A vida de dois gigantes da música, a degradação de corais, perguntas sobre o tempo, crimes e incêndios florestais americanos são as recomendações deste mês.

Nat King Cole: afraid of the dark (93 min., 2014) — De pianista que mal sabia cantar a primeiro artista negro da TV americana, Nat King Cole foi um pioneiro em muitos sentidos. Com uma carreira que navegava entre o jazz e o pop, o Cole cantor ofuscou o pianista, fez amizade com Frank Sinatra e John Kennedy, trouxe o bongô e a guitarra elétrica para o jazz, um músico branco para seu trio, teve importância fundamental para a fama da Capitol Records, enfrentou seus problemas com um país ainda racialmente segregado com charme e dignidade e fez turnês memoráveis pelo Reino Unido, Japão, Austrália e Cuba. Essa é a história contada neste documentário dirigido por Jon Brewer e dedicado a Maria Cole, segunda esposa de Nat, principal entrevistada e incentivadora deste filme. Músicos como Tony Bennett, Harry Belafonte, Frank Sinatra, Oscar Peterson e outros que colaboraram com Cole também contam sua memórias do rei do jazz. Além de Maria também participam suas filhas Carole, Timolin, Casey e Natalie Cole; e o amigo e produtor Ivan Mogul. O subtítulo é uma referência ao fim de seu programa de TV — causado pela pressão de gerentes de estações sulistas —, uma das poucas mágoas de Nat. Educadíssimo, amado por todos, com uma vida livre de escândalos, Cole acabou sucumbindo, solitário e escondido, ao seu único vício: faleceu vítima de um câncer provocado pelo cigarro.


Cauby – começaria tudo outra vez (89 min., 2013) — Um menino de quinze anos levando bronca pelo som alto pode parecer banal, mas não quando ele ouve Cauby Peixoto no máximo. Essa cena insólita abre este documentário nacional, que retrata a carreira de um dos nossos maiores cantores. Sob direção de Nelson Hoineff, essa co-produção do Canal Brasil apresenta entrevistas com Emílio Santiago, Agnaldo Rayol, Maria Bethania, Agnaldo Timóteo, além do jornalista Henrique Weltman e do biógrafo Rodrigo Faour. O próprio Cauby fala, entre uma apresentação e outra, sobre seu estilo brilhante, sua malfadada carreira nos Estados Unidos (onde se apresentava como Ron Coby e chegou a gravar uma versão gringa de Maracangalha e um musical). O ponto alto do filme é quando Cauby confessa, com muita graça, suas experiências homossexuais no começo da carreira. No entanto, as entrevistas são breves, poucas e nem sempre inéditas, o que deixa muito espaço paras canções como Blue Gardenia, Conceição, Bastidores, Sozinho espero, Samba do verão, dentre outras. Isso não seria um problema — algumas dessas músicas têm mesmo um quê autobiográfico — mas há certo exagero, com até três repetições da mesma música ao longo do documentário. E o garoto fã de Cauby mostrado na abertura? Ele parece ser esquecido às vezes, mas tem um encontro com velhas fãs do cantor e com o próprio. Em vários momentos, fica bem claro que o cantor de icônicos cabelos encaracolados já não tem muitas forças: ele raramente aparece de pé e se distrai facilmente. Como muitos documentários nacionais, este também falha em oferecer a opção de áudio ou legendas em outras línguas, o que certamente dificulta o reconhecimento estrangeiro de um artista que sempre foi comparado a Frank Sinatra e Elvis Presley.


Em busca dos corais (79 min., 2017) — O que faríamos se uma metrópole como Nova York amanhecesse completamente branca e repleta de esqueletos? Dirigido e produzido por Jeff Orlowski (de Chasing Ice, que recomendamos há quase um ano), este documentário exclusivo da Netflix busca mostrar uma catástrofe desta escala que está acontecendo nos mares do mundo: o branqueamento dos corais. Mas o que é um coral? E por que seu desbotamento e morte são tão preocupantes? Como explicam os biólogos entrevistados nesse filme, cada pólipo que se vê num recife não é um animal, é parte de um animal e um recife é como uma cidade com inúmeros destes e outros animais, como peixes e tartarugas. Estima-se que 1/4 da vida marinha dependa dos corais e nós também precisamos deles: cerca de 1 bilhão de pessoas se alimentam de peixes que vivem e se alimentam em zonas coralinas. Tudo isso está sendo posto em risco pela elevação de apenas 2 graus da temperatura média dos mares. Falar de números, porém, não basta. Ainda menos quando se trata de criaturas que vivem longe de gente e que poucas pessoas veem. Para tornar mais acessível o mundo dos corais e facilitar a conscientização desse problema, o ex-publicitário Richard Vevers decidiu digitalizar os corais do mundo, numa espécie de streetview submarino. Não é uma tarefa fácil nem para uma pessoa só. Em colaboração com Zack Rago, um nerd de corais, o Dr. Richard “Charlie” Veron — que foi uma espécie de Carl Sagan dos corais nos anos 80 —, Vevers monta uma equipe multidisciplinar com biólogos marinhos, oceanógrafos, engenheiros eletrônicos, fotógrafos e mergulhadores para uma tarefa hercúlea: superar os desafios logísticos e tecnológicos e registrar, pela primeira vez, um branqueamento de escala global. O resultado assombroso foi apresentado num simpósio científico e aparece ao final do filme, que deixa questões importantes: precisamos de florestas? De árvores? De corais? Será que podemos viver sobre as cinzas de tudo isso?


Quanto tempo o tempo tem (75 min., 2015) — Estamos naquela época do ano em que nos damos conta de como passaram depressa os últimos meses: como assim, já é novembro? Este documentário nacional, dirigido por Adriana L. Dutra, trata exatamente dessa sensação recorrente e cada vez mais comum de aceleração temporal. Estamos ficando com mais ou menos tempo? O que é o tempo, afinal? Questões como essa – que me fascinam desde a adolescência – levam a paradoxos como o do presente eterno porém cada vez mais efêmero, da solidão compartilhada das redes sociais e da desorientação generalizada em meio à era da informação. Para entender essas questões e discutir suas consequências, Dutra passou um ano viajando ao redor do mundo ouvindo os mais diversos especialistas: André Comte-Sponville (filósofo), Marcelo Gleiser (físico), Thierry Paquot (arquiteto), Arnaldo Jabor (jornalista), Luiz Alberto Oliveira (físico), Ray Kurzweil (futurólogo), Erick Felinto (professor de cibercultura), Stevens Rehen (neurocientista), Domenico De Masi (sociólogo), Alexandre Kalache (geriatra), Coen Sensei (monja budista), Nélida Piñon (escritora), dentre outros. Com tantas perspectivas, do budismo ao transumanismo, fica difícil encontrar uma única resposta. A sensação que fica é que de fato estamos indo cada vez mais depressa. Mas para onde e por quê?


Séries documentais

Crime Files: The Homefront (2015, 1 temporada) — Nesta espécie de Linha Direta gringo, são relatados casos de violência doméstica que vão de roubos em família e noivas em fuga a relacionamentos tóxicos que culminam em assassinatos. Apresentados em reconstituições simples, sem muita dramatização e ilustrados por fotos, áudios ou vídeos da investigação, os crimes comentados por Tim Ohlmer, ex-policial de Los Angeles e Tim Clemente, ex-detetive de homicídios do FBI, que os desenvolvem do ato criminoso à investigação e ao julgamento. Embora os 20 episódios sejam curtos, com cerca de 20 min., às vezes são apresentados mais de um caso por programa. Ao contrário do que pode parecer, esse ritmo mais ou menos frenético tem um lado positivo: deixa pouco espaço para sensacionalismo típico dos nossos programas policiais de fim de tarde.


Fire Chasers (2017, 1 temporada) — Em quatro episódios com cerca de 1 hora cada, esta série exclusiva da Netflix acompanha a temporada de incêndios do ano passado na Califórnia. O foco, porém, não está apenas nas chamas, em suas causas e na destruição que deixam e sim nas pessoas que as combatem. Enquanto as autoridades californianas discutem as causas dos incêndios cada vez mais frequentes, uma turma de novatos começa a ser treinada por veteranos de uma brigada, uma equipe reforça seu pessoal com um programa de ressocialização de detentas e um casal de fotógrafos roda pelo estado para fazer time-lapses, registros fotográficos e caçar peças de alumínio derretido nos escombros. Diferente de outros documentários, este é quase todo apresentado em primeira pessoa, inclusive nas imagens, feitas com go-pros presas aos bombeiros e bombeiras nos momentos de treinamento e combate ao fogo e time-lapses do casal de fotógrafos. É uma maneira diferente — e única — de se colocar na pele deles e entender como eles trabalham. Interessante notar também o ambiente com o qual lidam, acidentado e com uma vegetação que por vezes lembra a do nosso cerrado. Talvez a parte mais interessante seja a que trata da ressocialização de detentas por meio do corpo de bombeiros. Surgido da necessidade de colocar mais gente nas brigadas, o programa mostra-se muito bem-sucedido e é uma ideia que poderíamos adotar no Brasil.

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