Não existem fotos de Hans Jonatan, claro, mas ele deixou muitos descendentes. Este é seu neto, Ludvik Ludviksson, fotografado em meados do século XIX. Hans deve ter sido parecido com ele.

Não existem fotos de Hans Jonatan, claro, mas ele deixou muitos descendentes. Este é seu neto, Ludvik Ludviksson, fotografado em meados do século XIX. Hans deve ter sido parecido com ele.

Sem recorrer a qualquer amostra do corpo em questão, pesquisadores da Islândia realizaram um feito inédito: reconstruir mais de 1/3 do DNA de um homem que morreu há quase dois séculos e tem uma história extraordinária.

Na literatura policial e nas séries de TV detetivescas, o assassinato perfeito é aquele em que não há corpo para ser identificado. De fato, não dá pra fazer um exame de DNA se um corpo for inteiramente destruído ou impossível de ser localizado. Se fosse possível reconstruir o código genético de alguém a partir de seus descendentes, essa técnica de ocultação de homicídio pela eliminação do corpo estaria com os dias contados. Pesquisadores da Universidade da Islândia, do Laboratório de Eco-Antropologia do Centro Nacional de Pesquisa Científica (França), da Université d’Abomey-Calavi (Benin) e da Universidade do Porto (Portugal) conseguiram fazer isso graças a um caso extraordinário.

O homem que teve seu DNA parcialmente reconstruído sem ter um corpo chama-se Hans Jonatan. Não se deixe enganar pelo nome: Jonatan era um negro que escapou da escravidão no Caribe indo para a branquíssima Islândia em 1802, aos 18 anos, após uma epopeia rocambolesca que envolveu uma mudança com seus donos para a Dinamarca, uma rápida passagem pela marinha dinamarquesa e uma tentativa de deportação.

A família que possuía Hans e sua mãe mudou-se para a Dinamarca em 1789, quando ele ainda era criança. Alguns anos mais tarde, o dono de Hans morreu, legando-o como propriedade para sua viúva. Como a escravidão era ilegal na Dinamarca, mas não nas colônias, Jonatan teria sido obrigado a voltar para o Caribe. Antes disso, porém, fugiu para a Islândia e foi o primeiro negro a chegar lá. Figura lendária entre os islandeses, Jonatan teria sido recebido de braços abertos por uma comunidade local, onde casou-se e teve filhos antes de falecer em 1827. Esses filhos também se reproduziram e foram passando pedaços do DNA africano do Jonatan — único na Islândia — para as gerações seguintes.

Mas será que esse tal de Jonatan realmente teria existido? Pesquisas sobre ele vem sendo conduzidas desde os anos 1990, quando sua história foi redescoberta. Até agora, havia apenas evidências documentais e indiretas sobre Hans Jonatan, cujo nome foi citado no processo sobre seu status de escravo na Dinamarca e no diário de um viajante que o usou como guia na Islândia, vários anos mais tarde. A localização de seu corpo, entretanto, jamais foi determinada. Dada sua situação extraordinária, não seria impossível descobri-lo: ele seria a agulha negra no palheiro branco da Islândia. Lembra dos pedacinhos de DNA espalhados entre seus descendentes? Em tese, seria possível remontar o perfil genético de Jonatan a partir disso.

Em qualquer outro lugar do mundo, traçar todos os descendentes de um indivíduo morto há dois séculos seria uma tarefa difícil, longa e demorada. Mesmo nesse aspecto, a Islândia facilitou muito as pesquisas. Para os cientistas islandeses, foi moleza: cerca de um terço da população do país está registrada em bancos de dados genealógicos.

Revirando esses dados, Anuradha Jagadeesan e seus colaboradores identificaram 788 islandeses com traços genéticos africanos. Destes, foram selecionados 182, que foram geneticamente perfilados usando técnicas como polimorfismo de nucleotídeo simples (SNP, na sigla em inglês). Duas dezenas dos descendentes de Jonatan tiveram o genoma completamente sequenciado.

Este gráfico do estudo em referência indica em azul as partes do genoma de Hans Jonatan que foram reconstruídas. Quanto mais escuro o tom, mais presente aquele pedaço de DNA entre seus descendentes.

Este gráfico do estudo em referência indica em azul as partes do genoma de Hans Jonatan que foram reconstruídas. Quanto mais escuro o tom, mais presente aquele pedaço de DNA entre seus descendentes.

A solução desse quebra-cabeça foi publicada na Nature Genetics e vai mais além de comprovar a existência de Hans Jonatan (HJ). Jagadeesan et. al. também puderam traçar as origens de Jonatan e sua família: ele seria filho de Emilia Regina, uma africana escravizada em St. Croix ou Santa Cruz, uma ilha caribenha que era colônia dinamarquesa e atualmente faz parte das Ilhas Virgens Americanas.

Segundo os pesquisadores, a mãe de HJ seria originária da região que vai do Benin à República dos Camarões, passando pela Nigéria. Essa inferência só foi possível porque a maior parte dos 38% do  genoma reconstruído era de origem materna. A paternidade de Jonatan não foi determinada com clareza, mas suspeita-se que ele fosse filho de um europeu branco. Dado o contexto, é possível que fosse Heinrich Ludvig Ernst von Schimmelmann, um dinamarquês e dono da mãe de HJ ou Hans Gram, secretário de Schimmelmann.

Embora seja fruto de uma situação histórica, étnica e genética realmente fora do comum, a pesquisa islandesa demonstra a possibilidade de usar descendentes para fazer a identificação de uma pessoa séculos após sua morte. Além de abrir uma porta para futuras investigações criminais de casos sem solução, essa técnica que mistura engenharia reversa e genética pode ser útil no preenchimento de árvores genealógicas incompletas — um problema muito comum fora da Islândia, onde os registros genealógicos são bastante imperfeitos.

Referência

rb2_large_gray25Anuradha Jagadeesan et al. Reconstructing an African haploid genome from the 18th century [Reconstruindo um genoma haploide africano do século XVIII], Nature Genetics (2018). DOI: 10.1038/s41588-017-0031-6

Veja também

Preto no Branco, a história do primeiro africano a botar os pés na Groenlândia.

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