Para os que têm tão pouco tempo quanto o segundo mês do ano, recomendamos quatro documentários curtos, que vão das marcações numéricas do Holocausto à capital americana das overdoses

Numerado (55 min., 2012) — Leo Luster traz uma tatuagem no antebraço esquerdo: B11647. Não haveria nada de extraordinário nisso, agora que tatuagens são mais aceitas por gente de todas as idades e as tattoos são vistas como forma de expressar aspectos da própria personalidade ou guardar lembranças. Só que Luster não fez sua tatuagem por vaidade, nem por boas lembranças: como milhares de outros prisioneiros e sobreviventes do Holocausto, Luster teve marcado na pele o número que substituiu seu nome. Este documentário, dirigido por Dana Doron e Uriel Sinai, apresenta os depoimentos feitos de Luster e outros portadores desse tipo de tatuagem bastante especial. Zoka Levy (A11998) perdeu um filho na Guerra do Yom Kippur. Daniel Chanoch (B2823), marcado aos 8 anos, tem grande orgulho de seu pequeno número e esconde tudo debaixo de um humor bem negro. Gita Kalderon (76914) escondeu dos filhos os horrores pelo qual passou. Menachem Sholowicz (B14594), Asher Ud (B14595) e Jacob Zawadazki (B14597) formam um trio extraordinário por terem sido marcados consecutivamente e sobrevivido. Após uma vida de privações, Vera Rosenzwig (A2074) compra todos os confortos que pode ter. Hanna Tessler (A9895) e sua irmã Sarah (A9896) estão com seus números já meio apagados, tanto na pele quanto na memória. Zwi Steinitz (174251) quase desmaiou ao ser abraçado pela primeira vez após o campo de concentração. Ruth Bondy (72430) não aguentou e apagou o número assim que pôde. Abramo Nacson (A15510) foi tira-dentes e coveiro no campo de concentração e mais tarde foi estivador em Tel-Aviv; seu neto tatuou seu número. Leon Klinger (65640) já faleceu, mas sua filha Hanna Rabinovitz também decidiu tatuar o número.


Sovdagari – o mercador (23 min., 2018) — Enquanto muita gente está usando todo tipo de computador para minerar moedas virtuais, o dinheiro da Geórgia cresce naturalmente. Embora tenha uma moeda — o lári —, essa ex-república soviética tem uma economia tão débil que seus recursos financeiros são inúteis. O comércio entre o interior e a capital, Tiblisi, regrediu a um sistema de trocas centrado na batata. Comerciantes como o rotundo Gela Kolochovi percorrem os vilarejos modorrentos do interior trocando mercadorias diversas pelo tubérculo, a preços como 2 kg de batatas por uma revistinha infantil, 5 kg por um cachecol, 25 kg por um par de botas. De volta à capital, Kolochovi vende as batatas recebidas a granel, transformando sua van numa barraquinha de feira. Não espere muita ação neste documentário dirigido por Tamta Gabrichidze: no campo ou na cidade grande, as vendas são poucas e os ganhos menores ainda. Envelhecidas pelo empobrecimento em massa, as pessoas já não têm qualquer tipo de ambição — no máximo, temos a avozinha solitária que implora por um ralador em troca de 1 lári. Entretidas por bolas (de sabão, de futebol ou as de pelo na forma de gatinhos), as crianças parecem viver em outro século e são tão apáticas e tímidas quanto os adultos que as cercam. Com uma fotografia digna de reportagens da National Geographic, esse documentário curto nos mostra como é uma verdadeira economia de Estado mínimo e sem moeda oficial: miserável, apática e improdutiva.


#Rucker50 – Gigantes do Basquete (56 min., 2016) — Professor de educação física no Harlem dos anos 1960, Holcombe Rucker fez ativismo não com discursos mas com esporte ao fundar a Liga Juvenil de Basquete do bairro negro de Nova York. O programa educacional que começou com meia dúzia de equipes do ensino fundamental ao universitário tornou-se um fenômeno sócio-cultural nos anos 1970 e chegou à TV nos anos 1980. Nos fins de semana do verão nova-iorquino, milhares de pessoas lotavam as quadras de basquete do Parque Rucker (e os telhados e as árvores e as cercas vizinhas) para assistir aos torneios entre equipes formadas por profissionais e amadores de ambas as raças e sexos. Esse documentário comemora os 50 anos do evento esportivo que virou modelo para cidades dentro e fora dos Estados Unidos e formou não apenas gerações de estrelas da NBA mas também profissionais como árbitros, narradores, treinadores, professores de educação física, jornalistas esportivos, músicos e até estatísticos. Dezenas desses profissionais, além de torcedores e moradores do Harlem compartilham suas memórias sobre a competição criada por Rucker e contam os diversos impactos que o evento teve em suas vidas — além dos astros do basquete, ali nasceram relacionamentos, carreiras profissionais diversas e parte da cultura hip-hop.


Heroína(s) (39 min., 2017) — Jan Rader é vice-chefe do departamento de incêndio de Hutington (Virginia Ocidental), Patricia Keller é juíza do condado de Cabell e Necia Freeman é uma missionária. Mas as chamas com as quais as três lidam diariamente são bem diferentes de um incêndio comum: são curto-circuitos bioquímicos e neurológicos causados pelo consumo de quantidades absurdas de drogas como a heroína. Hutington, afinal, é conhecida como a capital nacional da overdose nos EUA. Antigo núcleo da indústria carvoeira e química dos EUA, a Virginia Ocidental empobreceu drasticamente com o processo de desindustrialização do país nas últimas décadas. O desemprego, somado ao desespero e à educação precária de seus habitantes levou a uma epidemia de consumo de opióides, especialmente de heroína. Neste documentário curto, acompanhamos as rotinas de trabalho de Jan, Patricia e Necia. A paramédica se desdobra para atender chamadas de emergência de overdose (e pode haver uma dezena por dia) e treinar bombeiros na aplicação de naloxona, o antídoto que corta o efeito da heroína; a missionária faz rondas noturnas pela cidade, distribuindo quentinhas e encaminhando os dependentes químicos que encontra (geralmente prostitutas e sem-tetos) para clínicas de recuperação; no tribunal, a juíza mais parece uma professora dando conselhos e incentivos aos viciados em recuperação ou aplicando penas (normalmente leves) para quem sai da linha. Em meio às estatísticas alarmantes e os constantes casos de overdose (retratados com discrição, buscando preservar a identidade e dignidade dos afetados), há espaço para exemplos de recuperações bem-sucedidas e discussões de políticas públicas. Quando tudo parece se encaminhar para um final aparentemente feliz, o filme é interrompido bruscamente quando Jan tem que atender uma emergência. Uma overdose. Mais uma.


Série documental

Bloodlands (1 temporada, 2014) — O universitário morto depois de conhecer uma menina numa sala de bate-papo; o tenente de polícia cujo corpo foi encontrado num lago; a aspirante a modelo assassinada após uma festa. Esses são alguns dos casos apresentados nos episódios desta série investigativa, que segue a mesma linha de Real Detective. O processo de investigação desses e de outros crimes ocorridos nos Estados Unidos é reconstituído por meio de depoimentos feitos não apenas pelos detetives mas também por promotores judiciais, familiares das vítimas e jornalistas que cobriram os casos. Mostrando as idas e vindas das investigações — entre elas uma que se arrastou por 10 anos — Bloodlands apresenta as diferentes hipóteses levantadas e como elas foram sendo derrubadas pelo aparecimento de novas evidências ou testemunhas — muitas vezes em colaboração com a imprensa. Com roteiros semelhantes às das séries policiais de ficção, o único defeito dessa série é ter apenas seis episódios, todos com exatos 43 minutos de duração.

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