Turbina gigantesca na hidroelétrica de Samara, construída nos anos 1950. Apesar de importante, obras como essa pouco fizeram para melhorar a produtividade da indústria soviética. [via English Russia]

Turbina gigantesca na hidroelétrica de Samara, construída nos anos 1950. Apesar de importante e tecnologicamente avançadas, obras como essa pouco fizeram para melhorar a produtividade da indústria soviética. [via English Russia]

Quando saiu na frente ao se lançar na corrida espacial, a URSS parecia prestes a dominar o mundo, inclusive no campo econômico e industrial. Surpreendentemente, uma análise publicada no New York Times revelou-se bastante precisa ao dizer que isso não aconteceria.

Uma análise admirável (mas talvez demasiado otimista) dessa questão, que consiste em saber se a União Soviética alcançará ou não os Estados Unidos em poder industrial nos próximos anos, foi feita por Harry Schwartz no New York Times de 14 de julho de 1957. Mr. Schwartz fez várias observações interessantes. Primeiro: a elevada taxa de crescimento da produção soviética deve ser considerada em perspectiva; parece hoje muito alta em parte porque era extremamente baixa, e já se nota que alguns aumentos percentuais estão declinando. Segundo: o governo do Kremlin, à medida que o tempo passa, provavelmente terá que atender cada vez mais às reivindicações dos consumidores, mormente no tocante à moradia (por outro lado, o regime de Khruchtchev [sic] tem sido categórico na afirmativa de que a escassez de moradia estará “vencida” por volta de 1970). Terceiro: a falta de braços. Quarto: uma grande parte do esforço industrial soviético está sendo deslocado da Rússia europeia para a Sibéria, o que provoca muito trabalho e gastos vultosos. Quinto: sérias dificuldades na agricultura. Da mesma forma — ainda segundo Mr. Schwartz — podem entrar em jogo fatores não estritamente econômicos como, por exemplo, novas manifestações de rebeldia nos países-satélites (que já têm custado bastante), forças internas capazes de gerar intranquilidade dentro da própria União Soviética e o fato de que a competição russa terá provavelmente o efeito de estimular o mundo ocidental a um esforço maior. Afinal de contas, ninguém tem o direito de supor que os Estados Unidos vão permanecer imóveis e com as mãos no bolso durante o próximo decênio. — GUNTHER, John. A Rússia por dentro. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1959. p. 403.

Como qualquer um que tenha estudado a História da URSS sabe, a estagnação prevista no primeiro ponto da análise de Mr. Schwartz foi chegando aos poucos até se tornar crônica a partir dos anos 1970. Consequentemente, a falta de moradia e principalmente a subprodução de bens de consumo deprimiu ainda mais a economia soviética, especialmente em sua última década de existência. Nos anos 80, acumularam-se tanto as revoltas brandas porém contínuas em países satélites (especialmente na Polônia e na Alemanha Oriental), a desastrosa aventura militar no Afeganistão e o acidente nuclear de Chernobyl. Aliada à inflexibilidade da indústria russa — Gunther já notava que dificilmente as fábricas poderiam aumentar a produção em caso de necessidade, pois já trabalhavam em dois ou três turnos — todos esses fatores levaram ao colapso socioeconômico de 1989-91.

Por outro lado, mesmo saindo atrasado na corrida espacial, os EUA souberam aproveitar a oportunidade surgida com a disputa pela primazia no espaço: inúmeras indústrias além da aeronáutica beneficiaram-se do programa espacial americano. Outras que surgiram graças a isso, como as do ramo informático, facilitaram a transição para uma economia de serviços, pós-industrial (algo nunca previsto pelos burocratas de Moscou). No entanto, pode-se dizer igualmente que a economia americana só esteve bem enquanto a URSS forçava-a a melhorar seus padrões. Desde o colapso soviético, a economia americana tornou-se menos centrada na produção e mais na especulação financeira, o que levou a maiores concentrações de renda e ao crash de 2008, uma espécie de Chernobyl das finanças (e os americanos também caíram na armadilha afegã).

O autor dessa análise que nos parece quase presciente sobre o futuro da URSS não era um profeta e sim um americano muito bem-informado — talvez o civil mais bem-informado sobre assuntos soviéticos no pós-guerra. Formado em economia pela Universidade Columbia, o novaiorquino Harry Schwartz [1919-2004] era apenas um autodidata que aprendeu russo enquanto servia como agente de inteligência durante a II Guerra. Após o término do conflito, tornou-se professor de economia na Syracuse University e passou a escrever artigos, análises e editoriais sobre questões soviéticas para o New York Times entre 1951 e 1979. Odiado pela imprensa estatal soviética, que o considerava um “agente de inteligência capitalista”, ele jamais pôde colocar os pés em Moscou, mas chegou a visitar alguns países do Leste Europeu e parecia saber até mais do que quem vivia lá. Além de acompanhar regularmente 35 publicações russas, Schwartz era capaz de ler nas entrelinhas de observações feitas por diplomatas e outras pessoas que haviam estado na URSS. Notando as autoridades presentes (ou não) nas cerimônias moscovitas, era capaz de deduzir mudanças políticas antes que elas se tornassem aparentes ou oficiais.

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