Quando exposta a um solo contaminado por cobre, a pitangueira acumula o metal em suas folhas, funcionando como um sensor natural de poluição. [Imagem: Uliano Edi/Wkimimedia Commons]

As árvores falam, mas não é preciso ser um poeta feito Drummond para saber ouvi-las — basta observá-las bem de perto.

Numa crônica clássica, Carlos Drummond de Andrade bate um papo com uma amendoeira — sua “árvore-da-guarda” — e percebe que, como ela, está a outonear. Como as folhas amarelecidas e decíduas das árvores, explica a amendoeira, também os cabelos do poeta mudam de cor e caem, “mas há alguma coisa de gracioso em tudo isso: parábolas, ritmos, tons suaves…”

Sim, é verdade, as árvores falam. E não só pela queda outonal de suas folhas, pelo desabrochar vistoso de suas flores ou pela queda violenta de um fruto sobre o transeunte desavisado. As mensagens arbóreas nem sempre são tão poéticas e geralmente é preciso chegar bem perto delas para ouvir o que elas têm a dizer.

Como acontece com qualquer ser vivo, as árvores também dominam a linguagem da química. Dessa forma, podem atuar como indicadores da contaminação ambiental causada por atividades humanas, como a mineração. Na Mata Atlântica, por exemplo, pesquisadores do Instituto de Botânica de São Paulo (IBSP) “ouviram” árvores nativas como a pitangueira (Eugenia uniflora) e aroeira (Schinus terebinthifolius) e descobriram que elas são capazes de acumular o excesso de cobre que fica no solo em caso de poluição.

Embora seja um nutriente útil para as plantas, o cobre, como qualquer coisa em excesso, torna-se tóxico. Como explica Armando Reis Tavares à Agência Bori, a contaminação do solo por cobre pode vir tanto da mineração quanto de atividades exercidas em áreas urbanas, como as emissões de indústrias e o tráfego de veículos.

Mas como se ouve uma árvore? E como ela nos conta sobre coisas como o cobre? Como qualquer nutriente à disposição, o cobre vai sendo acumulado pelo vegetal em diferentes partes de sua estrutura. Para descobrir onde e como se dá esse acúmulo, os cientistas do IBSP transplantaram amostras de pitangueiras e aroeiras para vasos. Levadas ao laboratório, essas amostras foram submetidas a solos contaminados com diferentes concentrações de cobre. Depois do período de absorção, foi a vez de escutá-las através da análise do teor de cobre em cada parte das árvores.

Árvores diferentes têm estruturas diferentes e, de certo modo, falam línguas diferentes. No caso da aroeira, o acúmulo de metal ocorreu apenas nas raízes. Na pitangueira, o contaminante metálico se espalhou tanto pela raiz quanto pelas folhas.

Como é mais fácil colher as folhas do pé de pitanga do que as raízes de aroeira, o estudo publicado na revista Floresta e Ambiente recomenda usar a pitangueira como meio de biomonitoramento da contaminação do solo por cobre. Para Tavares, a pitangueira seria “uma espécie de sensor natural da presença excessiva de um metal pesado na natureza. Isso pode levar a intervenções para descontaminação do solo”.

Poetica ou cientificamente, as árvores falam. E saber escutá-las pode nos ajudar a ter um ambiente mais saudável e agradável, tanto para elas quanto para nós.

Referência

rb2_large_gray25Zabotto AR. et. al. Copper Accumulation and Distribution in Two Arboreal Species of the Atlantic Forest [Acumulação e Distribuição de Cobre em Duas Espécies Arbóreas da Mata Atlântica]. Floresta e Ambiente 2020; 27(1): e20190027 http://dx.doi.org/10.1590/2179-8087.002719

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