[Imagem via Curiosity]

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Ex-rival de Lênin no movimento bolchevique, a turbulenta vida de Alexander Bogdanov acabou enquanto ele buscava nada menos que a imortalidade via transfusão sanguínea.

Por Romeo Vitelli em Providentia. Tradução de Renato Pincelli.

Tudo isso [que relatamos na primeira parte] levou a um encontro fundamental entre Alexander Bogdanov e aquele que seria seu principal patrono, Joseph Stalin. Por volta de 1925, Stalin estava a ponto de se confirmar como sucessor de Lênin, mas ainda não tinha tanto poder quando se encontrou com Bogdanov. A morte de Lênin, ainda recente, e as doenças que afetavam muitos outros membros do Politburo levaram ao estabelecimento da “Suprema Comissão Médica”, encarregada de “proteger a saúde da velha guarda do partido”. Embora não haja registros das conversas entre Stalin e Bogdanov, a perspectiva de usar transfusões sanguíneas regulares para prolongar a vida de bolcheviques importantes (inclusive Stalin) estaria em pauta. Como o Politburo estava financiando várias iniciativas para melhorar as práticas médicas na recém-estabelecida União Soviética, fazia sentido ter um novo instituto para estudar transfusões de sangue. Assim, um instituto de transfusão, “o primeiro do mundo”, foi formado em 1926 sob os auspícios de Bogdanov.

Pesquisadores proeminentes foram chamados para chefiar a instituição, mas abriram mão da honraria por serem céticos sobre seu prospecto. Bogdanov era, pelo menos, nominalmente qualificado para chefiar um instituto médico (era formado em medicina, claro). Isso abriu um precedente ao qual ninguém deu importância antes do que Trofim Lysenko [1898-1976; agrônomo e biólogo ucraniano, que trocou a genética mendeliana por uma doutrina pseudocientífica, o Lysenkoísmo] fez alguns anos mais tarde. Como admitiria posteriormente, Bogdanov vinha fazendo experimentos secretos com transfusões há anos junto com um pequeno círculo de apoiadores. A partir de 1924, ele recebia até 10 transfusões de doadores mais jovens, gabando-se abertamente de como sua saúde havia melhorado após cada procedimento. Essa teimosia em experimentar dessa forma foi provavelmente motivada por preocupações com sua própria saúde, agravadas pela morte recente de Lênin, que era três anos mais novo que Bogdanov. A ameaça de morte iminente fez a promessa de rejuvenescimento ainda mais atraente para os seguidores de Bogdanov.

Em vez de tentar convencer seus colegas cientificamente, Bogdanov buscou chamar a atenção do público para suas experiências. Num artigo publicado no jornal Izvestia em 4 de abril de 1926, ele alegava que seu novo instituto era o primeiro do mundo dedicado exclusivamente às transfusões de sangue. Notando que a URSS ainda estava atrás de outros países na época, ele afirmava que seu “coletivismo fisiológico” ajudaria o país ao aumentar a “viabilidade de organismos individuais por meio de trocas sanguíneas regulares.” Isso surpreendeu muitos importantes cirurgiões soviéticos, que há anos vinham fazendo pesquisas originais sobre transfusão e não conheciam Alexander Bogdanov a não ser como ficcionista e colunista político. Até então, Bogdanov nunca havia publicado um artigo científico em nenhuma revista médica ou científica. Seus colegas, ofendidos (e com razão) por ser excluídos do ambicioso instituto mesmo tendo melhores qualificações, se perguntavam como alguém sem credenciais científicas podia chegar tão alto.

Em março de 1926, o governo soviético havia cedido a Bogdanov um grande edifício no centro de Moscou, aliás não muito longe do próprio Kremlin. Era um prédio impressionante, construído nos anos 1890, que havia sido a mansão de um comerciante próspero. Apesar de alguns atrasos, Bogdanov usou um generoso orçamento para reformar o local e contratar novos funcionários. Tão controvertida quanto sua nomeação para a chefia foram suas contratações, pois os funcionários que ele escolhia eram principalmente colegas entusiastas do seu círculo de transfusão sanguínea em vez de membros da comunidade médica moscovita com experiência no ramo. O status do instituto era tão especial que nem o Ministério da Saúde podia supervisionar sua operação: Bogdanov só respondia diretamente ao Comissário.

Os relatórios do instituto eram mantidos em confidencialidade, mas Bogdanov publicava matérias adoçadas sobre seus progressos no Izvestia, incluindo planos ambiciosos para usar transfusões de sangue como tratamento para as mais diversas enfermidades — do trauma à anemia, passando pela intoxicação do sangue. Ele ressaltava que a URSS estava muito atrás de outros países na disponibilidade de transfusões (o que era verdade) e que o novo procedimento ajudaria a combater a “exaustão soviética” que estava matando trabalhadores mais velhos.

Quando as reformas terminaram, o instituto de Bogdanov ainda recebeu uma clínica com dez leitos extras, mas muitas de suas promessas ainda precisavam se materializar. Luta pela Viabilidade, seu tratado de 1927, estava longe de ser o manual para transfusões sanguíneas definitivo que havia sido prometido aos médicos. Segundo o historiador da medicina Douglas Huestis, que fez a primeira tradução da monografia de Bogdanov para o inglês, o trabalho propunha um “coletivismo fisiológico” onde as transfusões não apenas prolongariam a vida mas até rejuvenesciam as pessoas. Pouco mais que uma versão remixada da obra anterior de Bogdanov sobre tectologia, esse manual pouco fez para ajudar a URSS a alcançar o Ocidente na medicina do sangue.

Enquanto isso, Alexander Bogdanov não era o único médico fazendo afirmações ousadas sobre uma solução para o problema do envelhecimento. Elie [ou Ilya] Metchnikoff [1845-1916] vinha fazendo a mesma coisa há vários anos. As hipóteses de Metchnickoff, que ligavam o envelhecimento à “toxidade” das bactérias intestinais eram igualmente grandiosas, mas suas credenciais científicas estavam muito acima das de Bogdanov — Metchnikoff havia sido agraciado com o Nobel de Medicina em 1908. Ao redor do mundo, outros pesquisadores também perseguiam o sonho do rejuvenescimento, de injeções hormonais a transplantes de órgãos. Nos anos 1920 e 1930, a pesquisa de Serge Voronoff [1866-1951; cirurgião franco-russo], que transplantava testículos de macacos em idosos humanos, parecia bem-sucedida (pelo menos segundo a entusiástica cobertura que recebeu dos jornais). Além de bancar a clínica de Bogdanov, o Ministério da Saúde soviético chegou a estabelecer um criadouro de primatas para garantir o suprimento de glândulas de macaco para transplantes.

Bogdanov, por sua vez, colocava-se contra os transplantes de glândulas de primatas, os iogurtes milagrosos de Metchnikoff e os outros tratamentos de rejuvenescimento que se ofereciam — que poderiam ser substituídos por transfusões de sangue regulares, algo mais seguro e eficaz. O sangue seria um “tecido universal”, que poderia ser “purificado” através de transfusões ainda que Bogdanov visse o envelhecimento como sendo parcialmente causado pelo “enfraquecimento” das glândulas sexuais. Como os mais novos teriam hormônios sexuais “demais” e os idosos, “de menos”, as transfusões de sangue seriam benéficas para ambos. Ele também sustentava que o procedimento poderia ser usado para “transferir” imunidade à doenças como câncer e tuberculose, promovendo trocas sanguíneas entre pacientes saudáveis e não-saudáveis. Além de promover suas noções radicais de coletivismo, o médico soviético também espalhava desinformação sobre a segurança das transfusões. Para ele, as transfusões entre homens e mulheres deveriam ser evitadas por causa dos hormônios incompatíveis.

As reações às teorias de Bogdanov não foram muito positivas. Pesquisadores médicos legítimos, com muito mais experiência em transfusão sanguínea, destacavam que as ideias dele eram baseadas em testes clínicos com amostras numericamente limitadas e sem nenhum método real para mensurar os supostos benefícios obtidos via transfusão. Em seu laboratório, Bogdanov simplesmente perguntava aos voluntários como eles se sentiam após cada transfusão, sem se importar em fazer exames médicos de verdade para medir a melhora.

As críticas a Bogdanov foram praticamente ignoradas pelo Politburo e seu instituto logo começou a publicar relatórios de progresso que descreviam orgulhosamente a realização de mais de uma centena de transfusões. Pra variar, tais relatórios eram bem rasos do ponto de vista estatístico, ainda que contivessem estudos de casos com relatos (bastante anedóticos) de recuperações de condições como queimaduras, anemia e infecções como tuberculose. Os relatórios eram voltados especialmente para os membros do Politburo, responsáveis pelo financiamento da pesquisa, e o público em geral. Bogdanov não fez nenhum esforço real para convencer seus colegas de medicina e nenhum dos funcionários do instituto chegou a participar de algum congresso de médicos. Nem a velha promessa de promover cursos de treinamento para os médicos chegou a se concretizar.

Apesar das controvérsias, o instituto cresceu a ponto de ganhar laboratórios de bioquímica e de pesquisas com animais. Bogdanov também recrutou Aleksandr Bogomoletz [1881-1946], um fisiopatologista [ucraniano] respeitado como autoridade em envelhecimento e endocrinologia, para trabalhar como supervisor. Bogomoletz, por sua vez, era um bolchevique de carteirinha (o que deve ter lhe garantido o cargo). Bogdanov também contratou mais especialistas para atender os pacientes na clínica do instituto. Depois que dois pacientes foram acidentalmente mortos por terem sido infectados por sífilis, ele também contratou um especialista em doenças venéreas.

Mesmo com tanto apoio oficial, Bogdanov ainda batia a cabeça com o Politburo, especialmente sobre suas decisões de contratação. O pessoal do Politburo insistia em nomear seus próprios apadrinhados políticos, levando Bogdanov a ameaçar se demitir em 1928. Embora tenha conseguido manter seu poder de decisão, o instituto estava sob pressão para apresentar resultados concretos e justificar os recursos gastos.

Assim, voltamos à desastrosa transfusão de 24 de março de 1928, quando Bogdanov escolheu um estudante universitário de 21 anos na Universidade de Moscou para realizar sua 12ª. transfusão mútua. Esse estudante tinha uma forma inativa de tuberculose, mas Bogdanov se considerava imune à doença. Em poucas horas, tanto o estudante quanto o médico desenvolveram reações adversas mesmo tendo o mesmo tipo sanguíneo (o fator Rh, ainda desconhecido, deveria ser incompatível). Enquanto o universitário se recuperou bem, Bogdanov faleceu depois de duas semanas [em 7 de abril], do que foi descrito pelos médicos como uma hemólise aguda resultando em falências renal e hepática.

Bogdanov foi homenageado como um herói da medicina, mas seus planos ambiciosos morreram com ele. O instituto (que passou a ser chamado de Instituto Estatal Científico Bogdanov de Transfusão Sanguínea) abandonou a noção de “coletivismo fisiológico” sob a direção de Bogomoletz, sucessor de Bogdanov. As transfusões mútuas foram interrompidas, dando lugar a um padrão mais semelhante ao seguido pelos países ocidentais na época. Quando o Instituto Bogdanov finalmente publicou um manual de transfusão sanguínea para os médicos, em 1930, as ideias de seu fundador não foram mencionadas. O único legado dele ficou sendo o nome do instituto.

Mesmo que o Instituto Bogdanov tenha ajudado a revolucionar a transfusão na URSS, padronizando-a nos anos 1930, Alexander Bogdanov continua a ser mais lembrado como autor de ficção científica e colunista político do que como cientista. No fim, ele teve sorte de morrer prematuramente: os expurgos de Stalin estavam para começar e é provável que ele não sobrevivesse, dada sua posição radical e sua detenção pelos bolcheviques [em 1923]. Alguns biógrafos até sugerem que Bogdanov fez sua transfusão final de modo deliberado, como suicídio, mas não há evidências nesse sentido.

Entretanto, as ideias políticas de Bogdanov sobreviveram e causaram um duradouro impacto na ciência soviética — especialmente na forma como a ciência seria praticada no período stalinista, quando a ideologia atropelou a ciência de verdade. Bogdanov ajudou a montar o palco para demagogos como Trofim Lysenko, cuja rejeição à genética mendeliana devastaria a biologia soviética e custaria inúmeras vidas. Do alto de seu idealismo, Bogdanov nunca pôde prever isso.

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