A construção de uma central atômica leva tempo e exige muito dinheiro. Em alguns casos, falta uma coisa ou outra e a obra acaba sendo deixada de lado. Fatores políticos, sociais e técnicos também podem levar ao abortamento de um projeto de geração de energia a base de reatores nucleares. Aqui, apresentamos sete casos em que isso aconteceu.


7) Usina Nuclear de Montalto di Castro (Itália)

Central Eletronuclear de Montalto di Castro (esq.): embora a usina atômica tenha sido cancelada, suas instalações foram adaptadas para se tornar uma termelétrica (dir.)

Central Eletronuclear de Montalto di Castro (esq.): embora a usina atômica tenha sido cancelada, suas instalações foram adaptadas para se tornar uma termelétrica (dir.)

Politicamente, o maior impacto do acidente nuclear de Tchernóbil* foi sentido na Itália. O país vinha desenvolvendo o uso civil da energia atômica desde os anos 1960. Nos anos 1980, quatro usinas nucleares (UNs) estavam em operação: Caorso, Enrico Fermi, Garigliano e Latina. A quinta usina começou a ser construída em 1982, em Montalto di Castro com dois reatores do tipo BWR de 1000 MW cada. Em 1987, durante uma crise política, o governo italiano decidiu realizar um referendo sobre o uso de energia atômica no país após o acidente de Tchernóbil. O referendo nuclear italiano, o primeiro do país após a II Guerra, fez três perguntas aos eleitores: a primeira sobre a retirada de poderes do Comitê de Programação Econômica, órgão que podia decidir a localização das usinas passando por cima das autoridades locais; a segunda abolia as subvenções dadas aos territórios onde seriam construídas novas usina (não só as nucleares, mas também as de carvão) e a terceira barrava a ENEL (estatal de energia da Itália) de participar da construção e gerenciamento de projetos nucleares fora do país.

Cada item foi aprovado por 70 a 80% dos eleitores (o comparecimento às urnas foi elevado, com 65% de participação num país onde o voto não é obrigatório). Na prática, a votação deu fim à indústria nuclear italiana, tanto pública quanto privada. Consequentemente, Montalto di Castro foi fechada em 1988, às vésperas de ser ativada. Nos anos 1990, as demais usinas nucleares italianas foram sendo desativadas aos poucos. Em 2008, houve planos para a construção de novas UNs na Itália, mas eles foram engavetados depois da crise econômica e sobretudo após o acidente nuclear de Fukushima em 2011. Montalto di Castro não foi inteiramente abandonada: parte do complexo foi transformado na Usina Termelétrica Alessandro Volta, atualmente a maior do país.


6) Estação de Energia Atômica da Crimeia (Ucrânia)

Estação de Energia Atômica da Crimeia: até o guindaste foi deixado pra trás em 1989 e a obra caiu num verdadeiro limbo jurídico

Estação de Energia Atômica da Crimeia: até o guindaste foi deixado pra trás em 1989 e a obra caiu num verdadeiro limbo jurídico

Situada à beira do Lago Aqtas, na Crimeia, essa usina nuclear começou a ser construída pela então União Soviética em 1976. Como em outros empreendimentos do tipo naquele país, a usina deu origem a uma cidade para abrigar os trabalhadores envolvidos na obra: Shcholkine, inaugurada em 1978. Quando houve o desastre de Tchernóbil, essa UN ainda estava em construção. A obra foi inspecionada rigorosamente e os técnicos descobriram que o terreno era geologicamente instável. Assim, a construção foi interrompida em 1989, às vésperas do colapso da URSS.

Desde então, esse complexo caiu num limbo. Nos anos 1990, o local chegou a sediar, clandestinamente, um festival de música eletrônica (adequadamente apelidado de Reaktor) e esteve sob jurisdição do Ministério dos Combustíveis Ucranianos entre 1998 e 2004. Repassado ao governo regional da Crimeia em 2005, o local teria sido vendido para uma empresa não-revelada. Com a invasão da Crimeia pela Rússia em 2014, a situação tornou-se ainda mais nebulosa — mas tudo indica que não há planos para a conclusão das obras.


5) Usina Nuclear de Lemóniz (Espanha)

Lemóniz: construída em área separatista, teve as obras suspensas por bombas, sequestro e morte de um engenheiro.

Lemóniz: construída em área separatista, teve as obras suspensas por bombas, sequestro de um engenheiro e mortes de operários e uma ativista anti-nuclear.

Escolher o local para construir uma central atômica é uma etapa crucial — e não apenas por motivos técnicos. Foi justamente nisso que o governo espanhol errou feio. No fim dos anos 1970 a Espanha demonstrava interesse na construção de usina nucleares. Um dos locais escolhidos pra isso foi Lemóniz, na Província de Biscaia. Isso não seria problema do ponto de vista técnico, mas virou uma dor de cabeça sócio-política: Biscaia faz parte do País Basco, região separatista situada entre o norte da Espanha e o sul da França. Assim, desde o começo, essa U.N. enfrentou forte oposição da população local, do nascente movimento ambientalista e até do ETA, o braço armado do separatismo basco. Em dezembro de 1977, o ETA atacou um guarda da obra e, quatro meses mais tarde, conseguiu plantar uma bomba no canteiro de obras do futuro reator, matando dois operários e ferindo outros dois.

Em junho de 1979, mais mortes: a ativista anti-nuclear Gladys del Estal foi morta pela polícia durante uma manifestação e outra bomba foi detonada na obra pelo ETA, dessa vez na área das turbinas, matando outro operário. Apesar das mortes e dos danos materiais, a obra continuou. Assim, em janeiro de 1981, o ETA decidiu sequestrar o engenheiro-chefe de Lemoniz, José Maria Ryan. Mesmo com a oposição à obra, muita gente achou que o sequestro foi um exagero — sobretudo depois que Ryan foi morto, uma semana mais tarde.

O resultado foi a primeira grande manifestação anti-ETA e uma virada política. Em 1982 a obra foi suspensa por motivos de segurança e seria definitivamente abandonada dois anos mais tarde, quando os socialistas ganharam a eleição e anunciaram uma moratória nuclear. Embora estivesse quase pronta para funcionar àquela altura, Lemóniz acabou abandonada de uma vez por todas. Atualmente, a Espanha conta com seis estações atômicas ativas e uma desativada.


4) Usina Nuclear de Marble Hill (EUA)

Marble Hill em 2004: erros na execução da obra, problemas de financiamento e pressão popular levaram ao abandono do empreendimento, que vem sendo demolido desde 2008.

Marble Hill em 2004: erros na execução da obra, problemas de financiamento e pressão popular levaram ao abandono do empreendimento, que vem sendo demolido desde 2008.

Pioneiros no desenvolvimento da energia nuclear (tanto para fins bélicos quanto para geração de energia), era de se esperar que os EUA não tivessem dificuldade para completar uma usina atômica. Só que, às vezes, até no país mais rico do mundo falta dinheiro e uma obra pública fica inacabada. Foi o que aconteceu com a U. N. de Marble Hill, situada perto de Hanover, Indiana. A construção da unidade — que teria dois reatores de água pressurizada, com 1130 MW cada — foi iniciada em 1977 pela Public Service Company of Indiana (PSI), estatal de infra-estrutura daquele Estado.

Porém, depois de sete anos e 2,5 bilhões de dólares, a obra foi abandonada quando o primeiro reator estava quase pronto. Dois fatores pesaram no cancelamento de Marble Hill: o acidente nuclear de Three Mile Island (1979), que levantou desconfiança numa obra que já tinha oposição da comunidade local e, principalmente, a falta de recursos. Problemas na execução da obra também causaram atrasos e aumento dos custos. A pressão popular fez o governo estadual de Indiana reduzir verbas até a obra tornar-se insustentável. Assim, em 1984 a PSI anunciou a desistência da conclusão da usina e, no ano seguinte, leiloou equipamentos já adquiridos, levantando meros 8 milhões de dólares. O complexo foi comprado mais tarde por uma empresa de Michigan e, desde 2008, está sendo lentamente demolido.


3) Usina Nuclear de Stendal (Alemanha)

Stendal em 2007: a céu aberto, a estrutura que abrigaria o reator começa a enferrujar.

Stendal em 2007: a céu aberto, a estrutura que abrigaria o reator começa a enferrujar.

Parar uma obra por falta de dinheiro é trivial perto do que aconteceu com Stendal, onde o que acabou foi o país. Projetada para abrigar quatro reatores de 1000 MW cada, essa usina seria não apenas a maior da Alemanha Oriental, mas de todo o território germânico. A construção das unidades 1 e 2 começou em 1983, perto da cidade de Arneburg. As outras duas unidades estavam em planejamento quando o muro de Berlim caiu, em 1989.

A reunificação alemã tornou o plano política e economicamente inviável: apesar de aperfeiçoados por técnicos alemães, os reatores eram de origem soviética (e a própria URSS já estava cambaleando àquela altura). Assim, com 85% do reator 1 finalizado e 15% do reator 2, a obra foi interrompida bruscamente. A construção — que seria semelhante à U.N. de Temelin (Rep. Checa) — jamais foi retomada e suas torres de resfriamento foram demolidas com explosivos em 1994 e 1999. Atualmente, pouco resta da usina e seu terreno virou uma área industrial isolada.


2) Usina Nuclear de Juraguá (Cuba)

Juraguá: os soviéticos cederiam a tecnologia nuclear e os cubanos, materiais de construção e mão-de-obra. Só que a URSS acabou antes da obra, que ficou pela metade.

Juraguá: os soviéticos cederiam a tecnologia nuclear e os cubanos, materiais de construção e mão-de-obra. Só que a URSS acabou antes da obra, que ficou pela metade.

O colapso soviético também prejudicou um empreendimento nuclear do outro lado do Atlântico, mais especificamente no mar do Caribe. O interesse de Cuba pela energia nuclear antecede a Revolução: em 1956, o país assinou um acordo de cooperação sobre energia atômica com os EUA. Mesmo com a Revolução de 1959, o tratado permaneceu de pé e só foi anulado durante a Crise dos Mísseis em 1962. Cinco anos mais tarde, a União Soviética concordou em ceder um reator experimental de pesquisa para os cubanos. Em 1975, os dois países assinaram amplos tratados para o desenvolvimento de usinas nucleares na ilha. Havia planos para a construção de 12 reatores no leste e oeste da ilha, mas no fim o que saiu do papel foram só os dois reatores de 440 MW que começaram a ser construídos em Juraguá em 1983 e 1985.

Quando a obra fosse concluída, em meados dos anos 1990, cobriria 15% da demanda cubana de eletricidade e seria duplamente inédita: seria o primeiro reator soviético no hemisfério ocidental e o primeiro a ser implantado em uma zona tropical. O acordo era simples: a URSS entraria com os equipamentos nucleares e geradores e os cubanos forneceriam matéria-prima e mão-de-obra. Entretanto, com o colapso da URSS, a coisa desandou a partir dos anos 90, quando a primeira unidade estava aproximadamente 90% completa (37% do reator em si já instalado). A partir daí, a Rússia passou a fazer exigências financeiras para completar a obra, que estavam além das condições de Cuba.

Assim, em setembro de 1992, Fidel Castro anunciou a suspensão das obras, que jamais foram retomadas. Nos anos seguintes, o governo russo tentou fechar um novo acordo com Havana e alguma empresa especializada ocidental, mas o embargo americano inviabilizou as negociações — a usina sempre foi mal-vista pelos EUA, que temiam uma Tchernóbil Cubana. A última tentativa de retomar a obra foi feita por Vladimir Putin durante uma visita a Cuba em 2000, mas Castro recusou definitivamente, alegando que Cuba passaria a investir em energias alternativas.


1) Usina Nuclear de Tchernóbil (Ucrânia)

Situado a 1 quilômetro do resto da central, este local abrigaria os reatores 5 e 6 da Usina Nuclear de Tchernóbil e foi abandonado em 1989.

Situado a 1 quilômetro do resto da central, este local abrigaria os reatores 5 e 6 da Usina Nuclear de Tchernóbil e foi abandonado em 1989.

Pode parecer óbvio incluir Tchernóbil no fim desta lista, mas existem bons motivos. Além do mais evidente, o abandono em consequência do acidente nuclear que explodiu o reator 4 em 26 de abril de 1986, existem quatro razões para considerar essa central atômica inacabada: 5, 6, 7 e 8. Quando o acidente aconteceu, Tchernóbil estava em operação mas não inteiramente concluída. Havia planos para a construção de mais quatro reatores num terreno a um quilômetro da usina principal. O complexo começou a ser construído em 1970 e o primeiro reator foi ativado em 1977; o segundo, em 1978, o terceiro, em 1981 e o quarto, em 1983.

A construção dos reatores 5 e 6 estava bastante avançada, sendo que a quinta unidade tinha inauguração prevista para 7 de novembro de 1986. Após o desastre nuclear, as obras de expansão de Tchernóbil foram suspensas e seriam definitivamente abandonadas em abril de 1989, pouco antes do terceiro aniversário da tragédia. Embora os reatores 5 e 6 tenham ficado inacabados (os outros dois nem chegaram a sair do papel), os de número 1 e 3 ainda continuaram em operação por vários anos. O reator 2 foi desativado em 1991, após um incêndio numa turbina (sem vazamento de material nuclear).

Tchernóbil só seria desligada definitivamente entre 1995 e 2000, quando foram desativados os reatores que ainda funcionavam. Com exceção do número 4, contido num sarcófago e mais recentemente num arco de confinamento, os demais reatores de Tchernóbil vêm sendo desmantelados como qualquer outro: a desmontagem completa do reator 1 deve terminar entre 2020 e 2022, com os demais nos anos subsequentes.

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  • Nota de tradução: Embora a forma Chernobyl esteja consagrada como transcrição de Чорнобиль na maioria das línguas ocidentais, adotamos aqui a versão usada pela tradutora Sonia Branco em Vozes de Tchernóbil, de Svetlana Alexiévich (Cia das Letras, 2015). Além de diferente, consideramos Tchernóbil mais correta em relação à fonética do nome original.
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