Publicado
11 de mar de 2013
Quem nunca devolveu um livro pra biblioteca da faculdade com semanas ou mesmo meses de atraso não sabe o que é ficar pobre pagar multa. Richard Dodd, de Winnimac, Indiana, que o diga. Em 7 de dezembro de 1968, ele notou que tinha um velho livro atrasado entre seus pertences e o devolveu à Biblioteca Médica da Universidade de Cincinnati.
E como estava atrasado! O livro — Medical Reports of Effects of Water – Cold and Warm – as a Remedy in Fever and Febrile Diseases, Whether Applied to the Surface of the Body or Used Internally [Relatórios Médicos do Efeito da Água (Fria e Quente) como Remédio para Febre e Doenças Febris, seja Aplicada à Superfície do Corpo ou Usada Internamente], escrito por James Currie — tinha um atraso tão grande quanto seu título. O exemplar de Medical Reports… havia sido emprestado, pelo bisavô de Dodd, em 1823 — e estava com meros 145 anos de atraso no momento da devolução.
Tanto o bisavô quanto o avô de Dodd haviam frequentado a Escola de Medicina de Cincinnati. Eles deviam ter devolvido o exemplar, mas o livro acabou chegando às mãos de Richard Dodd como herança de família. Felizmente, ao receber o livro, a bibliotecária Cathy Hufford resolveu não cobrar a multa. Até porque seria difícil receber o valor, então calculado em 22 646 dólares. Em valores atualizados pela inflação, segundo os cálculos do Wolfram | Alpha, seriam US$ 152 904,45 ou (de acordo com a cotação do Google) aproximadamente R$ 299 157,43.
Publicado
5 de out de 2011
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Construída em 1901, a Haskell Free Library and Opera House pode ser considerada a primeira — e única — biblioteca transnacional do mundo. A biblioteca fica situada na fronteira entre Derby Line, Vermont, Estados Unidos e Stanstead, Quebec, Canadá.
A porta de entrada fica em território americano, mas a seção de circulação e todos os livros da biblioteca estão em território canadense. É preciso cruzar uma linha pintada no piso, que representa a fronteira, para ter acesso aos livros. Quando há apresentações teatrais ou de ópera, as peças são encenadas sobre um palco canadense para uma platéia que fica em solo estadunidense.
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| Projeção da fronteira sobre um velho cartão-postal |
Isso faz da Haskell Free Library uma biblioteca realmente livre, em certo sentido. É a única biblioteca dos EUA sem livros e a única casa de ópera americana sem palco — ou, se preferir, livre de livros e livre de palco, respectivamente. Simetricamente, a Haskell é a única biblioteca do Canadá sem entrada e um palco canadense sem público — ou livre de entrada e livre de público.
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| Haskell Line: a linha preta divide a sala de leitura entre EUA e Canadá |
Graças a essa situação, pode haver implicações bastante interessantes do ponto de vista do direito internacional. A peculiaridade geográfica da Haskell Free Library and Opera House permitiria que um público americano pudesse assistir a uma peça teatral que fosse censurada em seu território sem infringir a lei e sem ter que sair do país. Afinal, todos os atores poderiam ser canadenses atuando sobre um palco situado no Canadá. Por outro lado, os leitores dos Estados Unidos que frequentam a biblioteca não poderiam ler um livro que tivesse sido censurado pelos canadenses.
Publicado
29 de mai de 2011
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Quando um jovem de Manhattan escreve uma carta para sua garota, que mora no Brooklyn, ele manda a carta para ela através de um tubo pneumático — pffft. — E.B. White, Here Is New York [Nova York é Aqui], 1949
O sistema de tubos pneumáticos já foi uma parte essencial da vida de Nova York. Cilindros contendo cartas, pacotes — e, em pelo menos uma oportunidade, um gatinho vivo — eram transportados através de tubos de ar comprimido, a uma velocidade de até 35 milhas [56km] por hora. Esses tubos cruzavam toda a cidade, do Harlem ao Lower East Side; da Canal Street ao Planetarium e até mesmo de Manhattan para o Brooklyn.
Posto em operação em 1897 pela American Pneumatic Service Company, o sistema tinha 27 milhas [43km] de extensão e ligava 22 agências do correio em Manhattan entre si e ao Correio Geral no Brooklyn. Os canos ficavam entre 1,20m e 3,60m abaixo do nível do solo. Em alguns pontos, feixes com 4, 5 ou até 6 linhas acompanhavam os túneis do metrô. No auge de sua operação, o sistema pneumático carregava cerca de 95.000 cartas por dia — o que representava 1/3 de toda a correspondência que circulava diariamente por Nova York.
“Eu ainda me lembro daquelas latas que saíam do tubo”, diz Natham Halpern, um funcionário veterano dos correios. “Eles chegavam a cada minuto mais ou menos e quando chagavam, estavam um pouco quentes e com uma leve camada de óleo.”
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| As latas poderiam ser largas o suficiente para transportar livros, pequenos pacotes e até gatinhos. |
Em certa ocasião, os tubos transportaram não uma simples carta, mas um gato vivo. “Os funcionários dos correios pareciam tão fascinados com aquele mágico sistema de tubos quanto qualquer um. Certa vez eles até enviaram um pobre gato através dos tubos da cidade.” — conta Joseph H. Cohen, historiador do New York City Post Office. — “Ele chegou um pouco atordoado, mas chegou.”
Mas o sistema de correio a ar comprimido de Nova York não duraria para sempre. A manutenção dos tubos era cara e, apesar dos números, o serviço de entrega era bastante limitado. Após a virada do século outra maravilha apareceu para facilitar as entregas: o caminhão motorizado. Embora a maior parte das cidades tenha fechado seus sistemas pneumáticos por volta de 1918, Nova York continuou usando os seus tubos até 1º. de dezembro de 1953 (Praga foi uma exceção: inaugurado pouco depois dos tubos de NY, o sistema pneumático da capital tcheca continuou em funcionamento até 2002, quando foi seriamente danificado por uma inundação). Os tubos de Nova York resistiram em parte por causa da alta densidade populacional e em parte por causa do lobby das empresas envolvidas. Na verdade, o serviço só seria interrompido para uma revisão de contrato, mas acabou sendo abandonado mesmo.
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| Uma caixa de correio a ar: facilidade da entrega em edifícios era uma grande vantagem |
O tubo pneumático que passava pela ponte do Brooklyn foi removido durante uma reforma ainda nos anos 1950. Desde então, os tubos sibilantes de toda a cidade caíram em silêncio. Até os edifícios que tinham seu próprio sistema, como o Waldorf Astoria, acabaram adotando substituindo-os em favor de novos meios de comunicação.
Mas há um lugar de Nova York onde esses maravilhosos tubos ainda são mais ágeis que seus sucessores eletrônicos: a seção de Humanidades e Ciências Sociais da Biblioteca de Nova York. Quando alguém entrega um pedido para o bibliotecário, ele é enviado por via pneumática e desce sete andares até o depósito de livros no subsolo. O pedido é recebido, o livro é localizado, retirado e enviado para cima por outro tubo.
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| Terminais pneumáticos da Biblioteca de Nova York |
O velho sistema a ar comprimido da seção de Humanidades e Ciências Sociais sempre funcionou tão bem que um novo sistema foi instalado na Biblioteca de Negócios, Ciência e Indústria da Madison Avenue em 1998.
Mesmo em desuso, as tubulações pneumáticas de Nova York podem voltar à ativa e fazer um serviço muito similar ao do passado: transportar informação. O empresário Randolph Stark planeja passar linhas de fibra ótica por dentro dos tubos. “Mesmo que apenas uma pequena parte desses tubos ainda exista”, diz ele, “esse é um negócio muito valioso.”
Publicado
27 de abr de 2011
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Entre agosto de 2000 e maio de 2002, mas de 1100 livros antigos sumiram do monastério de Mont Saint-Odile, na França. Não havia qualquer sinal de arrombamento na biblioteca. Os monges trocaram todas as fechaduras do mosteiro e reforçaram a vigilância. Mas os livros continuaram a desaparecer — o ladrão até mesmo deixara uma rosa no lugar de um deles. #umbertoecofeelings
Já que orações e vigílias não funcionaram, o mosteiro foi forçado a se converter à tecnologia e instalou uma câmera para pegar o gatuno. Dias depois, Stanislas Gosse, um professor de engenharia de Estrasburgo, foi pego no flagra ao entrar através de um armário na biblioteca durante a noite.
Após ser capturado e levado a uma delegacia, ele confessou que havia encontrado um mapa perdido nos arquivos públicos e através dele descobriu uma entrada secreta. O professor universitário subia pelos muros do mosteiro, entrava pelo sótão, descia por uma estreita escadaria e acionava um mecanismo para abrir o fundo falso do armário. Depois disso, ele “navegava” pela biblioteca à luz de uma vela.
“Eu temo que minha paixão inflamada tenha sobrepujado minha consciência”, justificou-se o professor Gosse. “Pode aparecer egoísmo, mas eu sentia que os livros haviam sido abandonados. Eles estavam cobertos de poeira e com fezes de pombos e me pareceu que ninguém mais os consultava.” Gosse foi condenado por furto qualificado e invasão de propriedade particular. Ele pagou a fiança e foi liberado, mas teve que prestar serviços comunitários ajudando a catalogar os livros da própria biblioteca de Sain-Odile.
Dado que os livros estavam num mosteiro, tal estado de abandono não surpreende. Não havia, portanto, qualquer intenção criminal. Stanislas Gosse agiu como um herói literário — e dos românticos: “Também havia a emoção da aventura — eu tinha medo de ser encontrado.”
Publicado
20 de abr de 2011
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Antonio Magliabechi (1633-1714) era conhecido em sua Florença natal como um glutão litarário. Sua casa vivia atulhada com 40.000 livros e 10.000 manuscritos. Mesmo assim, ele não abria mão de uma visita diária à Biblioteca dos Medici, onde passava várias horas estudando. Até por que, era lá que ele trabalhava.
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Magliabechi: certamente, o pintor não foi muito fiel nesse retrato. Aliás, o único. |
Magliabechi era tão negligente que teria esquecido de sacar seu salário durante um ano inteiro. Ele achava que trocar de roupa antes de dormir era uma perda de tempo e muitas vezes vestia a mesma peça até ficar esfarrapado. Mas sua cabeça não era nada ruim. Au contraire, ela era “um index universal, tanto de títulos quanto de assuntos.” Quando o duque de Florença lhe procurou pedindo por um certo livro, ele respondeu: “Signore, há apenas um exemplar desse livro no mundo. Ele está na Biblioteca do Grão-Turco em Constantinopla; é o décimo-primeiro livro na segunda prateleira à direita de quem entra.” Dele, dizia-se que absorvia como uma esponja e memorizava como mármore.
Com uma memória tão fantástica, Magliabechi era praticamente um sistema de busca — o Google — de seu tempo. Em Curiosities of Human Nature [Curiosidades da Natureza Humana], Samuel Goodrich relata outro causo do grande bibliófilo florentino. Certa vez um padre procurou Magliabechi e lhe perguntou sobre um panegírico de um santo. “Ele era capaz de dizer imediatamente qualquer coisa sobre aquele santo, quem havia escrito sobre aquele santo, e em que partes de suas obras. Às vezes, eram centenas de autores [...] Tudo isso ele fazia com grande exatidão, nomeando cada autor, cada livro, as palavras e até mesmo o número da página na qual cada passagem citada se encontrava.”
Sempre cercado por livros, Antonio Magliabechi viveu até os 81 anos. Em seu testamento, legou sua fortuna aos pobres e pediu que seu acervo fosse transformado em uma biblioteca pública. A Magliabechiana é hoje conhecida como Biblioteca Nazionale Centrale Firenze.