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Modelos computacionais indicam uma composição extraordinariamente úmida para os planetas do sistema TRAPPIST-1. É (mais) um balde de água fria nas esperanças de encontrar ali um ambiente habitável.

Quando sete planetas de tamanho parecido com o nosso foram encontrados ao redor da zona habitável de uma anã-vermelha chamada TRAPPIST-1, houve uma tempestade midiática embalada pela esperança de que encontraríamos ali um mundo em condição de habitabilidade. Não demorou muito para as pesquisas mostrarem que o sistema formado pelos planetas b, c, d, e, f e g seria pouco amigável graças à instabilidade de seu astro-rei pequeno, avermelhado e hiperativo.

Mesmo que tenham campos magnéticos capazes de protegê-los das tempestades solares de TRAPPIST-1, os planetas daquele sistema situado a 39 anos-luz daqui têm outro problema: sua composição. Observações feitas pelo método de trânsito determinaram seus diâmetros e suas massas. Com base nessas informações, cientistas das Universidades do Estado do Arizona (ASU) e Vanderbilt (VU), ambas nos EUA, fizeram modelagens computacionais para estimar do que seriam formados os famosos sete planetinhas.

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Em termos de escala, TRAPPIST-1 situa-se entre o sistema jupiteriano (acima) e a órbita de Mercúrio (abaixo). Do que seriam feitos os sete planetas de um sistema tão compacto?

Embora tenham sido classificados como rochosos e tenham mais ou menos o tamanho da Terra, isso não significa que aqueles mundos sejam como o nosso. Eles poderiam ser bolas de gelo e água, parecidos com Europa, a lua de Júpiter (que também é alvo de muitas especulações sobre sua habitabilidade). Parece ser esse o caso dos planetas que cercam TRAPPIST-1, segundo a pesquisa publicada em 19/03 na Nature Astronomy — o artigo foi assinado por Cayman T. Unterborn, Steven J. Desch, Alejandro Lorenzo (ASU) e Natalie R. Hinkel (VU).

Na verdade, esses planetas estariam mais para super-Europas. De acordo com os modelos de Unterborn et. al., tais mundos teriam água em sua composição. Dependendo do planeta, de 10% a 50% em massa seria somente água. Por comparação, o nosso Planeta Água tem meros 0,2% de H2O em relação à massa total. É muita, muita, muita água, equivalente a centenas de oceanos terrestres.

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Perfil da crosta de Trappist-1f, que dá indícios de ter um oceano raso sobre duas camadas de gelo duro feito rocha. Abaixo da massa aquosa, ficaria um material semelhante ao manto e um núcleo de ferro líquido, uma configuração interna parecida com a da Terra.

Choque de gelo

Se você achou que isso seria uma boa notícia para a habitabilidade de TRAPPIST-1, achou errado, otário. Há tanta água naqueles planetas que nem sobra espaço pra terra. Tamanha massa aquosa seria capaz de formar duas camadas diferentes de gelo sob um mar raso — gelos do tipo VI e VII, formados por compressão. Com milhares de quilômetros de espessura, essa imensa camada congelada impede a formação de rochas como as terrestres. Sem rochas expostas, não tem como ocorrer as reações geoquímicas que facilitam o surgimento da vida (ao menos da vida como a conhecemos).

Além de afogar quaisquer possibilidades de vida, todo esse gelo e água também são indícios de como nasceram os planetas do sistema TRAPPIST-1. Apesar de estarem todos dentro da chamada linha de neve — a zona dentro da qual podem se formar água e gelo —, o grau de umidade desses planetas varia bastante. Segundo os modelos desenvolvidos, os planetas mais ricos em água — f e g — teriam se formado além da linha de neve, migrando posteriormente para suas atuais posições.

As implicações dessas descobertas podem ser profundas, especialmente se forem confirmadas em outros sistemas semelhantes. Se esses mecanismos de formação e a composição química forem tão comuns quanto as anãs-vermelhas, cai bastante a possibilidade de que seja frequente o surgimento de vidas em outros sistemas planetários.

Referência

rb2_large_gray25Unterborn et. al. Inward migration of the TRAPPIST-1 planets as inferred from their water-rich compositions [Migração interna dos planetas de TRAPPIST-1 deduzida a partir de suas composições ricas em água]. Nature Astronomy 2, pp. 297–302 (2018). DOI:10.1038/s41550-018-0411-6

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