Patentes Patéticas (nº. 87)

http://www.google.com/patents/US1926420

Que mico!

Hoje em dia não é difícil encontrar por aí gente que humaniza animais, a ponto de dar aos bichos tratamentos iguais ou até melhores do que os dispensados às pessoas. Geralmente são madames riquíssimas e seus cãezinhos de bolsa ou solitários de ambos os sexos cercados de gatos. Ou então aquele tio de meia-idade e seu papagaio. Por mais loucos que possam parecer, eles nunca tiveram a ideia de patentear suas fantasias envolvendo animais.

Mas como a loucura humana não conhece limites, alguém já fez isso: Rennie Renfro patenteou sua ideia de combinar cães e macacos num simulacro de jóquei. São os Combined racing greyhound harness and rider supporting means [Meios combinados de suporte e arreios para cavaleiros de galgos de corrida]: Continue lendo…

Patentes Patéticas (nº. 84)

http://www.google.com/patents/US214422

Mesmo hoje, botar uma vela sobre a cabeça de um animal parece uma péssima ideia. Mas em 1879, Lorenzo Macauley considerou seu Improvement in Road-Lanterns [aperfeiçoamento de lanternas estradeiras] tão brilhante que o patenteou. Segundo o inventor,

Minha invenção consiste de uma lanterna combinada com uma cobertura, sendo a cobertura construída e provida de cintas que são adaptadas para prendê-la na cabeça de um cavalo ou outra besta de tração ou carga, como descrito a seguir.

Assim poderia ser resumida a única página de texto da patente nº. 214.422 [pdf], emitida em 15 de abril de 1879. Natural da pequena cidade de Augusta, no interior do Estado de Winsconsin, Lorenzo G. Macauley considera que

Uma lanterna assim anexada à cabeça do cavalo permite tanto ao cavalo quanto ao condutor ver a condição da pista e objetos nela muito mais claramente e a maiores distâncias do que quando a lanterna é posta na carruagem.

É um bom argumento, mas Mr. Macauley parece ter desconsiderado que a cabeça de um cavalo é uma base móvel e, portanto, inconstante e consequentemente insegura. O condutor poderia até controlar o trote do cavalo, mas dificilmente poderia manter o facho sempre na direção mais desejável. Além disso, nada impede que o animal volte sua cabeça na direção do cocheiro provocando uma espécie de auto-ofuscamento que seria no mínimo cômico.

Se bem que seria difícil ser ofuscado por uma lanterna a vela. Aí está outro problema: não há nenhuma inovação tecnológica pra valer. A única novidade é a localização insólita da lanterna. Não se pode nem falar de aperfeiçoamento.

Ainda que haja uma proteção — aparentemente de couro — entre a lanterna de lata e a cabeça do cavalo, talvez seja muito pouco para evitar um acidente como o escorrimento de cera quente na cabeça do animal. Durante uma viagem, isso poderia ter consequências bem trágicas.

Talvez a única influência que a lanterna de Macauley possa ter criado (ou não) seja meramente linguística. Headlight [lit. luz da cabeça] é, até hoje, farol na terminologia veicular americana.

Miopia cavalar

Um correspondente do “Manchester Sporting Chronicle”, pensando que seu cavalo estivesse ruim de vista, fê-lo ser examinado por um oculista. O exame certificou que o cavalo tinha um olho de nº. 7 e precisava de lentes côncavas [i.e., para miopia; 7 provavelmente deve ser o grau]. Essas foram arranjadas e ajustadas na cabeça do animal. A princípio, o cavalo pareceu um pouco surpreso, mas rapidamente apresentou sinais do mais vivo prazer e agora passa todas as manhãs a observar por sobre a porteira de seu estábulo, mirando através de seus aros, com um ar de admiração sossegada. Quando conduzido dessa forma, seu comportamento é completamente diverso de sua antiga timidez. Mas ao ser pastoreado sem seus óculos, detém-se próximo à porteira emitindo um relinchado grave, como que reclamando. Se seus óculos são restituídos, ele inclina-se sobre seus calcanhares traseiros e galopa, deliciado, até o pasto. — British Veterinary Journal, Março de 1888

Patentes Patéticas (nº. 82)

http://www.google.com/patents/US112

Quanto mais antiga uma patente, mais provável que ela seja de algo realmente útil. Afinal, muita coisa ainda não havia sido inventada e, portanto, podia ser registrada — só que isso inclui muitas patentes patéticas. O pioneiro dessa série deve ter sido Hezekiah L. Thistle, com sua Saddle for Removing the Sick and for Other Purposes [Sela para remoção dos doentes e outros propósitos], que consiste em uma Continue lendo…

Hereges Galináceos

Em 1474, os magistrados de Bâle sentenciaram um galo a ser queimado na estaca “pelo odioso e antinatural crime de botar um ovo.” O auto-da-fé teve lugar em uma colina perto de uma cidade chamada Kohlenberg, onde uma imensa multidão de aldeões e camponeses obsavava, com grande solenidade, a consignação do herege às chamas. A afirmativa feita por Gross em seu “Kurze Basler Chronik”, de que o executor ainda encontrou três ovos no interior do galo ao abri-lo é evidentemente absurda. O que há nesse caso é menos uma abominação natural e mais a abominação de uma imaginação tomada pela superstição. Outros casos desse tipo também foram registrados, sendo o mais recente em Pättigau, na Suíça em 1730. Entretanto, a maioria dos casos de execução de malfeitores galináceos era muito mais sumária e menos cerimoniosa do a de Bâle. — Edward Payson Evans, The Criminal Prosecution and Capital Punishment of Animals [O Processo Criminal e a Punição Capital de Animais],  1906

Em seguida, Mr. Evans relata o caso de um velho galo de 1710 que também teria botado um ovo. Em meio ao clima de iluminismo nascente, o “savant francês Lapeyronie considerou essa noção absurda digna de uma refutação séria”, apresentada em um paper na Academia de Ciências, a fim de “provar que os pequenos ovos sem gema atribuídos a eles [os galos] devem sua forma e condição peculiar a uma doença da galinha que resulta na má-formação do oviduto.” Além disso, M. Lapeyrone apresentou a hipótese de que o galo, naquele caso em particular, seria hermafrodita, “mas ao matá-lo e dissecá-lo, nada encontrou para suportar sua teoria, sendo que os órgãos internos estavam todos perfeitamente saudáveis e normais.”

Misteriosamente, mesmo depois de morto em nome da ciência, os ovos desse galo continuaram a aparecer, “até que o fazendeiro, observando cuidadosamente suas aves, percebeu que a galinha os punha. A dissecação [dela] mostrou que a pressão de uma bolsa de cera contra o oviduto o contraíra tanto que, ao passar, o ovo perdia sua gema, deixado apenas uma pequena parte amarelada que se parecia com um verme.” (Mémories da l’Académie de Sciences, Paris, 1710, pp. 553-60)

Cães deixam praias mais limpas

O melhor amigo do homem — até na praia.

Você acha que encontrar cães numa praia é desagradável, mas as gaivotas lhe parecem melhores por serem nativas do litoral? É melhor mudar de ideia se quiser ir à praia da próxima vez. Gaivotas podem ser bonitas até, mas sua companhia pode não ser muito agradável. Mesmo em locais bem saneados, muitas vezes elas é que são culpadas pela interdição das praias.

O problema é que, apesar de voar e comer lixo, as gaivotas são agentes patogênicos. Suas fezes podem carregar micróbios como Escherichia coli e Enterococcus, que podem contaminar a água e a areia. Há muito que as autoridades sanitárias tentam manter as gaivotas longe das praias. Mas uma recente pesquisa americana revelou aliados supreendentes: os cães. Continue lendo…

Os 10 Mandamentos do Papa-Léguas

 

  1. 1. O Papa-Léguas não pode ferir o Coyote, exceto pelo “beep-beep!”
  2. 2. Nenhuma força externa pode lesar o Coyote — apenas a sua própria inépcia ou os defeitos dos produtos Acme.
  3. 3. O Coyote poderia parar a qualquer momento — se ele não fosse um fanático. (Lembre-se: “Um fanático é alguém que redobra seu esforço quando se esquece de seu objetivo” — George Santayana)
  4. 4. Nunca, jamais diálogo algum, exceto “beep-beep!”
  5. 5. O Papa-Léguas deve ficar na estrada — de outro modo, logicamente, ele não poderia ser chamado de road runner.
  6. 6. Todas as ações devem ser confinadas ao ambiente natural dos dois personagens — o deserto do sudoeste americano.
  7. 7. Todos os materiais, ferramentas, armas ou utensílios mecânicos devem ser obtidos da Acme Corporation.
  8. 8. Sempre que possível, faça da gravidade o pior inimigo do Coyote.
  9. 9. O Coyote é sempre mais humilhado do que ferido por seus fracassos.

“Os cartoons Road Runner and Coyote são reconhecidos e aceitos por todo o mundo.” — escreve o diretor e criador de Wile E. Coyote, Chuck Jones em seu livro de memórias, Chuck Amuck (1999) — “Talvez a falta de diálogo seja uma razão. Se você quer rir, pode fazê-lo a qualquer tempo, seja em Dinamarquês, Francês, Japonês, Urdu, Navajo, Esquimó, Português ou Hindi. ‘Beep-Beep!’ é o Esperanto da comédia.”

O décimo mandamento, que Mr. Jones talvez tenha esquecido de citar, deve ser esse: “Ao introduzir a trama, não se esqueça de sempre (re)apresentar os personagens com os nomes populares acompanhados de uma pseudocientífica nomenclatura binomial em latim macarrônico.”

Clonagem Olímpica

Cavalo clonado pela empresa francesa Cryozootech em 2006 [Imagem: tuesdayshorse]

Não, ainda não clonaram atletas como Usain Bolt — felizmente. Mas se Bolt fosse um cavalo, seu clone poderia competir. A Fédération Equestre Internationale (FEI) anunciou que permitirá a inscrição de clones de cavalos em provas internacionais. “A FEI não proibirá a participação de clones ou seus descendentes em suas competições”, declarou a organização após o encontro do mês de Junho, em Lausanne, na Suíça.

A decisão reverte uma proibição imposta em 2007 pela própria FEI. Embora isso singifique que clones possam competir nas provas equestres das Olimpíadas, não haverá nenhum equino clonado em Londres-2012.

A novidade, porém, não deixa de ser controversa. A nova regra da FEI não terá efeito universal. Federações nacionais, como a americana, continuam mantendo o veto a cavalos clonados. O próprio uso de animais clonados em competições talvez se baseie em uma premissa falsa — a de que um clone de um campeão seria garantia de novas vitórias.

Apenas duas empresas (a americana ViaGen e a francesa Cryozootech) clonaram alazões com sucesso, até agora só para fins reprodutivos. Uma proprietária americana de cavalos clonados reconheceu que “a clonagem é cara e acreditamos que ela será limitada a um número relativamente pequeno de cavalos excepcionais.” Por enquanto, as duas empresas e os pouquíssimos haras com animais clonados devem ser os únicos a ganhar com a nova regra. E a equitação, que já é um esporte de elite, pode se tornar ainda mais excludente caso os caríssimos animais clonados tenham sucesso.

[future tense via 8bitfuture]

“A ofensa cujo nome é crime”

Você já deve ter ouvido falar em bestialidade, né seu tarado? (ou então caiu de pára-quedas aqui após buscar no Google) De qualquer forma, se hoje essa parafilia é considerada repugnante por pessoas comuns e “desumana” por defensores dos animais, imagine o que não acontecia em plena Idade Média:

A bestialidade (offensa cujus nominatio crimen est, como é eufemisticamente referida em documentos legais) era punida uniformemente com a condenação à morte de ambas as partes envolvidas. Era comum condená-las a serem queimadas vivas. “A besta também é punida e ambos são queimados”, diz Guillielmus Benedictinus, um autor de livros de Direito que viveu em fins do século XIV. Assim, em 1546 um homem e uma vaca foram enforcados e queimados por ordem do parlamento de Paris, [então] a suprema corte da França. Em 1466, o mesmo tribunal condenou um homem e uma porca a serem queimados em Corbeil.

E era assim não apenas na Europa (pós-)medieval, mas também, como era de se esperar, nas colônias puritanas da América do Norte:

Em sua “Magnalia Christi Americana” (Livro VI, (III), Londres, 1702), Cotton Mather relata que “em 6 de Junho de 1662, em New Haven, houve uma desgraça sem paralelo. Um homem, de nome Potter, com cerca de sessenta anos de idade, foi executado por Bestialidades. [...] viveu nas mais infames Bestialidades por não menos de cinquenta anos [sic] e agora, na forca, foram mortos diante de seus olhos uma vaca, uma novilha, três ovelhas e duas porcas, com todas as quais ele havia cometido suas brutalidades.”

— Edward Payson Evans, The Criminal Prosecution and Capital Punishment of Animals [Processo Criminal e Punição Capital de Animais], 1906

Peraí, se o tal Mr. Potter realmente existiu e passou 50 dos seus 60 anos de vida em contatos íntimos com seus animaizinhos, isso significa que os bichos, hoje, também seriam punidos por pedofilia??

O Caso do Cão Vivissecado

Oitenta anos depois da primeira vitória judicial a favor dos animais e de uma lei sobre maus-tratos, o precedente estabelecido por Richard Martin e seu burro era francamente ignorado. O assim chamado “caso do cão castanho” dividiu a Inglaterra Eduardiana. William Bayliss, um fisiologista da faculdade de medicina do University College de Londres havia, alegadamente, dissecado um terrier consciente diante de 60 estudantes de medicina.

Indignado, o secretário da Sociedade Nacional Anti-Vivissecção, Stephen Coleridge processou o fisiologista por maus-tratos. Em discursos inflamados e detalhados, Coleridge acusava o cientista não apenas de usar o terrier em uma operação sem anestesia, mas também de usar o mesmo animal em três operações diferentes (a lei de maus-tratos de 1876 permitia o uso de animais em apenas um experimento). Após um julgamento de grande repercursão, que teve até mesmo uma reconstituição, Bayliss acabou absolvido. Mesmo assim ele ainda processaria Coleridge por danos morais, pois considerava que sua vida profissional havia sido desonrada. Novamente, ele venceu.

Para não deixar o caso cair no esquecimento, os opositores do Dr. Bayliss se uniram para levantar uma estátua em memória do cão:

Em Memória do Cão Terrier Brown [Castanho], levado à Morte pelos Laboratórios da University College em Fevereiro de 1903, após passar por Vivissecção por mais de dois meses, tendo passado pelas mãos de um Vivissector após outro até que a Morte veio Libertá-lo. Também em Memória dos 232 cães viviseccionados no mesmo local durante o ano de 1902. Homens e Mulheres da Inglaterra, até quando isso continuará?
A estátua, um silencioso protesto que deveria apenas causar reflexão, causou quatro anos de arruaças, vandalismo e controvérsias em plena Metrópole do Império Britânico — que então se considerava a maior força civilizadora do mundo. Um conselho de moradores decidiu fundir a estátua para evitar maiores problemas. Uma réplica foi reconstruída apenas em 1985.

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