Alexander Kazem-Bek, em data desconhecida.

Alexander Kazem-Bek, em data desconhecida.

Há vários trânsfugas americanos. Um deles é uma jovem, Annabelle Bucar, que havia trabalhado no escritório do Serviço de Informações dos Estados Unidos em Moscou; casou-se [em 1948] com um cantor de ópera russo. Outro, o Professor [Orest] Stephen Makar, nascido na Ucrânia, foi para os Estados Unidos e naturalizou-se americano; ensinava na Universidade de St. Louis. Trabalhou, por algum tempo, na Base Aérea de Alamogordo, no Novo México, como perito em fotogrametria; renunciou à cidadania americana e voltou à União Soviética em dezembro de 1956. Julga-se que esteja trabalhando atualmente no Instituto Politécnico de Lvov. Ainda outro, o Professor Alexander Kazem-Bek, que ensinava teologia no Connecticut College for Women, deixou a esposa americana e retornou à União Soviética há vários anos em circunstâncias muito misteriosas. Por algum tempo, se ignorou o seu paradeiro e as suas funções na Rússia. A 16 de janeiro de 1957, contudo, escreveu ao Pravda uma carta explosiva, em que explicava o seu desaparecimento. Declarou que desfrutara de segurança material em Connecticut e que poderia ter se aposentado dentro de pouco tempo, mas não lhe era possível viver num país onde “campeia a propaganda anti-soviética e se realiza uma ofensiva constante contra as liberdades civis”. A carta, que é em verdade um documento curiosíssimo, termina com as palavras: “Em quinze anos de residência forçada [sic] nos Estados Unidos, convenci-me da profunda depravação e decadência da vida pública [americana] em todos os seus aspectos, da música aos esportes, da vida familiar à atitude para com a ciência, da maneira de conceber a religião ao modo de encarar os assuntos internacionais”. — GUNTHER, John. A Rússia por dentro. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1959. pp. 67-8

Destes, o que teve vida mais espetacular sem dúvida foi Kazem-Bek ou Kazembek [1902-1977]. Filho de uma família nobre de ascendência azeri-iraniana, ele radicou-se em Belgrado, Munique, Paris e Mônaco após a Revolução. Era um feroz defensor do russos brancos e pregava a restauração radical da monarquia, com um forte papel da Igreja Ortodoxa na vida do país. No entanto, era tão radical que nenhum dos lados o levava a sério: o Ocidente o via como um espião; os soviéticos, como um reacionário lunático.

A saudade da pátria, porém, deve ter sido mais forte: em 1954, ele foi à embaixada soviética em Nova Délhi e solicitou cidadania soviética para voltar à Rússia. Indignado com o artigo publicado com seu nome no Pravda, Kazem-Bek ameaçou o suicídio mas acabou reabilitado e teve a cidadania aprovada. Passou os anos finais de sua vida trabalhando no Departamento de Relações Exteriores do Patriarcado de Moscou.

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