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O problema visual mais comum do mundo é resultado da ativação simultânea de dezenas de genes. Saber disso pode nos levar a novas maneiras de tratar — ou até curar — a vista de quem usa óculos

Melhor, pior ou igual?” Quem não usa óculos não sabe como essa pergunta aparentemente simples pode gerar dilemas no consultório de um oftalmologista. Por mais que a medicina tenha avançado, a medição do grau de miopia ou hipermetropia continua sendo um fator bastante subjetivo. Essas duas deficiências visuais são as mais frequentes entre humanos e não têm tratamento simples. Ou você usa óculos, ou depende de lentes de contato ou, se tiver sorte, pode fazer uma cirurgia corretiva cara e delicada.

Se você conhece (ou é) alguém que usa óculos, já deve ter percebido que esse mal costuma ser hereditário: filho de quatro-olhos, quatro-olhinhos é. Embora alguns genes para miopia já tenham sido identificados, as inter-relações entre eles são desconhecidas. Ou melhor, eram desconhecidas, pois um estudo realizado por Andrei e Tatiana Tkatchenko, da Universidade Columbia (EUA), acaba de descrever a receita genética tanto da miopia quanto da hipermetropia.

Para os des-oclados, a miopia consiste num alongamento do globo ocular. Como fica mais comprido, o foco da imagem do olho míope situa-se antes da retina. Caso o olho seja mais curto do que deveria, temos hipermetropia, pois o foco acaba caindo (literalmente) para fora do globo ocular. Em ambas as condições, o resultado é uma imagem imprecisa e borrada. Quando colocamos certas lentes diante dos olhos míopes ou hipermétropes, corrigimos essa distorção óptica — por isso, os óculos ou lentes de contato também são chamados de lentes corretivas.

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Mas o que causa o alongamento ou encurtamento de um olho? Embora haja vários fatores externos, como iluminação inadequada e proximidade com telas ou páginas, a principal causa reside no DNA da pessoa. Para descobrir quais genes são ligados ou desligados em caso de miopia ou hipermetropia, Tkatchenko e sua equipe induziram ambas as condições em saguis.

Deixar esses macaquinhos míopes ou hipermétropes é bem simples: basta colocar uma lente capaz de alterar a localização do ponto focal do bichinho. Esse processo é chamado de desfocagem e força o olho a mudar seu formato para se adaptar à distorção criada pela lente. Dessa forma, os pesquisadores criaram cobaias com um olho míope ou hipermétrope (o outro olho foi mantido intacto, como controle).

Durante as cinco semanas de desfocagem, os cientistas da Columbia observaram a atividade dos genes nas retinas alteradas em comparação com as retinas inalteradas. O resultado dessas observações, publicado em artigo aberto na PLOS Biology em 01/10, revelou algumas surpresas.

Em primeiro lugar, como o olho se encolhe ou se alonga, era de se esperar que o mesmo conjunto de genes fosse ativado ou desativado conforme se tem miopia ou hipermetropia. No entanto, embora ambas as desfocagens tenham alterados importantes sistemas de sinalização celular, só um punhado de genes foi afetado pelos dois tipos de desfocagem. Isso quer dizer que, embora sejam parecidas, a miopia e a hipermetropia não compartilham do mesmo mecanismo genético. Também foram descobertas discrepâncias temporais: a sobreposição dos genes ativados após 10 dias não era a mesma observada após 5 semanas.

Embora tenha sido observada a ativação de dezenas de genes, os autores deste estudo destacam a importância de 29 genes em resposta à desfocagem. Esses quase 30 genes estão localizados na mesma região cromossômica que já foi associada por outras pesquisas com a miopia em humanos. Isso significa que os achados envolvendo os macacos podem ser facilmente extrapolados para seres humanos.

Para Tkatchenko et. al., a identificação destes mecanismos genéticos por trás da miopia/hipermetropia pode abrir as portas para a criação de opções de tratamento mais eficazes, como medicamentos ou terapias gênicas para controlar o comprimento do olho. Se essa possibilidade se confirmar nos próximos anos, será o fim do “melhor, igual ou pior?” na hora de consultar o oftalmologista.

Referência

rb2_large_gray25Tatiana V. Tkatchenko et al. Gene expression in response to optical defocus of opposite signs reveals bidirectional mechanism of visually guided eye growth [Expressão de genes em resposta à desfocagem óptica de sinais opostos revela mecanismo bidirecional de crescimento ocular visualmente induzido]. PLoS Biol 16(10): e2006021. DOI: 10.1371/journal.pbio.2006021

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