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Suspensas num gel biocompatível, nanopartículas magnéticas podem ser ativadas por um ímã, gerando estímulos físicos capazes de aliviar dores crônicas

A manipulação de nanopartículas magnéticas pode ser eficaz no tratamento de dores crônicas. Não deixa de ser uma descoberta irônica, dada a relação histórica entre medicina e magnetismo.

Mesmo que você não conheça a fundo a História da Medicina, é possível que já tenha ouvido falar em Franz Mesmer [1734-1815] e seu magnetismo animal. No final do século XVIII, Mesmer propôs uma teoria segundo a qual todos os seres vivos seriam dotados de magnetismo. Consequentemente, dizia ele, seria possível tratar doenças aplicando ímãs em áreas feridas ou doloridas.

No século seguinte, conforme o eletromagnetismo passou a ser entendido pelos físicos, o tal mesmerismo caiu em desuso na medicina. No entanto, isso não quer dizer que os médicos tenham abandonado o uso de campos magnéticos. Em vez de tratamento, essa força seria aplicada na criação de ferramentas de diagnóstico — como os aparelhos de Ressonância Magnética desenvolvidos a partir dos anos 1970.

Hoje, portanto, propor um tratamento à base de magnetismo pode parecer coisa de pseudocientista. “Boa parte da medicina mainstream está centrada no uso de farmacêuticos para fazer mudanças químicas ou moleculares no interior do corpo para tratar a doença”, diz Dino Di Carlo. Apesar do tom conspiranóico, Di Carlo fala sério e sabe do que está falando: ele é professor de Bioengenharia da Universidade da Califória em Los Angeles (UCLA).

Para Di Carlo, uma alternativa seria usar forças físicas em pequena escala para lidar com dores intratáveis. Ele chama essa abordagem de “mecanocêutica” e parte de pesquisas que indicam que as proteínas são capazes de reagir a estímulos mecânicos. Não dá para apertar células e proteínas com as ferramentas de que dispomos, mas podemos fazer isso de modo indireto. Como? Com nanopartículas magnetizadas, oras.

Só que não adianta sair por aí colocando um pozinho metálico sobre a pele e pegado um ímã. Para funcionar, o magnetismo medicinal precisa de um gel magnetizado. Di Carlo e seus colegas da UCLA e da Universidade de Nova Gales do Sul (Austrália) criaram um gel assim a partir do ácido hialurônico. O nome parece feio e artificial, mas o ácido hialurônico ocorre naturalmente em tecidos neurais como no cérebro e na medula. Dentro do corpo, o hialurônico ajuda a sustentar fisicamente os neurônios e outras células nervosas. Do lado de fora, usamos o ácido hialurônico em cosméticos como cremes hidratantes.

A magnetização foi simples: bastou salpicar o gel biocompatível com minúsculas partículas magnéticas. No laboratório, esse gel magnético serviu de base para o crescimento de alguns neurônios específicos. Com os neurônios já formados, Di Carlo e sua equipe passaram a aplicar campos magnéticos sobre essas células que cresceram em um meio magnetizável.

Os resultados desses experimentos, publicados na Advanced Materials, são promissores no controle de sensações de dor. Ao serem puxadas pelo campo magnético, as nanopartículas pressionam a superfície do neurônio — especificamente, neurônios do gânglio da raiz dorsal (NGRD), uma estrutura de nervos na medula espinhal. Esse tipo de neurônio é o mais sensível às forças e pressões físicas, e também está envolvido na transmissão de impulsos de dor.

Essa pressão mecânica das nanopartículas, por sua vez, interferiu em algumas proteínas responsáveis pelo controle do fluxo de íons na membrana celular do NGRD. Pressionada dessa forma, a membrana passou a se abrir mais para os íons de cálcio. Com o estímulo contínuo, observam os cientistas, os neurônios se adaptaram e passaram a reduzir seus sinais de dor. Pode parecer contraituitivo que um aperto seja capaz de aliviar a dor, mas em escala celular é assim que funciona.

Di Carlo et. al. esperam que o gel magnético que descobriram possa ser combinado a outros biomateriais. Se isso for possível, essa técnica poderia ser usada em tratamentos de doenças musculares e cardíacas. Do ponto de vista científico, a técnica também poderia ser útil, já que facilitaria novas pesquisas sobre o impacto das forças físicas em escala celular.

No fim das contas, talvez Mesmer não estivesse inteiramente errado sobre o uso medicinal do magnetismo — ele só errou por uma questão de escala. Uma coisa que o médico alemão não poderia prever era o surgimento de nanopartículas magnéticas. Pode ser que no futuro o uso de ímãs e alguma pomada magnetizável sejam a cura que falta para as dores crônicas.

Às vezes o conhecimento científico dá voltas surpreendentes.

Referência

rb2_large_gray25Andy Tay et al. A 3D Magnetic Hyaluronic Acid Hydrogel for Magnetomechanical Neuromodulation of Primary Dorsal Root Ganglion Neurons [Um hidrogel magnético 3D de ácido hialurônico para neuromodulação magnetomecânica de neurônios primários do gânglio da raiz dorsal]. Advanced Materials vol. 30, n. 29, 19 de julho de 2018. DOI:10.1002/adma.201800927

[via MedicalXpress]

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