, com fundo plano e um gargalo redondo e curto. Infelizmente, parte do gargalo quebrou-se com um golpe de pá enquanto escavávamos, o que fez parte do líquido se perder. Depois de uma retirada mais cuidadosa, percebemos que o resto do vinho — que era branco — cheirava fortemente a vinagre. Se o objetivo do meu avô era conseguir um vinho envelhecido, ele falhou miseravelmente.

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