Uma série de investigação médica, um livro de Oliver Sacks e meu programa favorito para as tardes de sábado

Série Documental

Diagnóstico [2019 | 1 temporada | Netflix] — O que há em comum entre uma jovem estudante de enfermagem, um ex-mecânico de tanques de guerra, uma garotinha de seis anos e uma adolescente no fim do Ensino Médio? Cada um desses personagens sofre de algum mal misterioso ou intratável: crises regulares de dores que chegam a paralisar uma moça atlética, apagões de memória que debilitam a vida de um veterano da Guerra do Iraque, centenas de desmaios que atormentam mãe e filha e ânsias de vômito tão resistentes que impedem qualquer tipo de alimentação ou hidratação normal. Esses são apenas alguns dos casos investigados pela Dra. Lisa Sanders, nessa co-produção do Netflix e do New York Times (NYT).

Cada episódio (cerca de 45 min.) acompanha a jornada de Sanders na busca por um diagnóstico para condições raras, perturbadoras e muitas vezes desconhecidas até pela comunidade médica. Após a contextualização de cada caso, Sanders procura a família do paciente e propõe abrir a situação através de sua coluna no NYT com o objetivo de chegar ao diagnóstico  e, sempre que possível, ao tratamento  via crowdsourcing. Embora essa abordagem possa parecer temerária, os resultados costumam ser positivos. Mesmo que não haja cura ou tratamento  e em muitos casos não há mesmo  esse apelo à sabedoria popular e coletiva pode levar no mínimo à identificação correta da doença, ao reconhecimento de que, por mais raras que sejam tais condições, sempre há a experiência de outro paciente em algum lugar do mundo. Forma-se, assim, uma rede de apoio que vai além da família e da comunidade local e abre portas para entrar em contato com médicos mais capacitados e cientistas interessados em fazer pesquisas e exames mais específicos ou até oferecer um tratamento. Interessante dos pontos de vista jornalístico, médico e humano, Diagnóstico é um bom exemplo de como um trabalho de divulgação científica bem-feito é capaz de salvar vidas. Trailer:


Livro

O Rio da Consciência [Oliver Sacks | São Paulo: Cia. das Letras, 2017 | 170 pp.] — Livro póstumo de Sacks, este pequeno volume é uma coletânea de artigos organizados pelo autor pouco antes de sua morte. Quem já conhece a escrita do neurocientista britânico-americano pode ficar surpreso com o estilo do material reunido. Os textos são mais curtos, mais contidos em suas digressões e notas de rodapé (felizmente esta edição não tem notas de fim, jogadas lá no fim do volume, o que sempre me desagrada). Ao mesmo tempo, a prosa de Sacks continua a mesma mistura deliciosa de recordações, narrativa histórica e rigor científico.

Os 10 artigos tratam de uma ampla variedade de assuntos, como o lado botânico de Darwin, o fascínio humano pela velocidade, as fraquezas da memória, os bastidores da mente criativa e os zigue-zagues das descobertas científicas. Este livro pode cumprir um papel duplo, dependendo da relação do leitor com Sacks. Para os que não o conhecem, é uma boa porta de entrada, um material de degustação: alguns dos casos e exemplos mencionados nos artigos são aprofundados nos demais livros do autor, como os clássicos Enxaqueca, Tempo de Despertar e O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu. Já para os que leram pelo menos um livro de Sacks, este serve como um reencontro, uma breve ressurreição — breve mesmo pois essa leitura pode ser concluída em poucas horas ou no máximo em poucos dias.


Humor

Homens com Missão [아는 형님 (Aneun Hyeongnim) | Knowing Bros ou Ask Us Anything | 2015- | 4 temporadas] — O que esperar de uma turma formada por um jogador de basquete aposentado (Seo Jang-hoon), um ex-campeão do ssireum, espécie de sumô coreano (Kang Ho-dong), três ídolos de diferentes gerações do K-Pop (Lee Sang-min, Kim Hee-chul e Min Kyung-hoon) e uma dupla de humoristas com personas opostas (Kim Yeong-cheol, Lee Soo-geum)? Reunidos numa sala de aula com o clima informal de alunos do Ensino Médio, essas figuras recebem toda semana algumas celebridades da TV, do cinema e principalmente do pop sul-coreano.

Como uma aula (mas sem professor), o programa é dividido em dois períodos: no primeiro, os convidados aparecem como alunos transferidos e se apresentam com um jogo de perguntas e respostas sobre a vida e a carreira. O segundo segmento é variável e pode ser um esquete de improvisação cômica, uma paródia de eventos culturais da Coreia do Sul ou uma gincana com jogos físicos e/ou mentais. Nesse caso, pode haver alguma dificuldade em entender o humor que envolve jogos de palavras e referências a filmes e séries sul-coreanos — ainda assim, a legenda faz um trabalho razoável para nos dar uma noção da graça envolvida.

Mais divertidas são as piadas recorrentes, como as grosserias do Ho-dong em sua carreira como apresentador de TV; a altura, a riqueza e o divórcio do Jang-hoon; as dívidas e apostas de Sang-min e Soo-geun; os momentos trash do Kyung-hoon; a falta de graça do Yeong-cheol; as tiradas ferinas e o conhecimento enciclopédico de pop do Hee-chul.

Como o nome indica (o título original significa apenas “Irmão que Sabe”), não há meninas na turma mas são frequentes as participações de atrizes e girl groups. Além disso, o elenco costuma interpretar papéis femininos nos esquetes, no que o andrógino Hee-chul costuma se sair bem. Também conhecido como Ask us Anything, o programa é o meu preferido das tardes de sábado no Netflix (na Coreia costuma ser exibido nas noites de sábado) mas reconheço alguns pontos fracos.

A começar pelo título em português, que só faz sentido para os primeiríssimos episódios, cujo conceito envolvia desafios como quem passa mais tempo sem ir ao banheiro num tour por Seul (um formato tão fraco que quase levou o programa ao fim). Se pudesse sugerir uma versão brasileira, o nome poderia ser “Manos Sabichões”. Há certa poluição visual na tela, que traz bastante texto, algo frequente em programas de TV asiáticos mas isso também tem um ponto positivo: os efeitos visuais são bastante divertidos. Outro aspecto que pode ser frustrante em alguns casos é a duração variável (de de 60 a 90 minutos no Netflix), que nem sempre faz jus ao programa original (com cerca de 2h de duração). Assim, não é incomum que os episódios terminem de modo abrupto.

Por fim, embora o conceito de escolinha como programa de humor nos pareça antiquado (alô professor Raimundo!), Knowing Bros tem muitos momentos divertidos graças à variedade de convidados, à linguagem informal (que subverte a hierarquia baseada em idade da cultura coreana) e a uma combinação aparentemente inesgotável de humor físico, improvisos e a excelente química do elenco. Mesmo quem não se interessa pelo K-Pop ou a cultura coreana em geral é capaz de dar boas gargalhadas com essa turma tão bagunceira.

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