açúcar

Algumas pessoas sobreviveram aos surtos de Ebola dos últimos anos. Agora, um par de pesquisas está revelando como funcionam seus anticorpos e quais são os pontos fracos de um vírus considerado implacável.

Quem você imagina como um invasor mais perigoso para a sua casa: o marmanjo capaz de derrubar a porta com uma voadora ou a velhinha que surge de repente pedindo uma xícara de açúcar? Embora o marmanjo pareça mais assustador, sua estratégia não é muito eficaz — nem toda porta cede tão fácil a um chute e essa abordagem estrondosa chama a atenção dos moradores e vizinhos. Por outro lado, quem resistiria a uma inocente velhinha à procura de um pouco de açúcar? Pois a velhinha pode não ser tão inofensiva quanto parece — por trás de sua imagem inocente pode estar uma ladra bem-sucedida ou uma assassina em série.

Se formos comparar um vírus violento como o Ebola — que matou milhares de pessoas no surto mais recente, que aconteceu em 2015-16 na África Ocidental — com esses dois personagens, com qual ele seria mais parecido? Por mais contra-intuitivo que pareça, o Ebola está mais para a velhinha fria e bem disfarçada do que o marmanjo bruto. Saber disso pode nos ensinar como fechar a porta ao Ebola.

O motivo que torna o Ebola mais parecido com a velhinha do açúcar é seu mecanismo de entrada nas células humanas. O Ebola e seus parentes, os ebolavírus, apresentam uma estrutura conhecida como fusion loop ou laço de fusão. Essa é a estrutura que o vírus usa para entrar em contato com a célula humana, abri-la, entrar e começar o ciclo de infecção. Formado por um peptídio, o laço de fusão seria um bom alvo para o desenvolvimento de vacinas e outras terapias para o Ebola.

Duas pesquisas feitas por cientistas do Scripps Research Institute (um instituto de pesquisas biomédias sem fins lucrativos de San Diego, Califórnia) e publicadas no início de setembro mostram que o laço de fusão funciona com uma distração, mais ou menos como a xícara de açúcar da velhinha — e é justamente esse o alvo do ataque dos anticorpos capazes de bloquear o Ebola.

Ou melhor, os ebolavírus. A principal dificuldade no desenvolvimento de uma vacina anti-ebola é a variedade de seus vírus. São cinco as variantes: além do vírus Ebola em si existem o vírus do Sudão, o vírus Bundibugyo, do vírus da Floresta Taï e o vírus Reston. Cada variedade do vírus é como uma versão diferente da velhinha do açúcar, que poderia ser uma criança, um galã ou a gostosa da vizinhança em busca de sacarina.

Doce disfarce

É claro que os vírus não andam por aí com xícaras para pedir açúcar. O que eles fazem é usar uma máscara de açúcar. O laço de fusão dos ebolavírus está coberto com açúcares que ajudam a mascarar o invasor ao passar pelo sistema imune do corpo. Os anticorpos que atacam o Ebola são justamente aqueles capazes de tirar essa máscara açucarada, segundo as pesquisas coordenadas por Erica Ollman Saphire, do Scripps.

Um desses anticorpos é conhecido como ADI-15878 e foi descoberto no sangue de um sobrevivente do Ebola. Trata-se do único antivírus humano capaz de neutralizar todas as variedades de ebolavírus. Por meio de cristalografia de raios-X de alta definição, Saphire e seus colegas puderam observar como se dá a interação entre o ADI-15878 e o Ebola.

O que os cientistas viram é que o ADI-15878 liga-se diretamente a um dos açúcares do laço de fusão do Ebola, situado numa estrutura semelhante a um remo. Em seguida, conforme estudo publicado na revista mBio, parte do anticorpo se dobra e alcança uma cavidade que normalmente fica escondida atrás do disfarce açucarado. Esse disfarce e esse bolso escondido são os motivos do sucesso do vírus em seu processo de invasão celular. Assim, ambas as estruturas são altamente conservadas — se houver uma mutação ali, o vírus não teria muito sucesso na infecção e teria menos chances de se replicar. Por isso, esse é um ponto fraco do vírus, que pode ser explorado na criação de medidas preventivas (como vacinas) ou medicamentos capazes de bloquear a infecção por Ebola.

Complexo formado pelo vírus Ebola (cinza) e o anticorpo 6D6, formado por ratos infectados com duas variedades de ebolavírus. Em A, vista lateral; em B, vista superior. O anticorpo humano age de maneria parecida.

Complexo formado pelo vírus Ebola (cinza) e o anticorpo 6D6 (azul), formado por ratos infectados com duas variedades de ebolavírus. Em A, vista lateral; em B, vista superior. O anticorpo humano, ADI-15878, age de maneria parecida. [Ilustração de Milligan et. al., 2018]

Mas será que o ADI-15878 é apenas um anticorpo extraordinário de um sobrevivente humano muito sortudo? O segundo estudo da equipe de Saphire, publicado no Journal of Infectious Diseases, indica que não. Nessa segunda pesquisa, os cientistas demonstraram que um rato que foi infectado sequencialmente com vírus Ebola e vírus do Sudão também desenvolveu um anticorpo capaz de lidar com as variedades dos ebolavírus. Chamado de 6D6, o anticorpo observado no rato ataca o mesmo ponto fraco que o ADI-15878.

Para os pesquisadores, os dois trabalhos abrem caminho para uma vacina anti-Ebola, que poderia ser baseada em moléculas parecidas com a região do laço de fusão. Moléculas assim, chamadas de imunogênicas, servem para ensinar ao nosso sistema imunológico qual parte do vírus deve ser reconhecida e atacada — mais ou menos como mostrar que nem toda velhinha com xícara de açúcar é assim tão inofensiva.

Referências

rb2_large_gray25Brandyn R. West et al. Structural Basis of Pan-Ebolavirus Neutralization by a Human Antibody against a Conserved, yet Cryptic Epitope [Base estrutural de neutralização pan-ebolavírus por meio de anticorpo humano contra um epítopo conservado porém críptico]. mBio (2018). DOI:10.1128/mBio.01674-18

Jacob C Milligan et al. Structural Characterization of Pan-ebolavirus Antibody 6D6 Targeting the Fusion Peptide of the Surface Glycoprotein [Caracterização estrutural do anticorpo pan-ebolavírus 6D6, que alveja o peptídio de fusão da glicoproteína superficial]. The Journal of Infectious Diseases (2018). DOI:10.1093/infdis/jiy532

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