Algumas armas ilegais apreendidas pela polícia de Leningrado [S. Petersburgo] em meados dos anos 1940. [via English Russia]

Algumas armas ilegais apreendidas pela polícia de Leningrado [S. Petersburgo] em meados dos anos 1940. [via English Russia]

“Há muitos crimes na União Soviética,” – relata John Gunther em seu livro-reportagem – “mas a maioria está constituída por delitos de menor gravidade.” Eis alguns dos casos que apareceram nos jornais soviéticos, antecedidos de uma contextualização:

O incêndio propositado (um dos crimes mais comuns na Rússia de antes), o roubo à mão armada, o estupro e até o roubo com arrombamento são raros. Os delitos que ocorrem com maior frequência são a apropriação indébita, as operações do mercado negro, a especulação, a perturbação da ordem e o pequeno estelionato. Qualquer que seja o crime, o castigo costuma ser rigoroso. A pena de morte para o homicídio, abolida durante alguns anos, foi restaurada em 1954; de tempos em tempos se cometem alguns homicídios muito curiosos, do tipo crime passional, bem como homicídios simples resultantes de violência. A duração máxima da pena de prisão (“privação da liberdade”) é vinte e cinco anos. Não há muito, um motorista embriagado que matou um homem recebeu a pena de morte. Ao que se crê, é o primeiro caso, na História soviética, de pessoa condenada à morte por crime cometido em conexão com um automóvel.

“As notícias policiais lançam, indiretamente, muita luz sobre o caráter e as circunstâncias do povo soviético.” — prossegue Gunther. “Os crimes nunca são tratados com sensacionalismo e raramente aparecem sob grandes manchetes”. Eis um exemplo de fraude no comércio, noticiado pelo Sovietskaya Rossiya:

– Tem sapatos de fantasia? [i.e., calçados de fabricação artesanal, mais caros que os modelos industrializados]

– Sem dúvida.

O freguês examinou os sapatos e achou-os um pouco grosseiros.

– Não tem coisa melhor?

– Isto, caro cidadão, é um produto de primeira. – disse a vendedora sem pestanejar – É melhor levá-lo enquanto ainda existe no mercado.

A Loja No. 40, da Divisão de Abastecimento dos Trabalhadores do Consórcio de Carvão de Moscou, onde ocorreu essa conversação, está situada na Estação Uzlovaya. É um lugar movimentado e a loja está prosperando. À noite a vendedora Ye[katerina]. Nikiforova dirigia-se ao gerente A. Sverjin e dizia:

– Bem, Alexander Ilyitch, o dia não foi mau. Fizemos 50 000 rublos em sapatos. Aqui está o dinheiro. Guardei alguns milhares para mim.

Esses escroque que vendiam a preços exorbitantes tiveram sorte extraordinária por muito tempo. Sverjin cresceu em audácia e tirou 400 000 rublos da loja, esperando cobrir o desfalque com o proveito auferido nas vendas. Não pôde fazê-lo, todavia, porque ele e a vendedora Nikiforova foram detidos.

A investigação revelou que a loja recebia sapatos dum artel [cooperativa] de artigos de esporte da aldeia de Sadovniki, no Distrito de Lenino, Província de Moscou. Esse artel fornecia à loja sapatos produzidos em massa, mas tinha um acordo com Sverjin: “Venda os sapatos como artigos de fantasia, dê-nos 75% da diferença de preço e fique com o resto.”

Os criminosos serão submetidos a julgamento em breve.

Seguem-se outras notícias das páginas policiais da URSS e alguns dos casos nos parecem cômicos, como o de dois seminaristas que levaram 15 dias de cana após matar a sede com vodca, invadir e perturbar um consultório médico; uma moça lituana presa em flagrante ao revender pelo dobro do preço, na fila da loja, uma máquina de costura que havia acabado de comprar — julgada e condenada a três anos de detenção. Outros, são mais graves, como um latrocínio realizado por uma gangue juvenil na Letônia. Gunther conclui sua compilação de crimes na União Soviética com um tour de force por toda as principais cidades daquele país:

Poder-se-ia continuar indefinidamente. Um surrador de couro de uma pelaria de Vilna [capital da R.S.S. da Lituânia] roubou 29 couros de bezerro; foi condenado a sete anos. Uma moça encarregada de um restaurante da Geórgia desviou 50 mil rublos: pena de 13 anos. Um bando que operava numa fábrica de sapatos em Zaraisk [a uns 160 km de Moscou] “roubou pilhas de couro de qualidade superior”: 25 anos. Um médico de Riga [capital da R.S. S. da Letônia] efetuou um aborto criminoso [i.e., clandestino] e a paciente quase morreu: dois anos. Um gerente de serraria procedeu “como um senhor feudal”, vendendo em proveito próprio madeiras do Estado no valor de 3 000 rublos: dez anos. Um rapaz de Frunze [atual Bishkek ou Bisqueque, capital do Quirguistão] roubou uma bicicleta: cinco anos. Um motorista de Moscou usava placas falsas: quatro anos. Um advogado de Minsk tentou subornar um funcionário da polícia: três anos. Um rapaz de Kiev furtou dez rublos do bolso dum operário: seis anos. Um carpinteiro lituano matou a senhoria a marteladas: pena de morte. — GUNTHER, John. A Rússia por dentro. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1959. pp. 365-68

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