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Com a devida permissão de sua Autoridade, exerça grande Discriminação sobre as pessoas que venham a ser autorizadas a usar a Biblioteca. Pois o Tesouro do Lar da Literatura não pode ficar aberto às pilhagens da Multidão irracional do mesmo modo que um Jardim não pode ser deixado sem proteção à Mercê de um Bando de Animais Selvagens.

Interrogue cuidadosamente cada Usuário. Certifique-se de que ele seja uma Pessoa de boa Reputação, hábitos educados, Comportamento sóbrio e cortês. Qualquer mero Frívolo, uma pessoa que brincaria com os Livros ou que os procura para um Divertimento raso, deve ser Recusada sem qualquer demora.

Jared Bean, “curador ou bibliotecário da Sociedade de Antiquário de Connecticut” teria escrito essas palavras em 1773, num opúsculo intitulado Old Librarian’s Almanack. Publicado em 1907 pelos bibliotecários americanos Edmund Lester Pearson [1880-1937] e John Cotton Dana [1856-1929], o tal almanaque foi lido e resenhado por jornalistas do New York Sun, New York Times, Hartford Courant, Newburyport Daily News, Providence Sunday Journal e a revista Publisher’s Weekly. Uma revista especializada em biblioteconomia, a Library Association Record, perguntou “que bibliotecário não simpatizaria, às vezes, no fundo da alma e secretamente” com a irritação de Bean diante de usuários mal-educados.

Entre outras coisas, Bean considerava as baratas pragas piores do que os ratos, que podiam ser exterminados com facilidade. Recomendava evitar a entradas de menores de 20 anos na biblioteca e desconfiava tanto de políticos como de mulheres, além de astrólogos, necromancistas, vendedores, charlatães, embusteiros e do “homem que fala demais”. Enquanto todo mundo se surpreendia (ou se identificava) com um velho bibliotecário ranzinza, esnobe e mal-humorado, Pearson e Dana faziam aquilo que Jared Bean mais abominava — se divertiam à beça. Havia um bom motivo pra isso: os dois haviam inventado Jared Bean e escreveram o Old Librarian’s Almanack para espantar o tédio no trabalho. Quando publicaram o livro, não esperavam ser levados a sério.

No entanto, o Mr. Bean da biblioteca pareceu estereotipado demais para algumas pessoas e levantou desconfiança. Helen E. Heines, do Library Journal, foi a primeira a indicar que tudo não passara de um hoax. Só então a comunidade bibliotecária percebeu que havia caído numa pegadinha. A revista Public Libraries achou muito bem bolado: “Nós parabenizamos o autor do livro por ser tão esperto ao se projetar no passado para enganar todo mundo, até os mais esclarecidos. O livro merece ser adquirido e lido. Devemos agradecer a quem, com humor, imaginação e simpatia, criou para nós o bom e velho Jared e sua camaradagem e amor ardente aos livros.”

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