Robert Fitzroy [1805-1865] em retrato do Old Royal Naval College, na Universidade de Greenwich.

Robert Fitzroy [1805-1865] em retrato do Old Royal Naval College, na Universidade de Greenwich.

Com medo de enlouquecer durante a viagem ao redor do mundo no Beagle, Robert Fitzroy escolheu Charles Darwin para lhe fazer companhia. Isso não impediu que ele encontrasse o fim trágico que tanto temia.

Por Romeo Vitelli no Providentia. Tradução [e informações complementares] de Renato Pincelli.

A publicação de A Origem das Espécies (1859), obra seminal de Charles Darwin, foi o ponto de virada no entendimento de como as espécies se formam e se modificam ao longo do tempo. É difícil saber se o próprio Darwin antecipou a tempestade de protestos que começou com a publicação do livro. Cientistas e teólogos logo ficaram entrincheirados numa batalha que durou décadas — e continua até hoje.

De todos os religiosos que reagiram à teoria de Darwin, talvez nenhum tenha sentido mais raiva do que Robert Fitzroy, ex-capitão do HMS Beagle. Nascido em 1805, Fitzroy era filho de uma das mais ilustres famílias da Inglaterra. Depois de uma infância idílica, ele entrou no Royal Naval College aos 12 anos e na Marinha no ano seguinte. Sua vida nunca seria a mesma depois de 1822, quando seu tio, o Visconde Castlereagh, cometeu suicídio. O estigma de ter um parente suicida fez Fitzroy ter medo da possibilidade de que a loucura que matou seu tio pudesse ser hereditária. Esse medo tornou-se ainda mais real quando ele tornou-se o capitão do HMS Beagle em 1828, logo após o suicídio de seu antecessor, Pringle Stokes.

Quando a segunda viagem do Beagle estava sendo planejada, em 1831, lhe pareceu bastante natural buscar um companheiro de viagem para ajudá-lo a manter-se são durante a expedição, que teria cinco anos de duração. Depois que outros candidatos rejeitaram sua oferta, Fitzroy ficou com um naturalista de 22 anos, de Cambridge, chamado Charles Darwin. A princípio, o capitão estava desconfiado da natureza de Darwin por causa do formato do nariz dele (Fitzroy acreditava muito na fisiognomia) mas foi convencido pelas credenciais de naturalista de Darwin. Cristão fervoroso, Fitzroy tinha a ideia de usar a viagem do Beagle para colher evidências que confirmassem o relato bíblico da criação.

Durante a viagem, Darwin e Fitzroy tornaram-se amigos — apesar do temperamento volátil de Fitzroy, que gerava frequentes discussões. O Beagle levou os dois para a América do Sul e Galápagos, dando a Darwin uma oportunidade sem precedentes de aprender (e se surpreender) com a diversidade de animais e fósseis que encontrava. [Na passagem pela Bahia, os dois se desentenderam por causa do tratamento dos escravos no Brasil e Darwin quase foi expulso da embarcação]. Quando voltaram à Inglaterra, em 1836, tanto Darwin quanto Fitzroy publicaram relatos que foram sucesso de público e crítica.

Nos anos seguintes, porém, os dois começaram a se afastar. Enquanto Darwin formulava sua célebre teoria, Fitzroy continuava a defender o relato bíblico da criação [e também se casou com a primeira mulher, com quem teve quatro filhos, dos quais três meninas; mais tarde, viúvo, ele se casaria novamente e teria mais uma filha]. Depois de uma carreira política e naval ilustre (e apesar de um desastroso período de cinco anos como Governador da Nova Zelândia), Fitzroy se aposentou da vida política em 1851. Logo em seguida, foi nomeado para a Royal Society (com apoio de Darwin) por seu importante trabalho sobre meteorologia. [Entre outras coisas, Fitzroy cunhou o termo forecast, inventou alguns tipos de barômetros usados nos portos britânicos e foi o primeiro a usar estações telegráficas para colher dados meteorológicos com rapidez e frequência. Seu grupo de pesquisa deu origem à Met Office, a agência meteorológica do Reino Unido]

Fitzroy em retrato fotográfico feito por volta de 1855. Nessa época ele já era célebre pelas pesquisas meteorológicas, mas sua saúde e condição financeira começavam a declinar.

Fitzroy em retrato fotográfico feito por volta de 1855. Nessa época ele já era célebre pelas pesquisas meteorológicas, mas sua saúde e condição financeira começavam a declinar.

A essa altura, a saúde de Fitzroy começou a falhar e o choque que ele sentiu quando soube que Darwin havia finalmente publicado seu tratado sobre evolução contribuiu para sua piora. Sentindo-se traído e culpado pelo papel que teve no aprofundamento das pesquisas de Darwin, ele não perdia uma oportunidade para se opor à evolução. Em 1860, quando o Bispo Samuel Willberforce atacou a teoria darwiniana no famoso debate da British Association com os simpatizantes de Darwin, Fitzroy apareceu [com uma imensa Bíblia nas mãos, dizem] implorando à audiência para “acreditar em Deus e não no homem”. Houve ainda menos simpatia quando ele falou na “dor agudíssima” que Darwin havia lhe causado e ele acabou sendo expulso do recinto.

O ex-capitão se aposentou definitivamente em 1863 e sua depressão tornou-se ainda mais grave. Pra piorar, enquanto precisava desesperadamente de dinheiro para sustentar a família, ele foi rejeitado em sua nomeação para um importante cargo naval. Na manhã de 30 de abril de 1865, Fitzroy levantou-se e foi ao banheiro, onde usou uma navalha para abrir sua garganta (do mesmo modo que seu tio fizera décadas antes). Só depois de sua morte foi descoberto que sua fortuna havia sido inteiramente gasta ao longo de sua carreira no serviço público [principalmente nas pesquisas sobre meteorologia]. Sua esposa e sua filha teriam caído na miséria se não fosse um fundo filantrópico criado por seus amigos (Darwin contribuiu com cem libras).

Robert Fitzroy deixou um legado científico e político substancial, com numerosas descobertas meteorológicas e geográficas. Mesmo assim, ele seria pouco mais do que uma nota de rodapé pelo papel não-intencional que teve no desenvolvimento da revolucionária teoria de Darwin. Não se sabe até que ponto essa contradição colaborou para a morte desse capitão carola.

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