>Patentes patéticas (nº 29)

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Não existe coisa mais fofa e amável do que pais que leem para as crianças. É uma demonstração de carinho que pode ser inesquecível e cria um vínculo muito forte entre pais e filhos. Diria mesmo que isso é o equivalente cultural da amamentação.
Mas há pais por aí tão preocupados com a psicologia infantil que acham que devem manter contato visual com seus pimpolhos o tempo todo. Afinal, vai que os pequenos fiquem traumatizados e resolvem te matar pela herança um dia? Patrick T. Marshall, de Tipp City, Ohio, deve ser um desses pais superprotetores. Ele é o inventor de um “Método e aparelho para observação em via dupla durante a leitura” descrito da seguinte forma:
Um dispositivo especular anexável a um livro que permite ao leitor de um documento textual ver a expressões faciais do jovem adulto, criança, infante ou bebê que está ouvindo em íntima proximidade com o leitor. O ouvinte também pode ver os movimentos mecânicos (sic) dos lábios do leitor, acelerando o processo de aprendizado da leitura.

Além de um pequeno “material reflexivo” (a.k.a. espelho) que pode ser preso nas capas de “livros ou qualquer outro documento adequado”, o invento de Mr. Marshall pode contar opcionalmente com “uma luz ajustável que pode ser pivotalmente instalada no espelho do livro”. Mr. Marshall entrou com o pedido da patente em 3 de fevereiro de 2003. Praticamente dois anos mais tarde, em 8 de fevereiro de 2005, o Escritório de Patentes dos Estados Unidos, reconheceu seu invento e emitiu a patente de nº. 6.851.825. Ainda segundo a patente:
Muitos pais que leem para seus filhos antes de dormir não percebem todas as incríveis e maravilhosas expressões que suas crianças criam enquanto se lê para elas. Esse problema é resolvido quando a criança senta-se no colo do pai e com um livro e a invenção do espelho para livros presa à capa do livro. Então o pai ou o filho pode ajustar a posição do invento e do livro até que ambos possam ver a reflexão um do outro enquanto usam o espelho. O leitor agora está pronto a ler as páginas do livro enquanto olha periodicamente para o ouvinte. Similarmente, enquanto o leitor articula as palavras das páginas do livro ou revista, o ouvinte pode usar o espelho para correlacionar os movimentos labiais do leitor com o áudio das palavras que estão sendo faladas.

Note-se onde essa patente — aparentemente bem-intencionada — se torna patética: tanto a criança quanto o adulto só vão usar o espelho para se olhar “periodicamente”. Ora, quando se lê para alguém, qualquer um faz isso diretamente, sem precisar de espelhos. Só isso já torna inútil a criação de Mr. Marshall. E embora o aprendizado através da leitura labial possa ser importante em muitos casos, isso não se faz (pelo menos até onde eu sei) com o uso de espelhos.

>Gatuno de biblioteca

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Entre agosto de 2000 e maio de 2002, mas de 1100 livros antigos sumiram do monastério de Mont Saint-Odile, na França. Não havia qualquer sinal de arrombamento na biblioteca. Os monges trocaram todas as fechaduras do mosteiro e reforçaram a vigilância. Mas os livros continuaram a desaparecer — o ladrão até mesmo deixara uma rosa no lugar de um deles. #umbertoecofeelings
Já que orações e vigílias não funcionaram, o mosteiro foi forçado a se converter à tecnologia e instalou uma câmera para pegar o gatuno. Dias depois, Stanislas Gosse, um professor de engenharia de Estrasburgo, foi pego no flagra ao entrar através de um armário na biblioteca durante a noite.
Após ser capturado e levado a uma delegacia, ele confessou que havia encontrado um mapa perdido nos arquivos públicos e através dele descobriu uma entrada secreta. O professor universitário subia pelos muros do mosteiro, entrava pelo sótão, descia por uma estreita escadaria e acionava um mecanismo para abrir o fundo falso do armário. Depois disso, ele “navegava” pela biblioteca à luz de uma vela.
“Eu temo que minha paixão inflamada tenha sobrepujado minha consciência”, justificou-se o professor Gosse. “Pode aparecer egoísmo, mas eu sentia que os livros haviam sido abandonados. Eles estavam cobertos de poeira e com fezes de pombos e me pareceu que ninguém mais os consultava.” Gosse foi condenado por furto qualificado e invasão de propriedade particular. Ele pagou a fiança e foi liberado, mas teve que prestar serviços comunitários ajudando a catalogar os livros da própria biblioteca de Sain-Odile.
Dado que os livros estavam num mosteiro, tal estado de abandono não surpreende. Não havia, portanto, qualquer intenção criminal. Stanislas Gosse agiu como um herói literário — e dos românticos: “Também havia a emoção da aventura — eu tinha medo de ser encontrado.”

>Antonio Magliabechi, o sabe-tudo

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Antonio Magliabechi (1633-1714) era conhecido em sua Florença natal como um glutão litarário. Sua casa vivia atulhada com 40.000 livros e 10.000 manuscritos. Mesmo assim, ele não abria mão de uma visita diária à Biblioteca dos Medici, onde passava várias horas estudando. Até por que, era lá que ele trabalhava.
Magliabechi: certamente, o pintor
 não foi muito fiel nesse retrato. Aliás, o único.
Magliabechi era tão negligente que teria esquecido de sacar seu salário durante um ano inteiro. Ele achava que trocar de roupa antes de dormir era uma perda de tempo e muitas vezes vestia a mesma peça até ficar esfarrapado. Mas sua cabeça não era nada ruim. Au contraire, ela era “um index universal, tanto de títulos quanto de assuntos.” Quando o duque de Florença lhe procurou pedindo por um certo livro, ele respondeu: “Signore, há apenas um exemplar desse livro no mundo. Ele está na Biblioteca do Grão-Turco em Constantinopla; é o décimo-primeiro livro na segunda prateleira à direita de quem entra.” Dele, dizia-se que absorvia como uma esponja e memorizava como mármore.
Com uma memória tão fantástica, Magliabechi era praticamente um sistema de busca — o Google — de seu tempo. Em Curiosities of Human Nature [Curiosidades da Natureza Humana], Samuel Goodrich relata outro causo do grande bibliófilo florentino. Certa vez um padre procurou Magliabechi e lhe perguntou sobre um panegírico de um santo. “Ele era capaz de dizer imediatamente qualquer coisa sobre aquele santo, quem havia escrito sobre aquele santo, e em que partes de suas obras. Às vezes, eram centenas de autores [...] Tudo isso ele fazia com grande exatidão, nomeando cada autor, cada livro, as palavras e até mesmo o número da página na qual cada passagem citada se encontrava.”
Sempre cercado por livros, Antonio Magliabechi viveu até os 81 anos. Em seu testamento, legou sua fortuna aos pobres e pediu que seu acervo fosse transformado em uma biblioteca pública. A Magliabechiana é hoje conhecida como Biblioteca Nazionale Centrale Firenze.

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