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“Vão pra casa, russos!”, grita uma vitrine de Budapeste em 1956.

Resumindo, os países satélites estão procurando, sob o manto de Moscou, evoluir de diferentes maneiras; embora fosse grosseiro exagero afirmar que qualquer deles esteja no ponto de se libertar, manifesta-se, quase que em todos uma intensa fermentação, um quase tumulto. Em decorrência disso, o dilema que se impõe a Moscou é desconcertante. Consiste, numa palavra, em “como fazer funcionar o regime, sem Stalin.” É de todo impossível recolocar a Europa Oriental sob controle direto de Moscou, sob a total disciplina do Kremlin. (…) O fato é que o dilema apresenta analogia com outro, que também marca, embora de maneira não tão dramática, os assuntos domésticos da Rússia. Esse último consiste, em seus traços mais gerais, no fato de que os oligarcas russos não podem dar-se ao luxo de ser rigorosos demais, nem de afrouxar muito: se continuarem a governar exclusivamente pela força arbitrária, perderão todo o contato com o povo; mas se se mostrarem liberais em excesso, correrão os riscos de novas dissidências e da possibilidade de eventuais revoltas. — GUNTHER, John. A Rússia por dentro. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1959. p. 520

Ainda recente na memória da época em que o livro foi escrito, a Revolução Húngara de 1956 deve ter inspirado esse parágrafo. Embora hoje esteja mais esquecido que a Primavera de Praga de 1968 ou o movimento Solidariedade polonês de 1980, o levante húngaro foi bem mais ousado que estes, exigindo grande autonomia em relação a Moscou, inclusive em questões partidária (uma das bandeiras do movimento húngaro era o retorno ao multipartidarismo). Nos trinta anos seguintes, a cúpula russa viu-se tão dividida e preocupada com a situação dos países satélites que não percebeu a necessidade de fazer reformas dentro da própria URSS – quando elas vieram, em 1986, já era tarde demais.

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