Neste fim de inverno quente e seco, retomei as aulas do mestrado (e enfrentei problemas logísticos para chegar lá) e mudei meu projeto de pesquisa. Por isso, não vi muitos documentários, mas acompanhei histórias pouco conhecidas sobre o fim do apartheid, os video games, um pescador indonésio octogenário, um fotógrafo dos famosos e de materiais que mudaram o mundo.


Plot for Peace (84 min., 2014) — Esqueça os revolucionários armados, as sanções econômicas e o intervencionismo militar. Às vezes uma mudança de regime tem origens inesperadas e depende apenas de uma ou poucas pessoas atuando nas sombras, de maneira quase conspiratória. Foi assim que a África do Sul abandonou o regime do apartheid quando estava à beira de uma guerra civil e mergulhada em conflitos com todos os seus vizinhos. Os livros de História costumam colocar Nelson Mandela no papel de salvador sul-africano mas se esquecem de um franco-argelino rechonchudo e de óculos que foi fundamental para a libertação de Mandela e a pacificação do sul da África no fim dos anos 1980. Jean-Yves Ollivier era um empresário que vendia grãos e petróleo para diversos países africanos quando se interessou pela África do Sul em 1981. Filho de uma família francesa expulsa da Argélia logo após a independência daquele país, Ollivier usou seus contatos no mundo político e econômico para evitar que algo parecido acontecesse aos brancos sul-africanos. Sabendo que o apartheid estava condenado, mas não enfraquecido, Ollivier usou seus dotes de negociador e jogador de cartas para para fazer acordos entre seis países em meio a aeroportos, palácios e desertos, apenas na base da confiança, sem a assinatura de documentos ou a presença da imprensa, Ollivier pode ser visto tanto como um agente-duplo quanto como um herói humanitário. Pouco lhe importa como é visto; o importante para ele é saber que foi bem-sucedido em seus esforços quase quixotescos. Curiosamente, Ollivier jamais se encontrou com Mandela antes de sua libertação e sua importância histórica só começa a ser reconhecida por meio deste documentário dirigido por Carlos Agulló e Mandy Jacobson. Participações especiais de Winnie Mandela, Thabo Mbeki (ex-presidente sul-africano), Mathews Phosa, (ativista sul-africano), Roelf Pik Botha (ministro das relações exteriores sul-africano), Joaquim Chissano (ex-presidente moçambicano), Van Tonder (general sul-africano), Jacinto Veloso (ministro da segurança de Moçambique), Michael Ledeen (conselheiro de segurança dos EUA), Chester Crocker (secretário-assistente de Estado dos EUA), Sassou Ngesso (presidente do Congo-Brazzaville) e Wynand Du Tout, militar sul-africano preso em Angola que tornou-se figura-chave da troca de prisioneiros encetada por Ollivier.


Video Games: The Movie (101 min., 2014) — Space Invaders, Pong, Pac Man, Donkey Kong, Super Mario, Zelda, Metal Gear Solid, Tomb Raider, GTA, God of War, Gran Turismo, Assassin’s Creed, Angry Birds. Não importa sua idade, nem se você é um gamer fanático: é bastante provável que você conheça esses títulos e já tenha passado algumas horas jogando pelo menos um deles. Se cresceu jogando, deve ter cansado de ouvir falar que videogame não lhe daria futuro ou mesmo que lhe tornaria violento. Não parece, mas essa já é uma velha história, que tem mais de meio século. Mas como uma mera demonstração das capacidades gráficas de um computador do começo dos anos 1960 tornou-se um negócio bilionário e uma subcultura com milhões de fãs? Jeremy Snead busca responder essa pergunta nesse documentário ricamente ilustrado com anúncios publicitários, gameplays de títulos dos mais diversos gêneros e depoimentos de pessoas ligadas a esse tipo de entretenimento interativo, como desenvolvedores, designers, empresários, jornalistas especializados e, claro, gamers. Em três “fases” e um epílogo, o documentário — financiado por crowdfunding — apresenta um panorama histórico dos videogames e uma enxurrada de estatísticas; o impacto social e cultural dos videojogos, com ciclos de fracassos e renascimentos da indústria; e o processo de desenvolvimento narrativo dos jogos possibilitado pelos avanços tecnológicos dos últimos 20 anos. Por fim, discussões sobre o papel dos games na educação (e na violência), seu status artístico e as perspectivas para o futuro.


Jago: a life underwater (48 min., 2015) — Dirigido por James Morgan e James Reed, este documentário curto narra a vida de um extraordinário pescador indonésio. Rohani tinha apenas cinco anos quando aprendeu com o pai a mergulhar apenas prendendo a respiração. Depois de uma vida inteira no mar, hoje ele é um homem um pouco encurvado pela idade – tem 80 anos. De pele tostada pelo sol e cabelo bem negro, ele parece 30 anos mais novo, continua debaixo d’água e tem muitas histórias para contar. De maneira simples e singela, Rohani narra as brincadeiras nos corais da infância, encontros com espíritos do mar, a caçada de grandes peixes que o fez adulto e o casamento com uma moça “não tão bonita” mas de “personalidade linda” que lhe rendeu duas meninas e um menino. Sempre em busca de novas experiências, ele sacrifica os tímpanos para botar os pés no fundo do mar, a 40 metros de profundidade. Essa façanha o torna famoso na região e lhe vale o título de Jago (o Mestre), mas não o exime de ter que ir cada vez mais longe para manter a família. Quando volta de uma temporada num barco de pescadores japoneses, ele não pôde evitar a morte de seu filho teimoso, que não resistiu a uma tentativa de ir mais fundo que o pai. Rohani encerra seu conto biográfico admitindo uma tentativa de suicídio, falando dos impactos ambientais observados ao longo de décadas de pesca submarina e demonstra que apesar da solidão, do cansaço e de seus parcos recursos, ele continua capaz de pegar grandes peixes. Mas ele não se sente mestre coisa nenhuma: é apenas um “homem do mar, um caçador”.


Harry Benson: Shoot First (89 min., 2016) — Você pode não reconhecer o nome, mas se viu uma foto dos Beatles, certamente já viu uma imagem feita por Harry Benson. Este documentário procura mostrar que a carreira de Benson é bem mais abrangente que o período com os Quarteto de Liverpool. Churchill, Elizabeth II, Klansmen, Martin Luther King, Bobby Kennedy e sua família, Nixon, Liz Taylor, Michael Jackson, Johnny Carson, Jack Nicholson, Ralph Lauren, Truman Capote, Bobby Fischer, Muhammad Ali, Andy Warhol, Donald Trump – essas são apenas algumas das figuras históricas e celebridades fotografados por Benson, ex-menino de recados e goleiro fracassado de Glasgow que se tornou fotógrafo e fotojornalista “lendário” e criador de imagens “icônicas”. Jornalistas, escritores, editores, fotógrafos e fotografados, assistentes, amigos e familiares contam as histórias de Benson e algumas de suas fotos mais famosas nesta produção dirigida por Mattew Miele e produzida por Gigi Benson, esposa do fotógrafo. Benson também fala e discute sua maneira de trabalhar, seus truques, rejeita a pecha de papparazi e questiona a ética dos críticos que lhe cobram ética. O documentário termina mostrando os lados menos conhecidos deste fotógrafo tão desbocado quanto amigável: sua cobertura de crises como a fome da Somália em 1980, a intifada de 1982 e o Vietnã do pós-guerra; e fotos de sua vida familiar, não tão boas quanto as profissionais — uma grande piada interna da família.

Série documental

Everyday Miracles (2014) — Em dois episódios de aproximadamente uma hora, o engenheiro de materiais britânico Mark Miodownik nos guia pelos milagres cotidianos possibilitados por revoluções na fabricação e no uso de diversos materiais ao longo dos últimos dois séculos. Na primeira parte, Miodownik apresenta os materiais que revolucionaram nossa vida doméstica: a espuma de poliuretano dos estofados, o aço temperado das lâminas de barbear, os filamentos metálicos que levaram à lâmpada elétrica e, eventualmente, aos LEDs, as placas de madeira compensada, leves e resistentes, os plásticos que nos deram de brinquedos a meias-calças e o concreto armado que nos deu residências mais claras, mais amplas e mais arejadas. Na segunda parte, vemos os avanços que nos levaram cada vez mais longe: novos métodos de fabricação de aço que nos deram bicicletas leves e velozes e também pontes cada vez maiores; a borracha que nos permitiu ter automóveis e bicicletas confortáveis; os diferentes tipos de vidro que resultaram em um pouco de tudo, de carros mais velozes a panelas transparentes e telescópios gigantes e novidades ainda recentes e bastante promissoras, como as fibras de carbono usadas de próteses a bicicletas e carros de corrida e os novos plásticos moldados por impressoras 3D, que podem servir de base para a fabricação de tudo — talvez até órgãos e tecidos humanos em breve. Mais intimista no primeiro episódio, onde parte de algumas de suas memórias, e entusiasmado no segundo, Miodownik peca apenas pelo ritmo algo frenético com que apresenta (e às vezes demonstra) as inovações em materiais. Esse defeito poderia ser facilmente corrigido se a série da BBC tivesse sido produzida em mais episódios, com um recorte temático mais preciso em cada parte.

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