A 27ª. edição do melhor prêmio científico do Universo contou com a participação de três pesquisadores brasileiros. Chupa, Nobel!

Em mais uma cerimônia solenemente insolente realizada na última quinta-feira (14/09) num auditório da Universidade de Harvard, a equipe da revista Annals of Improbable Reseach anunciou ao mundo os vencedores do IgNobel, prêmio que há 27 anos destaca as pesquisas que fazem rir mas também pensar. Durante o evento de 90 minutos quase cravados, que contou com a participação de nobelizados e ignobelizados, duas chuvas de aviõezinhos de papel, palestras 24/7 (que resumem tópicos de pesquisa em 24 segundos e depois em 7 palavras) e uma ópera improvável (mais sobre isso depois), foram apresentados os premiados nas seguintes categorias:

Física

Foi para o francês Marc-Antoine Fardin, que usou a dinâmica de fluidos para resolver uma velha questão dos donos de felinos: Pode um gato ser tanto sólido quanto líquido? Fardin compareceu pessoalmente, usou fotos da internet para demonstrar sua pesquisa e foi o primeiro a levar para casa o troféu deste ano: uma cabeça de manequim branca, com óculos escuros e encimada por um ponto de interrogação vermelho e brilhante.

Referência: “On the Rheology of Cats,” Marc-Antoine Fardin, Rheology Bulletin, vol. 83, 2, July 2014, pp. 16-17 and 30.

Paz

Milo Puhan, Alex Suarez, Christian Lo Cascio, Alfred Zahn, Markus Heitz e Otto Braendli foram agraciados por demonstrar que tocar didgeridoo — uma espécie de instrumento de sopro gigante dos aborígenes australianos — regularmente é um tratamento efetivo para a apneia do sono e o ronco. Compareceram à premiação Puhan, Lo Cascio, Heitz e Suarez, que foi o paciente que inspirou este estrondoso estudo e tocou um didgeridoo de plástico.

Referência: “Didgeridoo Playing as Alternative Treatment for Obstructive Sleep Apnoea Syndrome: Randomised Controlled Trial,” Milo A. Puhan, Alex Suarez, Christian Lo Cascio, Alfred Zahn, Markus Heitz and Otto Braendli, BMJ, vol. 332 December 2006.

Economia

Quem já teve que enfrentar um crocodilo acaba ficando mais inclinado a apostas eletrônicas. Essa é a conclusão de experiências realizadas pela dupla americano-australiana Matthew Rockloff e Nancy Greer, que receberam seu prêmio pessoalmente vestidos à moda de Crocodilo Dundee e armados com crocodilos de pelúcia.

Referência: “Never Smile at a Crocodile: Betting on Electronic Gaming Machines is Intensified by Reptile-Induced Arousal,” Matthew J. Rockloff and Nancy Greer, Journal of Gambling Studies, vol. 26, no. 4, December 2010, pp. 571-81.

Anatomia

O britânico James Heathcote levou o prêmio após realizar uma pesquisa que responde à pergunta que os avós de todo o mundo já ouviram: por que homens velhos têm orelhas grandes? Heathcote foi reconhecido antes tarde do que nunca: seu artigo bisonho foi publicado em 1995 (e talvez já tenha algumas orelhas grandes).

Referência: “Why Do Old Men Have Big Ears?” James A. Heathcote, British Medical Journal, vol. 311, 1995, p. 1668.

Biologia

Os japoneses Kazunori Yoshizawa e Yoshitaka Kamimura, o suíço Charles Lienhard e o brasileiro Rodrigo Ferreira dividiram este prêmio pela descoberta de um inseto que vive numa caverna e que tem genitálias ao contrário: vaginas no macho e pênis nas fêmeas. Impossibilitados de comparecer em Harvard, mandaram um vídeo de agradecimento direto de uma caverna, onde ressaltaram que sua descoberta torna obsoletos bilhões de dicionários do mundo que definem pênis como masculinos e vaginas como femininas.

Referência: “Female Penis, Male Vagina and Their Correlated Evolution in a Cave Insect,” Kazunori Yoshizawa, Rodrigo L. Ferreira, Yoshitaka Kamimura, Charles Lienhard, Current Biology, vol. 24, no. 9, 2014, pp. 1006-1010.

Dinâmica de Fluidos

Dado o prêmio de Física, que já envolveu dinâmica de fluidos, esta parece uma categoria redundante (e talvez seja mesmo). No entanto, a láurea dada ao coreano Jiwon Han — por aplicar a dinâmica de fluidos para entender como minimizar o derrame de café ao caminhar — foi merecida. A estratégia encontrada consiste em andar segurando a xícara ou copo por cima e andando de marcha ré. Han ainda era estudante de um colégio sul-coreano quando escreveu seu artigo científico, reconheceu que tinha muito tempo livre no colegial e deve ter sido o mais jovem ganhador do IgNobel.

Referência: “A Study on the Coffee Spilling Phenomena in the Low Impulse Regime,” Jiwon Han, Achievements in the Life Sciences, vol. 10, no. 1, 2016, pp. 87-101.

Nutrição

Fernanda Ito, Enrico Bernard e Rodrigo Torres, respectivamente do Brasil, Canadá e Espanha, foram os primeiros a encontrar vestígios de sangue humano na alimentação de um morcego vampiro do Cerrado. Ito et. al. não puderam comparecer em pessoa, mas mandaram um vídeo em que agradecem no melhor estilo IgNobel — usando dentes de vampiro de brinquedo.

Referência: “What is for Dinner? First Report of Human Blood in the Diet of the Hairy-Legged Vampire Bat Diphylla ecaudata,” Fernanda Ito, Enrico Bernard, and Rodrigo A. Torres, Acta Chiropterologica, vol. 18, no. 2, December 2016, pp. 509-515.

Medicina

Uma equipe de pesquisadores franco-britânicos liderada por Jean-Pierre Royet usou a técnica de ressonância magnética funcional para mensurar até que ponto algumas pessoas são enojadas por queijo (sim, queijo!). Direto da França, numa mesa com queijos e vinhos, Royet explicou que 6% dos seus compatriotas têm aversão a esse derivado do leite — o que é um grande problema num país com centenas de variedades de queijo. Em Harvard, parte dos convidados e do público apreciaram um aperitivo de queijo.

Referência: “The Neural Bases of Disgust for Cheese: An fMRI Study,” Jean-Pierre Royet, David Meunier, Nicolas Torquet, Anne-Marie Mouly and Tao Jiang, Frontiers in Human Neuroscience, vol. 10, October 2016, article 511.

Cognição

Uma equipe de cientistas da Itália, Espanha e Reino Unido demonstrou que até os gêmeos se confundem quando têm que identificar-se em imagens fotográficas. A equipe foi representada por Matteo Martini e Ilaria Bufalari, que tiveram a oportunidade de testar sua hipótese ao vivo com um par de cientista gêmeos idênticos (infelizmente não eram o Tíbio e o Perônio).

Referência:  “Is That Me or My Twin? Lack of Self-Face Recognition Advantage in Identical Twins,” Matteo Martini, Ilaria Bufalari, Maria Antonietta Stazi, Salvatore Maria Aglioti, PLoS ONE, vol. 10, no. 4, 2015: e0120900.

Obstetrícia

Dizem que botar música faz bem para os bebês mesmo que eles ainda estejam no útero. Mas qual a melhor maneira de fazer isso? Marisa López-Teijón, Álex García-Faura, Alberto Prats-Galino e Luis Pallarés Aniorte (Espanha) demonstraram que a estimulação musical intrauterina funciona melhor quando aplicada pela via vaginal. Por isso, eles desenvolveram (e patentearam) o Babypod, uma caixinha de som portátil que pode ser inserida na vagina da grávida. Para evitar que seu discurso se alongasse demais, López-Teijón foi interrompida por uma garotinha de 8 anos. Seguiu-se uma tentativa de demontração do gadget ao vivo, prontamente censurada pelo Fiscal do NSFW.

Referências:
Fetal Facial Expression in Response to Intravaginal Music Emission,” Marisa López-Teijón, Álex García-Faura, and Alberto Prats-Galino, Ultrasound, November 2015, vol. 23, no. 4, pp. 216–223.
Fetal Acoustic Stimulation Device,” patent ES2546919B1, granted September 29, 2015 to Luis y Pallarés Aniorte and Maria Luisa López-Teijón Pérez.

Além dos agraciados supracitados, o evento contou ainda com as seguintes presenças: Eric Maskin, Nobel de Economia de 2007; Oliver Hart, Nobel de Economia de 2016; Roy Glauber, Nobel de Física de 2007 e (remotamente) Jerome Friedman, Nobel de Física de 1990. Entre as caravanas presentes na plateia estavam a Mensa, a Escola de Saúde Pública de Harvard, o bonde dos jornalista científicos do MIT, os Boston Skeptics, o MOBA — Museum of Bad Art, com arte ruim demais para ser ignorada — e um par de caras com nojo de queijo para comprovar o IgNobel de Medicina.

Foram apresentadas as seguintes palestras 24/7: Alexsandra Przegalinska, professora de inteligência artificial, falou sobre Bots; Eric Maski tratou da Incerteza, tema deste IgNobel; Elisabeth Henske discorreu sobre pesquisa biomédica; John Culvenor expôs o tema que lhe valeu o IgNobel em 2003: as forças necessárias para arrastar ovelhas sobre várias superfícies e Alicia Perez-Porro, especialista em invertebrados do Instituto Smithsonian, explicou as espojas.

Quanto à peça melodramática deste ano, foi apresentada a Ópera da Incompetência, em 3 atos. Centrada na conversa de bar entre um psicólogo e uma bartender, a ópera teve como temas o Princípio de Peter (segundo o qual as pessoas vão sendo promovidas até alcançar o nível máximo de incompetência) e o Efeito Dunning-Kruger (em que pessoas incompetentes ou ignorantes não têm noção da própria incompetência ou ignorância).

Quem tiver uma hora e meia sobrando (e não se importar com os spoilers que já dei), pode assistir à íntegra da cerimônia no vídeo a seguir:

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