Tourette-Bang

Polêmicas, hipnose, histeria, um tiro e duas mortes: 1893 foi um ano e tanto para o Dr. Gilles de la Tourette

Por Romeo Vitelli, no Providentia. Tradução de Renato Pincelli.

Naquele ano, ele foi devastado não apenas pela morte de seu filho Jean, por meningite, mas também pela perda de seu mentor, pouco tempo depois: o célebre Jean-Martin Charcot não resistiu a uma doença pulmonar. Infelizmente, o pior estava por vir para o Dr. Tourette, neurologista reconhecido internacionalmente.

No dia 6 de dezembro uma moça, vestida de preto, apertou a campainha no edifício de apartamentos da Rue de l’Université, onde vivia o Dr. Tourette. O secretário dele informou-a de que ele não estava mas ela insistiu em esperar por ele. Depois de uns 15 minutos, Tourette apareceu, após retornar de uma visita a um paciente num hospital próximo. Imediatamente, ele foi confrontado pela moça em seu consultório. Rose Kamper era o nome dela, que havia sido uma de suas pacientes no Pitie-Salpêtrière Hospital, e ela exigia uma soma em dinheiro dele por ter lhe “arruinado a vida”. O médico reconheceu que ela estava emocionalmente perturbada e se ofereceu para readmiti-la no hospital e cuidar dela pessoalmente. Como ela não disse nada, Tourette levantou-se para sair do consultório — e foi aí que a mulher sacou um revólver e o alvejou na parte de trás do pescoço.

Após o disparo, Rose Kamper nem sequer tentou fugir e ficou sentada na sala à espera da polícia. Ela teria murmurado algo como “Eu sei que o que fiz é errado, mas era necessário e eu estou satisfeita. Pelo menos um deles [dos médicos que a trataram] pagou agora pelos outros.” Embora o ferimento não ameaçasse a vida da vítima, essa tentativa de assassinato de um dos médicos mais proeminentes de Paris certamente foi notícia nos jornais.

O ataque a Tourette rendeu uma grande cobertura midiática.

O ataque a Tourette rendeu uma grande cobertura midiática.

Mais tarde, a polícia descobriria que Rose não levava mais nada consigo, a não ser uma colagem com recortes de jornais sobre histeria (que na época, ainda era um termo médico recente). Os problemas mentais dela teriam começado alguns anos antes, e ela teria sido encaminhada aos cuidados do Dr. Tourette. Como disse mais tarde aos psiquiatras que a examinaram: “Dentro de mim há realmente duas pessoas distintas, uma física e uma intelectual. Meus pensamentos já não são mais só meus mais também de quem me possui. Durante o dia, meu intelecto me permite resistir às forças que me invadem sem meu conhecimento, mas à noite me sinto sobrecarregada.” Aparentemente, ela acreditava que Tourette e os outros médicos do Salpêtrière haviam causado sua doença mental através da hipnose.

O orientador de Tourette, Jean-Martin Charcot, havia sido pioneiro no uso médico da hipnose, especialmente no tratamento daquilo que ele chamava de “histeria”. Em sua clínica no Salpêtrière, Charcot fez pesquisas com as muitas pacientes que eram enviadas a ele e seu tratamento ganhou fama por toda a Europa. Ele viria a treinar uma geração de neurologistas e psiquiatras com suas técnicas (incluindo, entre outros, o próprio Tourette e Sigmund Freud). Mas ainda havia bastante controvérsia sobre o papel da hipnose. Consequentemente, o julgamento de Rose Kamper logo tornou-se um duelo de teóricos, que debatiam sobre a própria natureza da hipnose. Rose insistia que Tourette e os outros médicos do Salpêtrière haviam hipnotizado ela contra sua vontade. Seu advogado de defesa argumentava que, de alguma forma, a hipnose teria causado o disparo. No fim, após um julgamento sensacional, o juiz decidiu que a hipnose não tinha nada a ver com as ações de Rose Kamper e ela foi declarada insana.

Apesar da recuperação física após o tiro, o impacto emocional sobre o Dr. Tourette seria profundo. O testemunho de Rose Kamper e a pesada cobertura midiática do julgamento mancharam sua reputação profissional. Mesmo com sua fama como médico e suas inúmeras honrarias, sua condição começou a piorar, com episódios flutuantes de depressão, mania e confusão mental. Por volta de 1901, ele foi forçado a abandonar a medicina pois seu comportamento estava ficando cada vez mais bizarro. Alarmados com o agravamento da situação de Tourette e por suas ameaças de suicídio, seus parentes e amigos o convenceram a fazer uma viagem de férias para Lucerna, Suíça. Em 28 de maio de 1901, ele foi chamado para um hospital psiquiátrico perto de Lausanne, supostamente para ver um paciente. Ao chegar lá, Tourette foi internado à força e posto sob observação. Sua família fez arranjos para mantê-lo num hospital suíço por temer a publicidade que seu tratamento psiquiátrico teria na França.

Os registros que ainda existem indicam que Tourette ficou irado ao ser internado e foram necessários meios para prendê-lo e mantê-lo lá. Ele mandaria inúmeras cartas protestando contra seu tratamento a autoridades médicas e governamentais, mas jamais sairia dali. Com o tempo, ele ficou cada vez mais psicótico, com fala sem sentido e convulsões. O Dr. Tourette viria a falecer em 22 de maio de 1904, na companhia de sua esposa e seus filhos. Embora sua causa mortis não esteja clara, uma possibilidade é que tenha sido neurossífilis (que era bastante comum na época). Seja como for, a morte de Gilles de la Tourette, aos 46 anos, pôs fim a uma carreira notável na medicina. Mesmo com suas numerosas contribuições em pesquisas, ele ainda é mais lembrado hoje pelo transtorno de desenvolvimento que leva seu nome — a Síndrome de Tourette.

Ironicamente, Rose Kamper parece ter se saído melhor do que sua vítima. Depois de julgada, ela foi transferida entre diferentes hospitais psiquiátricos até acabar no Instituto dos Insanos em Villejuif, cidadezinha nos arredores de Paris. Após alguns anos, ela acabaria transferida de lá depois de atacar uma enfermeira com um garfo. Quando Rose fugiu do asilo, em 1910, a polícia lançou uma caçada para capturá-la por temer seu histórico violento. Ela viria a ser encontrada vivendo com seu nome de solteira, Lecoq, e trabalhando como costureira. Como parecia relativamente estável, os médicos lhe permitiram que vivesse em comunidade — ainda que, mais tarde, ela tenha sido internada várias vezes por curtos períodos. Rose Kamper viria a falacer em 1955, aos 92 anos.

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