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Que tipo de humor aparece na divulgação científica feita no YouTube? O que torna bem-sucedida uma abordagem bem-humorada?

Ao longo dos últimos dois anos, deixei indícios aqui e acolá neste blog de que estava fazendo um mestrado e desenvolvendo um projeto de pesquisa. Por vários motivos, nunca entrei em maiores detalhes: não me sentia inteiramente confiante de falar sobre isso, não gosto de me autopromover e achei que precisava proteger meu projeto de pesquisa antes de concluí-lo (em tempos de plágios descarados, essa desconfiança não é absurda). Agora que terminei, porém, posso fazer aqui o que costumo fazer com a pesquisa de outros acadêmicos: expor e explicar os resultados. Diferente do que faço com os outros, também posso falar alguma coisa sobre o processo de pesquisa, com seus altos e baixos.

Tudo começou no fim de 2016, quando o Prof. Francisco Rolfsen Belda — que foi meu orientador na graduação em Jornalismo e editou a versão impressa das Patentes Patéticas — me convidou a entrar para o Programa de Pós-Graduação em Mídia e Tecnologia (PPGMiT) da UNESP em Bauru. Claro que não se começa um mestrado por mero convite ou indicação, então fui fazer o processo seletivo. Na época, eu ainda não estava muito certo de que deveria fazer isso e até achei que não deveria ser aprovado. Seja como for, eu passei.

O que descobri ao longo do primeiro ano de mestrado, em 2017, é que as coisas são bem diferentes da graduação. Pode parecer óbvio, mas quando soube que haveria a necessidade de frequentar disciplinas, pensei que isso seria breve e não duraria mais que um semestre. Ledo engano: isso me tomou o primeiro ano inteiro. Como eu trabalho mas não moro em Bauru, a necessidade de se deslocar quinzenal ou mensalmente me causou alguns problemas. O maior de todos foi de ordem logística: ao voltar pra casa em maio daquele ano, meu carro quebrou. Não achei que fosse tão grave, mas depois de precisar ser guinchado, descobri que havia fundido o motor. O primeiro semestre nem havia terminado e eu já sentia vontade de desistir.

Fui aos trancos e barrancos no segundo, precisando me deslocar com caronas, ônibus e até táxi. A essa altura, eu comecei a delinear um projeto de pesquisa. Inspirado em Memória e Sociedade: Lembrança de Velhos, clássico da Ecléa Bosi, eu pretendia o compartilhamento de lembranças em redes sociais, em páginas como Humans of New York e São Paulo Invisível. No entanto, nunca cheguei a desenvolver os aspectos teóricos e metodológicos desse projeto. Assim, terminei o primeiro ano pensando que meus esforços haviam sido em vão.

No começo do ano seguinte, o Prof. Belda percebeu que eu não avançava e me propôs uma mudança completa de rumo. Em vez de memória e redes sociais, que tal pesquisar humor e divulgação científica? Eram dois assuntos com os quais eu tinha intimidade e prática, graças a este blog. Inicialmente, meu escopo era ambicioso: pesquisar o humor na divulgação científica feita em blogs e páginas do Facebook. Dessa vez, o Prof. Belda baixou minha bola e me encaminhou pra divulgação científica audiovisual que estava sendo feita no YouTube. Fiquei inseguro a princípio — nunca tive muita intimidade com audiovisual — mas entendi que seria melhor assim, que isso poderia ser algo mais produtivo e um pouco mais objetivo.

Os primeiros meses de trabalho foram ótimos: cheguei a desenvolver em poucos dias um capítulo com definições teóricas de diversos tipos de humor (linguístico, por superioridade, por incongruência) e seus recursos (ironia, sarcasmo, exagero, pantomima, estereótipo, digressão, etc). Esse capítulo inicial será publicado como artigo na edição de setembro deste ano da revista Fórum Linguístico.

Entretanto, a animação não durou muito: tive uma crise depressiva em março-abril, agravada pela crescente indisponibilidade do Prof. Belda. Sentindo-me perdido e atrasado, cheguei a pensar mais uma vez em desistir, mas o Belda conseguiu me demover dessa ideia. Quando as coisas começaram a melhorar pra mim, ele teve que se afastar da universidade por motivos particulares (demorei a entender seus motivos mas acabei aceitando). Perdi um mês à procura de um novo orientador, me atrasando ainda mais, mas fui salvo pelo Prof. Marcos “Tuca” Américo. Com ele, pude concluir a primeira etapa do projeto, definindo o corpus que eu estudaria e, mais tarde, a metodologia analítica que seria usada pra isso (os vídeos que selecionei para minha pesquisa podem ser vistos nesta playlist). Com isso, passei no exame de qualificação, onde recebia recomendações úteis, como aprofundar meu capítulo sobre divulgação científica e audiovisual com aspectos históricos e exemplos.

Feita a seleção do material, passei a fazer uma análise do seu conteúdo. Basicamente, fiz duas ou três leituras de cada vídeo. A primeira para entendê-los como um todo e as demais para fazer as devidas anotações sobre o que observei: enquadramentos, assuntos tratados, recursos de humor e audiovisual presentes. Também levei em conta fatores como as estatísticas de cada vídeo (duração, número de visualizações, de comentários e de likes/dislikes).

Então, o que eu achei? Antes de mais nada preciso dizer que meu foco foram vídeos de divulgação científica conceitual — aqueles que buscam divulgar noções teóricas ou pesquisas sobre determinado assunto. Existe também a abordagem empírica, onde se usam experimentos ou se mostram como as coisas são feitas, tipo o Manual do Mundo — mas não pude incluir esse tipo por limites de tempo e espaço.

Os vídeos analisados foram de dois canais: BláBláLogia (mais especificamente os das séries Curiosity e Top Models) e Ponto em Comum. São dois modelos de produção e apresentação distintos: Curiosity é apresentado pela dupla formada por Pirula e Carlos Ruas e tem uma abordagem mais anárquica; o Top Models foi apresentado e produzido unicamente pelo Chico Camargo, com bem menos recursos (de humor e de vídeo) e o Ponto em Comum do Davi Calazans fica num meio-termo. Os vídeos selecionados foram escolhidos segundo uma variedade de temas: da paleontologia à mitologia, passando por linguística e modelos econômicos.

Resumindo muito, descobri as seguintes coisas: os recursos de humor mais frequentes são os de ordem linguística (trocadilhos) e física (gestos, expressões faciais, risos). O humor linguístico é sempre intencional, mas não dá pra dizer que seja planejado com antecedência (especialmente no caso do Curiosity). Há até pequenas ocorrências acidentais que se tornam cômicas, como um ruído de tempestade, um problema com microfone ou um chapéu que cai. Alguns efeitos audiovisuais (imagem em preto-e-branco, sobreposição de imagens, efeitos sonoros) reforçam os efeitos de humor, mas nem sempre essa combinação é usada. Surpreendentemente, a animação geralmente aparece mais como recurso informativo do que humorístico.

O número de apresentadores também parece influenciar: trabalhar o humor em vídeo funciona melhor em duplas (ou, pelo menos, um apresentador mais um personagem). Em termos de audiência, não dá pra dizer que o uso de humor é garantia de sucesso, mas tende a ser um fator positivo (fatores adicionais seriam a popularidade ou a personalidade do divulgador). Por outro lado, humor demais atrapalha e pode afastar um público acostumado com uma abordagem mais contida. Se você faz ou pretende fazer vídeos de divulgação científica e quer usar humor pra isso, o ideal é que faça com moderação. Ter um mínimo de noções de roteirização, sabendo aplicar os diferentes recursos de humor e audiovisual também ajuda — ainda mais se você tiver uma equipe de apoio para ajudar com isso.

Evidentemente, esse é um resumo bastante sintético da minha dissertação. Vou defendê-la no dia 25/04, às 9h, em Bauru. Quem quiser e puder, poder ir me acompanhar e me conhecer pessoalmente. Após a defesa, vou atualizar este post com um link para o arquivo, divulgando-o para quem quiser ler.

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