Patentes Patéticas (nº. 54)

assento sedativo

Há invenções (e invetores) ganham fama por serem tão geniais que parecem à frente de seu tempo. Também há casos que, apesar do avanço e da genialidade, continuam largamente ignorados. Jack Jensen, por exemplo. Quem já ouviu falar de seu Airplane Hijacking Injector [ou Injetor de Sequestrador de Avião]? Não se engane pela denominação ambígua. Trata-se de um engenhoso Continue reading “Patentes Patéticas (nº. 54)” »

Habemus Elvis!

Quantas vezes você já ouviu falar que “Elvis não morreu”? Se você ainda não se convenceu, dê uma olhada nessa relíquia romana leiloada em 2008. Parece até que o Rei do Rock não só não morreu como viajou no tempo e fez alguma turnê de rockica musica pela Roma Antiga. Ou, então, que ele já estava bem vivo — e de topete em pé — em plena Antiguidade.

De qualquer modo, a escultura foi esculpida no século II, uns 1800 anos antes do nascimento de Elvis Presley. A estátua que tanto se parece com ele era na verdade um acroterion, um ornamento arquitetônico frequentemente usuado para decorar os cantos de sarcófagos, tumbas ou câmaras funerárias. O fato de vermos Elvis onde os romanos talvez vissem algo assustador é mais um caso de pareidolia.

>Silogismos de Carroll

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Os silogismos a seguir são parte de um livro-texto de Lewis Carroll sobre lógica. Como Carroll era um cara à frente de seu tempo, eles mais se parecem com peças de arte surrealista do que exemplos sérios de lógica.

1. Bebês são ilógicos;
2. Quem é desprezado não pode controlar um crocodilo;
3. Pessoas ilógicas são desprezadas.
Portanto, Bebês não podem controlar crocodilos.

Na verdade, o que Carroll queria mesmo era demonstrar o ponto fraco da lógica aristotélica: dadas quaisquer premissas, a conclusão será igualmente aleatória.

1. Nenhum poema interessante é impopular entre pessoas de bom-gosto;
2. Nenhuma poesia moderna é livre de afetações;
3. Todos os seus poemas são sobre bolhas de sabão;
4. Nenhuma poesia afetada é popular entre pessoas de bom-gosto;
5. Apenas um poema moderno poderia tratar de bolhas de sabão.
Portanto, todos os seus poemas são desinteressantes.

>Fono-Gato

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Não é de hoje que gatos são geeks. Muito antes dos computadores aparecerem, os bichanos já dormiam em gadgets que, na época, eram sofisticados.

Esse gato gosta mesmo é de um gramofone. Ele adora entrar na trompa para dormir e não sai nem mesmo quando um disco é posto para tocar! — Strand, Agosto de 1906

>Elefante Branco

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Já que a França do Ancien Regime era uma verdadeira selva de estravagâncias, por que não decorá-la com um elefante?
Esse projeto de uma casa paquidérmica foi apresentado para decorar os Champs-Élysées em 1758. Bizarrices à parte, era bastante moderno para a época: além de uma grande escada em espiral, havia um sistema de condicionamento de ar. A drenagem, obviamente, era feita pela tromba.
Em meio à Guerra dos Sete Anos — que arruinaria o Império Francês —, Luís XV (1710-1774) teve que vetar o projeto.

>Um burro no tribunal

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Richard Martin (1754-1834) foi um parlamentar irlandês que tornou-se famoso não só por ser um protestante filho de católicos que defendia o fim da segregação religiosa na Irlanda e por seus discursos irreverentes, mas também (e principalmente) por sua defesa dos animais no começo do século XIX. 

Em 1822, ele levou um burro ao tribunal para mostrar as marcas de espancamento do animal como evidência. Com isso, ele ganhou o caso, que foi a primeira condenação do mundo por tratamento cruel de um animal. No mesmo ano, Martin propôs um projeto de lei na Câmara dos Comuns, que foi aprovado e se tornou a Ill Treatment of Cattle Bill [Lei dos Maus Tratos do Gado].

>O Segredo de Fermat

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Certa vez, Marsenne escreveu para Fermat, perguntando se 100.895.598.169 era um número primo ou não.
Fermat respondeu imediatamente, dizendo que aquele número era primo, pois é o produto de dois primos: 898.423 e 112.303.
Até hoje ninguém sabe como ele sabia disso ou como descobriu. Será que Fermat levou para o túmulo uma poderosa técnica de fatoração (ou seria fermatação?) ainda desconhecida?

>Declaração de Independência FAIL

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O rascunho original da Declaração de Independência dos Estados Unidos poderia ter abolido a escravidão logo após o 4 de julho. Thomas Jefferson denunciava o rei da Inglaterra pelo tráfico de escravos:
Ele [o rei George III] moveu uma guerra contra a própria natureza humana, violando-a em seus mais sagrados direitos de vida & liberdade de pessoas de um povo distante, que jamais o ofenderam, mas que são cativadas e carregadas à escravidão em outro hemisfério, ou condenadas à morte miserável em seu transporte.
Antes de aprovar a Declaração e transformar treze colônias em Estados Unidos, o Congresso Continental resolveu vetar a passagem anti-escravista. O assunto só foi resolvido setenta anos depois e da pior maneira possível: com uma Guerra Civil que quase dissolveu a União.

>Montaigne e a força do hábito

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Roubemos espaço aqui para uma história. Um fidalgo francês sempre se assoava com a mão — coisa muito avessa ao nosso costume. Acerca disso, defendendo sua atitude (e era famoso pelos ditos espirituosos), ele perguntou-me que privilégio tinha aquela excreção para que lhe fôssemos preparando um belo lenço delicado a fim de recebê-la e depois, o que é pior, empacotá-la [no lenço] e guardá-la cuidadosamente em nós; que isso devia causar mais horror e náusea do que vê-la ser lançada fora de qualquer maneira, como fazemos com as outras excreções. Achei que ele não falava totalmente sem razão e que o costume me eliminara a percepção dessa extravagância, que no entanto consideramos tão horrível quando é narrada a propósito de um outro país.
— Michel de Montaigne, Do costume e de não mudar facilmente uma lei aceita. in: Ensaios, Livro I (1595)
Estou lendo, ainda que lentamente, Montaigne. À parte sua inevitável linguagem quinhentista e as diversas citações latinas e até gregas, achei Montaigne muito parecido com um blogueiro. Seus escritos foram originalmente criados apenas como uma espécie de diário, de auto-retrato de seu pensamento.
Com uma ampla gama de temas — do hábito de assoar o nariz aos índios da América e à educação das crianças — exemplificados por experiências do autor ou de conhecidos seus, os Ensaios de Michel de Montaigne (1533-1592) foram inovadores justamente por sua diversidade e sua brevidade (em relação aos outros textos filosóficos da época). 
Os ensaios começaram a ser escritos em 1572, mas foram publicados pela primeira vez em dois volumes em 1580. Na segunda edição, em 1588, foram feitos inúmeros acréscimos e saiu um terceiro volume. A terceira edição, de 1595, já póstuma foi baseada em rascunhos manuscritos feitos por Montaigne em um exemplar de 1588.
Quanto à filosofia, Montaigne não cria uma escola de pensamento pois não é um moralista ou um doutrinador. Como se nota em seus Ensaios, ele preocupa-se mais em levantar perguntas do que dar respostas ou apresentar as coisas como certas ou erradas. Embora seja cristão, mantém-se cético diante de relatos de milagres, de misticismos e crendices. Igualmente, mostra-se bastante indiferente às divisões religiosas de sua época. Assim, ele pode ser considerado o pai do livre-pensamento moderno.

>A quem interessar possa…

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Ao visitar a França como embaixador das Treze Colônias em 1777, Benjamin Franklin recebia centenas de pedidos de franceses entusiasmados com a Revolução Americana e loucos para lutar pelo exército de Washington. Para não perder tempo respondendo todas as cartas, Franklin fez o que muitas empresas fazem hoje: uma resposta-padrão cheia de enrolação. Mais do que isso, era uma “carta de recomendação de uma pessoa que você não conhece.”
Sir — O portador desta, que está indo para a América, pressiona-me por uma carta de recomendação, mesmo que eu não saiba nada sobre ele, nem mesmo seu nome. Isso pode parecer extraordinário, mas eu garanto-lhe que isto não é incomum por aqui. Aliás, às vezes uma pessoa desconhecida traz outra pessoa igualmente desconhecida para recomendar e há vezes em que se recomendam mutuamente! Quanto a este cavalheiro, devo recomendá-lo pelo seu caráter e mérito, os quais ele certamente conhece mais do que eu posso. Eu recomendo-o, entretanto, para aquelas civilidades que todo estrangeiro, do qual não se conhece dano, tem direito a, e peço-lhe que você dê a ele todos os bons ofícios e mostre a ele todo o favor que, ao conhecê-lo, você verá que ele merece. Com a honra de ser, &c.
Evidentemente, é possível que muito francesinho tenha recebido isso achando que fosse um documento legítimo e sério. Como muito cliente que faz alguma reclamação hoje em dia.

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