Muito antes de ser relacionado ao autismo, o savantismo foi reconhecido pela primeira vez no século XIX, num homem que passou a vida num asilo e tinha uma habilidade extraordinária para trabalhos manuais. Seu nome era James Henry Pullen.

Por Romeu Vitelli, no Providentia. Tradução de Renato Pincelli.

A síndrome do savant — ou savantismo — é um fenômeno raro, porém fascinante, no qual indivíduos com distúrbios de desenvolvimento específicos podem apresentar talentos incríveis, reforçados pelo grande contraste em relação às suas demais funções limitadas. Casos de síndrome do savant têm sido identificados em pacientes com transtorno do espectro autista — inclusive síndrome de Asperger — ou outras condições neurológicas. Geralmente ligada a danos no cérebro — antes ou depois do nascimento —, a síndrome costuma se manifestar bem cedo na vida dos pacientes. Entretanto, existem relatos na literatura de casos de savantismo adquirido, resultante de dano neurológico em algum ponto da vida.

Embora não seja um diagnóstico oficial, a síndrome de savant foi descrita pela primeira vez em 1887 por John Langdon Down [1828-1896], mais conhecido pela síndrome que leva seu nome. Num paper apresentado à Sociedade Médica de Londres, que se tornou clássico, Down apresentou sete estudos de casos de pacientes que ele chamou de “idiota savant“, ressaltando as deficiências mentais percebidas que todos os savants teriam. O termo pejorativo “idiota” foi abandonado mais tarde, mas a percepção dos savants como deficientes mentais permaneceu. Embora o termo ligeiramente menos ofensivo “savant autístico” também seja usado, ele é considerado impreciso já que muitos indivíduos com habilidades aparentemente milagrosas não têm outras perturbações reconhecíveis.

Enquanto alguns dos primeiros savants conseguiram se destacar com carreiras notáveis baseadas em seus talentos (Blind Tom Wiggin, por exemplo), a maioria ficava largada em asilos onde suas capacidades só eram reconhecidas a contragosto. Esse era o caso do paciente mais famoso de Down, James Henry Pullen.

James H. Pullen em data desconhecida.

James H. Pullen em data desconhecida.

Nascido em 1836 em Dalston (Inglaterra), Pullen demonstrou déficits severos desde a mais tenra idade. A princípio classificado como surdo-mudo, James só aprendeu a falar sua primeira palavra aos sete anos — ele chamou sua mãe de “muvver” [corruptela do inglês mother]. Tanto ele quanto seu irmão William eram intelectualmente deficientes, mas as causas nunca foram esclarecidas. Seus pais eram primos em primeiro grau, mas não há evidências de que isso tenha sido um fator.

O verdadeiro diagnóstico dos irmãos Pullen ainda é debatível, mas as descrições da primeira infância de James sugerem um autismo severo, talvez acompanhado de uma afasia igualmente severa. Suas habilidade linguísticas pouco melhoraram com o passar dos anos e sua pobre inteligência social tornou impossível sua permanência na casa de seus pais, no sul de Londres. Assim, aos treze anos, James foi mandado para instituição para crianças mentalmente deficientes em Colchester e, dois anos mais tarde, deu entrada no Asilo Earslwood, em Redhill, Surrey.

Inaugurado em 1855 como Real Hospital de Earslwood e também conhecido como Real Asilo de Earslwood para Idiotas, esta instituição foi construída por meio de subscrições privadas e com o apoio da própria Rainha Vitória. Tanto Vitória quanto o Príncipe Alberto mantinham especial interesse no asilo, que recebeu sua carta-patente em 1862. Sob supervisão de John Langdon Down — primeiro médico superintendente do hospital —, o Asilo de Earlswood tinha o objetivo de dar aos “idiotas” o cuidado adequado que eles não podiam ter na comunidade — idiota era um termo médico reconhecido na época. O suporte médico e educacional que os pacientes recebiam ali tornaram esse asilo um modelo para instituições similares ao redor do mundo — apesar dos frequentes casos de tuberculose, principal causa de morte no hospital.

Para James Pullen (e seu irmão William, que chegou algum tempo depois), o asilo era um santuário onde ele podia aprender o trabalho em madeira que o faria tão famoso na velhice. Incapaz de falar algo além de um poucos monossílabos, ele se comunicava principalmente por gestos. Apesar de suas limitações, James era fascinado por brinquedos de madeira e gostava de observar outros garotos navegando em barcos de madeira. Ainda bem novo, ele começou escavar seus próprios barquinhos em pedaços de lenha.

Já em Earlswood, James tornou-se aprendiz de carpinteiro e aprendeu a fazer móveis. Logo, ele passou a manter uma rotina que envolvia a fabricação de móveis durante o dia e o esboço de maravilhosos desenhos coloridos a giz à noite. Ao completar seus desenhos, Pullen os enquadrava cuidadosamente, construindo molduras magníficas nas quais eles podiam ser expostos. De fato, muitos desses desenhos foram expostos por todo o asilo e um chegou a ser enviado com presente para a Rainha Vitória — James recebeu um presente em agradecimento. Em uma de suas visitas à instituição, o Príncipe Alberto viu os desenhos e foi apresentado a elaboradas ilustrações do Cerco de Sebastopol, feitas por James com base em relatos jornalísticos — a Guerra da Crimeia ainda não havia terminado.

James Pullen ganhou fama não só por seus desenhos mas também pelas elaboradas miniaturas de navios de madeira que ele construía com base nas embarcações que via em suas raras visitas a uma base naval próxima do asilo. Dada a demanda pela arte de James, ele foi autorizado a trabalhar em duas oficinas, com toda a liberdade que seu trabalho exigia.

Modelo do SS Great Eastern feito por James Pullen. Atualmente em exposição no museu dedicado a Langdon Down.

Modelo do SS Great Eastern feito por James Pullen. Atualmente em exposição no museu dedicado a Langdon Down.

Um de seus mais ambiciosos projetos era um detalhado modelo em escala de um navio a vapor de ferro, The Great Eastern. Após sete anos de construção, esse modelo de James tinha três metros de comprimento e mais de 5000 rebites. O modelo também reproduzia detalhes como os treze botes salva-vidas e as cabines do navio original, reproduzidas até mesmo em minúsculas peças de mobília como cadeiras, beliches e decorações. O convés principal podia ser retirado, permitindo a observação dos detalhes debaixo dele. Colocado em exposição na Fisheries Exhibition em 1883, ganhou o primeiro prêmio.

Apesar da fama de James, os funcionários do asilo sempre tiveram problemas com ele. O artesão nunca aprendeu a ler ou escrever e frequentemente tinha episódios de crise de humor, durante as quais tornava-se violento e chegava a quebrar sua oficina. A equipe tinha dificuldade de controlá-lo e, num incidente memorável envolvendo um funcionário do qual não gostava, James construiu uma guilhotina funcional e colocou-a em cima da porta para decapitar o empregado — felizmente, o aparelho travou e ninguém se feriu.

James era muito desconfiado diante de estranhos e construiu um grande manequim no centro de sua oficina, que ele podia controlar quando estivesse escondido. Mesmo com os problemas auditivos, James era extremamente sensível ao seu ambiente imediato e inventou um sistema de alarme baseado nas vibrações do piso para alertá-lo da aproximação de um visitante. Curiosamente, ele gostava de tocar o bumbo na banda do Asilo Earlswood.

“Seus poderes de observação, comparação, atenção, memória, vontade e pertinácia são extraordinários”, descreveu um de seus médicos. “Ainda assim, ele é obviamente infantil demais e ao mesmo tempo emocional demais, instável sem qualquer equilíbrio diante de uma discussão ou mesmo para manter-se na sua diante do mundo exterior.” Por volta de 1887, quando Down apresentou seu artigo seminal sobre “idiotas savants“, James — que era um dos casos estudados — estava no asilo há 37 anos e era seu principal paciente. Seu irmão faleceu em Earlswood aos 35 anos e James não tinha contatos com o mundo externo exceto por seus muitos visitantes. Mesmo com sua limitada capacidade social, ele ainda era capaz de sair com os amigos para as tavernas locais — e muitas vezes voltava bêbado ao asilo. As bebedeiras duraram muitos anos, mas no fim da vida ele foi convencido a se tornar abstêmio.

Com a morte de James Pullen em 1915 [aos 79 anos],  o interesse científico no seu caso esfriou. Se cérebro foi preservado numa solução de formalina e mandado para o Hospital Maudsley, onde foi examinado pelo Dr. Friedrich Sano. Na extensa autópsia feita por Sano, ele descreveu que o cérebro de James Pullen pesava 1 190 gramas ao falecer (a média é de 1 500). Sano também ressaltou diferentes características patológicas que encontrou no cérebro e que acreditava que poderiam ser uma pista para explicar os incríveis talentos de James. Infelizmente, também foram descobertas evidências significativas de deterioração senil, o que limitou os achados de Sano.

Particularmente, Sano destacou que James tinha um lobo occipital extremamente bem-desenvolvido e um corpus callosum ligeiramente maior do que o normal, o que levou-o à conclusão de que isso “pode não ter sido de pouca importância em relação à capacidade visual e à habilidade artística que deu a Pullen, com sua personalidade perseverante e tenaz, os meios de alcançar a originalidade e a distinção pessoal.”

Ainda assim, Sano concluiu que havia evidências insuficientes de diferenças neurológicas capazes de explicar os prodígios e o talento de James. A base biológica para a síndrome de savant permaneceu (e ainda permanece) um mistério. Mesmo que se possa questionar o diagnóstico preciso deste caso, a vida de James Pullen é um exemplo notável de como pacientes relegados aos asilos podiam ter um impacto no mundo exterior.

Diversos exemplos das obras de arte de James Pullen foram mantidos em exposição no Real Hospital de Earlswood, onde sua oficina virou um museu informal dedicado a ele. Embora tenha sido fechado em 1997, muitos dos edifícios do hospital foram tombados como patrimônio histórico e é possível ver as obras de Pullen no Royal Earlswood Museum, no shopping de Redhill.

Leitura adicional

Caoimhghin S. Breath e Conor Ward. The Victorian genius of Earlswood – a review of the case of James Henry Pullen [O gênio vitoriano de Earlswood – uma revisão do caso de James Henry Pullen]. Irish Journal of Psychological Medicine, vol. 22, n. 4. Dezembro de 2005, pp. 151-155. DOI: https://doi.org/10.1017/S0790966700009290 [versão em pdf]
Neste artigo científico, Breath e Ward descrevem o caso de Pullen, o relatório de Sano e apresentam alguns desenhos de tons autobiográficos feitos pelo paciente de Earlswood.

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