Anthony William Hall jogou pro alto uma boa vida financeira e familiar para perseguir a miragem de ser Anthony I do Reino Unido. Milhares de fotos foram feitas durante sua campanha mirabolante, mas esta parece ser a única que sobreviveu.

Anthony William Hall jogou pro alto uma boa vida financeira e familiar para perseguir a miragem de ser Anthony I do Reino Unido. Milhares de fotos foram feitas durante sua campanha mirabolante, mas esta parece ser a única que sobreviveu.

Quem foi Anthony William Hall e por que ele passou a reclamar o trono britânico?

Por Romeo Vitelli, no Providentia. Tradução de Renato Pincelli.

Secretário particular do Rei George V [1865-1936], Sir Clive Wigram [1873-1960] estava acostumado a passar os dias separando a correspondência real. Mas um estranho envelope que chegou à sua mesa em 1º. de fevereiro de 1931 lhe chamou a atenção. A carta trazia não só o emblema da extinta Casa de Tudor mas tinha as palavras “Por Comando Real” gravadas em relevo dourado num canto do envelope. O que deixou Sir Clive mais intrigado, porém, foi o modo como a correspondência estava endereçada. Num curioso script medieval, ela vinha em nome de “George Frederick Albert Ernest Windsor, Esquire, Buckingham, Palace” — o que estava longe de ser o modo apropriado de se referir a qualquer monarca reinante.

Quando Sir Clive abriu o envelope, encontrou escrita em pergaminho fino uma mensagem bastante sucinta. O autor da missiva se apresentava como “Rei Anthony I”, declarava-se como o legítimo rei da Inglaterra e afirmava que o ocupante do trono seria um “usurpador, desprovido de Sangue Real”. Além de exigir a coroa, o “Rei Anthony” insistia que o Rei George renunciasse “sob pena de banimento” (possivelmente para a Austrália).

Assim começou uma campanha bizarra de um obscuro ex-inspetor policial chamado Anthony William Hall, que duraria décadas e causaria confusão no Palácio de Buckhingham, na Câmara dos Comuns, no Poder Judiciário e na própria família de Hall. Mas quem era Anthony William Hall e por que ele dizia ser o verdadeiro rei?

Segundo dados do censo, Anthony William Hall nasceu em Cheswick, Middlesex, em 1898, e teve uma infância completamente banal para um suposto rei. Tinha um irmão mais velho, Humphrey, que era considerado “retardado” (como se dizia na época). Por isso, Anthony teria sido visto como o primogênito até por seus irmãos e irmãs mais novos. Após servir na I Guerra Mundial, ele retornou à Inglaterra mas parecia bastante inquieto na fazenda da família. Forte e de ombros largos, Anthony parecia a fim de uma vida mais aventureira e, em 1923, pouco depois de se casar [com uma moça chamada Ethel], juntou-se à polícia de Shropshire. Ali, teve uma carreira tão fulminante e breve quanto a de um meteoro.

Três anos mais tarde, Anthony recebeu uma pequena herança e, embora os relatos variem quanto a seus motivos, abandonou a carreira policial de modo brusco para começar uma nova vida no Canadá, levando a esposa e a filha. Estabelecido em Quebec, ele fundou uma firma de exportação e não demorou a virar um empresário bem-sucedido, com dezenas de empregados e um casarão em Montreal. Mas as pessoas mais próximas dele logo notaram uma mudança de comportamento perturbadora, pois ele andava cada vez mais preocupado com sua árvore genealógica.

Além de passar horas trancafiado em seu estúdio e mergulhado em livros de História e Genealogia, Anthony gastou uma pequena fortuna ao mandar cartas frequentes com pedidos de informação sobre sua família para a Somerset House, em Londres (que, na época, era a sede do Cartório Geral de Nascimentos, Casamentos e Falecimentos).

Com base nessas pesquisas, Anthony concluiu que era um descendente direto do Rei Henry VIII [1491-1547] e sua segunda esposa, Ana Bolena [c. 1501-1536]. Esse suposto ancestral teria nascido antes do divórcio de Henry com sua primeira esposa, Catarina de Aragão [1485-1536]. Por ser ilegítimo, o direito ao trono dessa criança anônima foi passado para os filhos legítimos de Henry, incluindo sua irmã mais nova, Elizabeth (que viria a ser a Rainha Elizabeth I [1533-1603]). Para evitar problemas, a criança teria sido mandada para Sussex, sendo criada por um certo John Hall, velho membro da corte de Henry VIII. Isso explicaria a origem do sobrenome Hall. Dada sua ligação com os reis da Era Tudor, Anthony chegou à conclusão de que era o legítimo rei da Inglaterra.

Essa linha de pensamento pode parecer absurda, mas era o bastante para que Anthony Hall insistisse em ser chamado de “Sua Majestade” ou “Rei Anthony” por todos que o conheciam. Sua pobre esposa teve dificuldade de lidar com isso: convencida de que seu marido havia enlouquecido, Ethel fez as malas e voltou à Inglaterra com a filha.

O Rei Anthony pareceu não se importar de voltar a ser solteiro e aproveitou para retornar sozinho ao Reino Unido, onde poderia lançar sua campanha para derrubar o Rei George V, o “usurpador”. Este, por sua vez, pareceu achar graça dessa reivindicação e teria dito a Sir Clive: “Eu duvido que o Rei Anthony iria querer esse trabalho se o tivesse”.

Mas Anthony I não achou graça em ser desprezado e levaria sua reivindicação às últimas consequências, numa saga quixotesca cada vez mais mirabolante.

[continua na Parte II]

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