Quando visitou a Rússia, Mark Twain apontou a Criméia como o lugar mais belo que já tinha visto. Na verdade, sua paisagem é fascinante. Como se pode ver no mapa, a península da Criméia pende do corpo da Rússia tal qual um pingente seguro por delgada cadeia. É ligada ao continente pelo Istmo de Perekop, de pouco mais de oito quilômetros de largura, apenas. De um lado encontra-se uma massa d’água com o estranho nome de Mar Pútrido. A “Verde Península” da Criméia é simultaneamente uma encruzilhada da história, um jardim e um complexo museu antropológico. Alcançamos agora uma região subtropical, de magnólias, hibiscos, buganvílias, eucaliptos e cânfora — tudo isso numa resplandecente paisagem de Riviera. Mas a Criméia sabe ser fria no inverno. No dia em que chegamos, o céu estava da cor de uma unha de polegar feiamente machucada. Em Yalta podiam-se ver as montanhas empoadas de neve recente; e sem precisar virar a cabeça, o leitor veria rosas em primeiro plano e, pouco acima, pinheiros glaciados com uma camada de gelo.

A história deixou traços confusos na península. Esta recebeu o nome de Tauris de seus habitantes originais, que parecem ter sido os celtas. Cedo, os gregos começaram a colonizá-la, datando suas primeiras colônias do século V a. C. Transformada em província romana sob César, foi mais tarde governada por outros italianos, incluindo pisanos, venezianos e genoveses. A estes últimos, por estranho que pareça, pertenceu durante duzentos anos. No século XIII houve a invasão dos Tártaros, muçulmanos predatórios que estabeleceram seu canato em Bakhtchisarai, mais tarde conquistada pelos turcos. A península não se tornou russa senão em 1783, quando Potemkin a tomou em nome de Catarina II.

[…] Hoje a Criméia pertence à Ucrânia; no entanto, é provável que só vinte por cento de sua população seja ucraniana. Antes do extermínio dos tártaros da região, sua condição era de república autônoma; em seguida foi ligada à RFSSR [Rússia] e cedida à Ucrânia em 1954 — com a qual mantém estreitos laços econômicos — como gesto de cortesia aos ucranianos e também para comemorar o tricentenário da união entre esta e a Rússia. Ainda não se sabe como ou onde os tártaros da Criméia reabilitados serão absorvidos; porém o trabalho de respectivo transplante já começou. As principais atrações turísticas da Criméia são o velho Palácio do Canado em Bakhtchisarai e a “cidade heróica” de Sebastopol, que suportou o cerco nazista por 250 dias. Hoje é a principal base naval russa no Mar Negro. Bem estranho é que o lugar — para recuarmos a uma outra guerra — onde a carga da Brigada Ligeira em Balaclava, próximo a Sebastopol, não esteja assinalado, sendo difícil aos turistas localizá-lo. — GUNTHER, John. A Rússia por dentro. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1959. pp. 460-61

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