Um mergulho no Pacífico peruano, arquitetura e decoração dos dois lados do Atlântico, a dubiedade de confissões gravadas, um guia explicativo de atualidades e a volta de Bill Nye

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Pacificvm: el retorno al oceano [Pacífico: retorno ao oceano | 74 min | 2017] — Mais lembrado pelas ruínas de Machu Picchu e pelos Andes, o Peru também possui um litoral riquíssimo. Das escarpas áridas ao sul às águas coloridas do norte, o Pacífico se espraia pelo Peru numa variedade de ambientes. Produzido por Henry Mitrani e Evelyn Merino Reyna, com direção de Mariana Tschudi, este filme percorre o litoral peruano, que é apresentado por quatro cientistas: Yuri Hooker (biólogo marinho), Rodolfo Salas (paleontólogo), Jose Canziani (arquiteto especializado em urbanismo pré-hispânico) e Belén Alcorta (especialista em ecoturismo).

Em Ocucaje, deserto no sul do país, Salas nos apresenta uma área rica em fósseis de baleias e golfinhos dos últimos 40 milhões de anos. Não muito longe dali, Canziani nos revela as ruínas de templos como Bandurria e Cerro Azul, consagrados ao mar pelos Incas e seus antepassados. Com 20 anos de experiência nos mares peruanos, Hooker nos mostra que a aparente fertilidade do Pacífico esconde problemas como a sobrepesca da anchova-peruana e seus consequentes desequilíbrios ecológicos e sociais. Mar adentro, Alcorta nos leva para acompanhar o ressurgimento da população de baleias-jubarte e seus rituais reprodutivos. Para ela, o ecoturismo não é apenas uma fonte de renda ou diversão mas também um meio de conscientização ecológica da importância do mar e de seus seres. Apesar dos maus-tratos — e da inexistência de um parque nacional marinho — o Pacífico do Peru não deixa de nos surpreender com anêmonas gigantes, camarões fantasmagóricos, dilúvios de lagostins e espécies recém-descobertas — como um coral encontrado por Hooker. Embora falte alguma unidade narrativa, faça uma exploração muito superficial dos efeitos sociais do mar na população peruana e não tenha diálogo entre os cientistas que estrelam esse documentário, Pacificvm faz um bom trabalho de divulgação científica e é um excelente apelo à proteção da vida marinha do Peru.


Série documental

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The Confession Tapes [2017 | 1 temporada] — Quando um crime ocorre e há uma confissão por parte do acusado, condená-lo parece ser a coisa certa a fazer. Mas será que é mesmo? Essa produção da Netflix levanta dúvidas razoáveis sobre seis casos baseados em confissões registradas em vídeo ou áudio. Nos sete episódios (um dos casos foi dividido em duas partes), com 40-50 min. de duração, são apresentados o contexto do crime, as confissões, o julgamento e os motivos da controvérsia. As confissões em questão são geralmente obtidas sem muita investigação, tiradas do primeiro suspeito que aparece e que muitas vezes é um familiar da vítima que se encontra em estado de choque. Submetidas a longos interrogatórios — de até 10 horas e sem a presença de advogados — logo após o crime, pessoas muitas vezes inocentes acabam sendo manipuladas psicologicamente, inclusive com técnicas ilegais, e são induzidas a acreditar que fizeram algo que não cometeram. O resultado é uma confissão falsa que acaba ganhando validade legal – o que poderíamos chamar de falso positivo, se o sistema judiciário fosse científico. Com imagens de arquivo (que evidentemente não primam pela qualidade, já que são fitas cassete do fim dos anos 90 e começo dos anos 2000), trechos de diários, entrevistas com parentes e amigos dos acusados, advogados, promotores, jurados e especialistas em psicologia, Confession Tapes deixa claro que uma confissão gravada não deveria ser necessariamente uma prova irrefutável.


Reality Shows

 

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The Great Interior Design Challenge [2016 | 1 temporada] — Pintar paredes, rearranjar os móveis, mudar a iluminação e pendurar algum quadro. Redecorar um ambiente não parece algo assim tão difícil, mas será mesmo? Nesta produção da BBC 2, doze aspirantes a decoradores profissionais encaram o desafio de dar um tapa no visual de um cômodo — geralmente uma sala ou quarto, mas às vezes uma cozinha. O prazo e o orçamento são apertados: 3 dias e 1000 libras [cerca de R$ 5000]. Cada decorador tem direito a uma pequena equipe composta por um empreiteiro e um assistente. Apresentado por Tom Dyckhoff (historiador da arquitetura e crítico de design do Times), cada episódio traz uma mistura de competição e cultura. Em rodadas eliminatórias, grupos de 4 concorrentes vão sendo reduzidos até chegar às quartas-de-final, semifinal e final — quando os amadores passam a disputar o título com designers de interior profissionais. Entre uma reforma e outra, Dyckhoff conta a história dos estilos arquitetônicos do exterior dos imóveis escolhidos, de casas de enxaimel medievais a blocos de apartamento modernistas dos anos 1930. Igualmente diversos são os estilos de decoração exigidos por clientes de todas as idades: escandinavo, industrial, rural, anos 70, parisiense, renascença, Batman… Os competidores são julgados por Daniel Hopwood e Sophie Robinson segundo critérios como a apresentação do conceito ao cliente — feita com moodboards, uma espécie de pinterest numa prancheta —, o upcycling de um item aleatório em 24 horas e a adequação do que foi executado ao projeto e ao gosto do cliente. Divertido de maneira informativa e até relaxante, The Great Interior Design Challenge foi lançado em 2014, tem sido bem-sucedido e conta com 4 temporadas na TV britânica — o Netflix só nos disponibiliza uma (a terceira), o que é uma pena. O trailer a seguir é da primeira temporada, mas dá uma boa noção do programa em geral:


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Irmãos à Obra [2011 | 2 temporadas] — Do outro lado do Atlântico, o desafio de fazer reformas é encarado de maneira tipicamente americana. Nos episódios desta série (com cerca de 45 min.), os irmãos Drew e Jonathan Scott buscam convencer pessoas que procuram imóveis a comprar uma casa para reformar em vez de uma já pronta. Para fazer isso, o agente imobiliário Drew sempre recorre ao artifício de mostrar aos clientes — geralmente jovens casais, com ou sem filhos pequenos — uma casa dos sonhos, mas muito acima do orçamento disponível (daí o nome original, My Dream Home, superado de longe pelo trocadilho da versão brasileira). Consequentemente, a solução é comprar e reformar algo mais velho, mas que ainda pode ser transformado conforme os gostos dos compradores. Essa reforma é capitaneada por Jonathan, que quase sempre tem que lidar com gente avessa à ideia de reformar e botar a mão na massa para ajudar a cortar os gastos conforme surgem problemas como trocas de sistemas elétricos e hidráulicos ou novas demandas como uma clarabóia no topo da escadaria. Simples porém divertida, essa série (também conhecida como Property Brothers) é cheia de lugares-comuns como o conceito de “espaço aberto” (área única para sala de estar, jantar e cozinha), paredes abertas a marretadas (o que é facilitado pela estrutura das casas americanas, geralmente de madeira e gesso) e os “choques de realidade” para convencer os compradores a reformar. Embora possa ser classificado como reality, esse show produzido pelo Discovery Home & Health tem um quê de artificialidade — especialmente na aparência de Jonathan, sempre arrumado e limpo demais para um empreiteiro.


Informativos

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Explicando [Explained | 2018 | 1 temporada] — Embora tenha um grande e variado catálogo de documentários e séries documentais, falta ao Netflix um produto mais próximo do jornalismo. Co-produzido em colaboração com o site de notícias americano Vox, Explicando cobre essa lacuna de maneira satisfatória. Com cerca de 20 minutos, os episódios (lançados semanalmente, às quartas) situam-se entre uma grande reportagem e um documentário curto. Os temas abordados, ou melhor, explicados destacam-se pela atualidade: disparidades econômico-raciais, engenharia genética, debates sobre monogamia, K-Pop, criptomoedas, o mercado das dietas, bolsas de valores, campeonatos de games, etc. Explicativo sem ser chato ou didático demais — os mais velhos podem se lembrar dos livrinhos da coleção Primeiros Passos —, esse programa explora bem os recursos audiovisuais: ilustrações, animações, infográficos  e textos destacados facilitam o entendimento e enfatizam os pontos importantes. As informações levantadas pelos jornalistas do Vox são complementadas por entrevistas com especialistas e cientistas. É uma boa pedida para quem quer estudar atualidades sem ter que depender (apenas) de jornais diários e revistas semanais.


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Bill Nye Saves The World [3 temporadas | 2016-2018] — Veterano na divulgação científica pela TV americana, Bill Nye marcou a infância de muitas crianças nos anos 90 com sua gravata borboleta, seu jeito educadamente divertido e suas experiências. Com o passar dos anos, o público original do Science Guy cresceu e a divulgação científica perdeu espaço na mídia americana. Preocupado com a ascensão de pseudociências e fake news, Nye saiu da aposentadoria para, como sempre diz no final de cada episódio (cerca de 25 min.), “salvar o mundo”. Homeopatia, robôs, organismos geneticamente modificados, vacinas, videogames, exploração espacial privada, sexualidade humana e superpopulação são alguns dos temas tratados por Bill Nye na primeira temporada. Bem mais espaçoso que seu programa de TV clássico, seu cenário — que conta com um laboratório, uma mesa de reuniões e até plateia — lhe permite fazer demonstrações divertidas em larga escala, receber colegas de Netflix para números musicais e humorísticos e trocar ideias com três especialistas de cada assunto em questão. A partir da segunda temporada, alguns episódios ficam mais longos e Bill também passa a receber cientistas que o acompanham pelo Twitter. Sempre elegante e engravatado, esse ex-engenheiro aeronáutico continua cativante diante das câmeras. Embora o foco já não seja necessariamente o público infantil, Bill Nye Saves the World pode inspirar as crianças da geração Netflix a salvar o mundo — pena que a versão dublada não esteja à altura dessa missão.

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