O que mais surpreende em Tashkent [capital da RSS do Uzbequistão] – e não só lá como em diversas outras cidades da Ásia Central – é o número incrível de amputados. Nos primeiros momentos após a chegada, deparamos, nas ruas e mercados, com aleijados coxeando. Alguns esmolavam; outros, vendiam lápis e cordões de sapato. Um homem tinha ambas as pernas e um braço amputados. Havia centenas de outros, mutilados de maneiras menos impressionante. De início pensei que esses infelizes haviam sido remetidos para lá em virtude do clima salubre. Não era esta a razão. Há alguns anos, as autoridades decidiram limpar Moscou, Leningrado e outras metrópoles russas de seus elementos desfigurantes mais em evidência – alcoólatras inveterados, delinquentes incorrigíveis, e assim por diante. Das pessoas que desfiguram uma sociedade, os amputados são naturalmente os que mais chamam a atenção. Assim, dezenas de milhares deles foram simplesmente agarrados, encurralados e remetidos para os mais remotos lugares da Ásia Central, onde hoje se encontram. A não ser que possam trabalhar, não recebem pernas de madeira. E a fim de evitar que morram de fome, a administração local dá-lhes artigos para vender. — GUNTHER, John. A Rússia por dentro. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1959. p. 492-93

É possível que boa parte, se não a maioria, desses deficientes físicos ou dependentes químicos tenha ficado nessas condições durante a invasão alemã na II Guerra Mundial — que os russos ainda chamam de “Grande Guerra Patriótica”. O fato de terem sido escondidos nos cafundós da URSS em vez de receberem pensões e acomodações decentes em suas cidades de origem revela que o patriotismo soviético não ia muito além das grandes paradas militares na Praça Vermelha. Não menos infeliz era a situação de sobreviventes de expurgos e algumas minorias étnicas transferidas à força de seu território natal:

Por fim, os detentos. Encontram-se por toda a Ásia Central esses infelizes expatriados – formando colônias de “pessoas inaproveitáveis”. Já as mencionamos no início do presente livro; em primeiro lugar, as comunidades de poloneses, bálticos e ucranianos, arrancados em peso de seus lares durante a coletivização e os expurgos; e, depois, os cidadãos das “nações” abolidas – alemães do Volga, tártaros da Criméia, calmucos e os vários grupos caucásicos, literalmente varridos do mapa. Os últimos têm sido reabilitados; o processo para reconduzi-los à sua terra natal, porém, é lento e complexo, vivendo ainda no centro da Ásia um incontável número de infortunados prisioneiros. Alguns, como os aleijados já referidos, transformaram-se em mendigos virtuais; outros, trataram de construir uma nova vida no Cazaquistão ou no Quirguistão, e não se acham em situação tão má. […] A proibição para os visitarmos foi terminante. Essas vítimas de uma “política de nacionalidades” bem diferente da apregoada foram formalmente “abolidas” — Op. cit., p. 502

Leitura adicional

  • PHILLIPS, Sarah D. “There Are No Invalids in the USSR!”: A Missing Soviet Chapter in the New Disability History [“Não existem inválidos na URSS!”: o capítulo soviético que faltava na Nova História da Deficiência]. Disability Studies Quarterly, vol. 29, n. 3 (2009). Neste estudo, a antropóloga da Universidade de Indiana (EUA) apresenta um largo panorama histórico e social das pessoas com deficiência na Rússia e na Ucrânia, do período tsarista à era pós-soviética. O foco da investigação, porém, está no tratamento dado a essas pessoas pelo governo soviético, que teve uma postura louvável no período pós-revolucionário mas viu regressões no governo de Stálin e no pós-II Guerra. A frase do título é referência a uma autoridade soviética, que explicou porque a União Soviética não participaria das primeiras paraolimpíadas (realizadas no Reino Unido em 1980).
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