Feira do Livro numa rua de Leningrado por volta de 1960.

Feira do Livro numa rua de Leningrado por volta de 1960.

O apetite soviético pela matéria impressa é, já agora devíamos sabê-lo, ilimitado. Há boas livrarias em todas as cidades de bom tamanho; estão sempre cheias e um romance novo, mesmo que a edição seja substancial, algumas vezes se esgota no dia em que vem a lume. Os autores ocidentais deveriam invejar este fenômeno animador. O povo tem uma sede e um entusiasmo pelos livros quase incrível para os nossos padrões. No metrô de Moscou vi passageiros lendo livros – não jornais ou revistas mas livros mesmo – enquanto subiam ou desciam as escadas rolantes. Pensei mais tarde que tivesse imaginado essa cena, tão estranha me parecia; mas vi mais tarde fotografias dela num jornal de Moscou. Por que o povo lê tanto? Pela mesma razão, dentre outras, por que bebe tanto – para evadir-se e ingressar, durante alguns abençoados momentos, num mundo diferente – mas também porque tem uma paixão genuína pela auto-educação (…) Na União Soviética se publicam mais livros do que em qualquer outro país do mundo. Ali existem 213 diferentes editoras (destas 109 operam sob o Ministério da Cultura), as quais publicam livros em 122 línguas. A produção total de livros em 1956 – um recorde até a presente data – foi de 1 100 000 000 de exemplares, distribuídos entre 54 732 títulos [contra 12 589 títulos nos Estados Unidos]. Cinquenta e nove por cento da produção soviética se refere a livros sobre as ciências exatas, naturais e aplicadas. Se quisermos fazer comparações, veremos que a proporção, na França, é de 29% e na Inglaterra, de 22%. Os livros didáticos aparecem em edições imensas. Os infantis têm também grande saída; de fato, neste gênero publicaram-se mais de um bilhão e meio de volumes desde 1918, excluídos os livros escolares. A União Soviética também lidera o mundo em matéria de traduções, de que publicou 480 000 000 de volumes nos últimos quarenta anos. Isto representa cerca de vinte vezes a produção de literatura traduzida nos Estados Unidos. — GUNTHER, John. A Rússia por dentro. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1959. pp. 316-17.

Por que tantos livros? Onde eles foram parar? Dois livros diferentes respondem a essas perguntas. Como nota Molly Guptil Manning em Quando os livros foram à guerra (LeYa, 2015), o exército nazista destruiu 375 arquivos, 402 museus, 531 institutos e 957 bibliotecas na Europa Oriental. Só na Rússia 55 milhões de exemplares teriam sido destruídos durante a invasão alemã entre 1941-43. Para repor tamanha perda, foi necessária uma produção colossal nos anos 1940 e 1950.

Após a guerra, com o renascimento da indústria editorial soviética, colecionar livros tornou-se um misto de hobby e investimento — era comum deixar livros de herança para os filhos. Infelizmente, esse hábito não parece ter sobrevivido ao fim do Império Vermelho. Isso fica evidente em outro livro — O fim do homem soviético, de Svetlana Aleksiévich (Cia. das Letras, 2016) — onde um dos dramas dos anos finais da URSS era ter que se desfazer dos livros colecionados ou herdados a fim de fazer dinheiro em tempos de crise. Foi por essa época que a TV começou a tomar o lugar dos livros no imaginário popular e dos jovens, levando a um declínio na produção e consumo de material literário.

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