O que têm em comum um micro-ondas, um cliente de restaurante, dois cientistas e uma audiência judicial? Resposta: ovos, ovos explosivos.

Quem já assistiu algum filme ou série que se passa num tribunal sabe que às vezes algum cientista pode ser consultado pela corte ou arrolado como testemunha para ajudar a esclarecer um caso. Normalmente, esse tipo de testemunho não envolve nada de extraordinário para quem lida com ciência: apresentam-se análises químicas, farmacológicas ou de DNA e perguntas de advogados ou membros do júri são respondidas [1]. É meio como uma conferência científica, só que com valor legal, capaz de inocentar ou condenar alguém em vez de trazer uma descoberta inédita. Assim, quando Anthony Nash e Lauren von Blohn foram convocados a estudar um caso em julgamento, não esperavam nada demais.

Só que os dois físicos,  que atuam como consultores especializados em acústica, tiveram que trabalhar num caso insólito: eles tiveram que explorar os mecanismos que levam ovos a explodir em micro-ondas. O caso foi aberto quando um homem sofreu queimaduras graves e perdeu a audição quando um ovo cozido explodiu em sua boca. Indignado com as lesões do acidente, o sujeito processou o restaurante que lhe serviu o ovo-bomba.

Nash e von Blohn tinham que descobrir se uma explosão desse tipo realmente poderia causar lesões auditivas graves. “Precisávamos quantificar o pico de pressão sonora de um ovo explodindo, para que pudéssemos comparar com os critérios de risco de danos auditivos”, explicou Nash em comunicado ao Phys.org. Fazer isso foi bem mais complicado do que parece. Sem saber por onde começar a investigação — praticamente não existe literatura científica sobre a acústica de ovos explosivos —, os dois pesquisadores recorreram ao YouTube, onde há uma imensa coleção de vídeos de ovos explodindo em micro-ondas (vide a tag eggsplosion). Um exemplo:

Que ovos cozidos (e, em alguns casos, batatas) explodam nessas condições não é novidade. Algumas localidades dos EUA até exigem que os micro-ondas tenham placas de alerta para o risco desse tipo de explosão alimentícia.  Mesmo assim, é fácil ignorar tais avisos, especialmente quando se é um funcionário apressado num restaurante lotado qualquer. Evidentemente, tal descuido pode causar queimaduras, mas será possível deixar alguém surdo?

Ainda que tenham observado diversas explosões disponibilizadas pelo YouTube, Nash e von Blohn sabiam que essas evidências eram pouco mais que anedóticas para fins científicos. Por acidente ou diversão, os ovos explosivos dos vídeos eram cozidos mas não consistentes de um ponto de vista acadêmico: não havia controle algum de fatores variáveis como a temperatura interna, os tamanhos e os tipos de ovos. Tampouco foram tomadas medidas da intensidade sonora das explosões registradas nessas videocassetadas culinárias.

Pisando em ovos

Assim, não restou alternativa aos dois pesquisadores a não ser explodir alguns ovos. Dúzias e dúzias de ovos. Com os devidos cuidados, claro, porque esse tipo de experimento buscava justamente esclarecer o grau de periculosidade dos ovos-bomba. Depois de selecionar e descrever ovos de vários tipos, Nash e von Blohn botaram a mão na massa.

Primeiro, os ovos foram cozidos e, mais tarde, colocados em banho-maria e reaquecidos num micro-ondas padrão por três minutos, com a mesma potência (1200 W). A temperatura da água do banho-maria foi registrada na metade e no fim do ciclo de aquecimento. Por fim, os ovos que não explodiram durante o aquecimento foram tirados (cuidadosamente) da água, colocados numa bancada e tocados rapidamente com um termômetro pontudo, o que induzia uma explosão ao mesmo tempo que registrava sua temperatura.

Além de levados ao tribunal, os resultados renderam uma apresentação na 174ª. Conferência da Sociedade Acústica da América, realizada entre 4 e 8 de dezembro em Nova Orléans. Conforme Nash:

A um pé de distância [~30 cm] os picos dos níveis de pressão dos ovos aquecidos por micro-ondas iam de 86 a 133 decibéis. Só 30% dos ovos testados sobreviveram o ciclo de aquecimento no micro-ondas e explodiram ao ser acertados por um objeto agudo. Do ponto de vista estatístico, a probabilidade de um ovo explodir e danificar a audição de alguém é bem remota. É quase como brincar de roleta com um ovo.

O homem que foi bombardeado por um ovo cozido pode discordar (afinal, além da audição ele provavelmente perdeu seu processo), mas as evidências são contundentes: a maioria dos ovos explode dentro do micro-ondas e não dentro da boca ao ser mordidos. Até porque seria muito estúpido mordiscar um ovo cozido inteiro pelando de quente, por mais que se esteja apressado ou esfomeado.

Perda para uns, ganhos para outros

Além de resolver um caso no tribunal, os dois cientistas resolveram o que até então era um mistério: por que, exatamente, ovos cozidos explodem no micro-ondas. A explicação veio dos ovos que não explodiram. Quando isso acontecia, Nash e von Blohn podiam medir a temperatura do interior da gema com um termômetro especial. Essas medições indicaram que a temperatura da gema era, segundo Nash, “consistentemente mais alta que a da água ao seu redor [tanto na clara quanto no banho-maria]”.

Essa evidência indica que o culpado está na gema, que absorveria a radiação micro-ondas mais facilmente que a água. Para os pesquisadores, o problema está nas proteínas da gema, que formam pequenas armadilhas para a água no interior do ovo. Quando essas bolhas de água formadas dentro das massas de proteínas são submetidas ao micro-ondas, sofrem um superaquecimento brutal, alcançando temperaturas superiores ao ponto de evaporação da água comum. Assim que são perturbadas de alguma forma — um deslocamento dentro do micro-ondas, uma garfada ou mesmo uma mordida —, as bolhas superaquecidas da gema entram numa reação em cadeia de ebulição instantânea. O resultado é um ovo-bomba. Embora esse tipo de explosivo não seja fatal, é melhor tomar cuidado. Vai que…

Referência

rb2_large_gray25Abstract: 3aAA11: “Sound pressures generated by exploding eggs” [“Pressões sonoras geradas por ovos explosivos”] by Anthony Nash and Lauren von Blohn, Dec. 6, 2017 in Studio 9 in the New Orleans Marriott.
asa2017fall.abstractcentral.com/s/u/3Cw0kpJV_I4


[1] OK, nem sempre é tão simples. Cientistas e outros especialistas também podem participar de litígios que envolvem problemas mais complexos, como determinar a origem e os efeitos da poluição de uma área, a ligação entre o uso ou consumo de certo produto e uma doença (celulares vs. câncer, por exemplo) ou a propriedade intelectual de descobertas no campo biológico (as células imortais de Henrietta Lacks talvez sejam o melhor exemplo). Por vezes, a defesa e a acusação podem recorrer a cientistas diferentes capazes de chegar a conclusões diferentes partindo dos mesmos dados levantados pela investigação. Essas e outras querelas jurídicas podem revelar problemas na forma como fazemos ciência ou interpretamos seus resultados. Pensando bem, tais questões merecem um estudo aprofundado e interdisciplinar entre direito e ciência (se é que já não existe algo assim).

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