Pelo mau uso do ‘literalmente’

Se você vive sendo literalmente execrado por abusar do uso figurativo do advérbio “literalmente”, saiba que está em boa companhia. Até o próprio Times — o famoso jornal londrino — andou judiando do advérbio nos primórdios de 1949. O resultado foram algumas cartas dos leitores literalmente hilárias publicadas ao longo do mês de abril daquele ano:

Sir,

Sua recente reportagem sobre um jogador de tênis que “literalmente dinamitou seus adversários para fora do campo” sugere que está sendo preciso ser menos sutil para vencer. Como, por exemplo, indica a palavra “literalmente” em uma metáfora, não seria inadequado o uso de dinamite em uma partida de primeria classe?

Atenciosamente,
B.W.M. Young

Sir,

Talvez o uso mais pitoresco do “literalmente” foi daquele escritor que afirmava que “durante cinco anos Mr. Gladstone esteve literalmente colado ao Banco Central.”

Cordialmente,
E.W. Fordham

Outros leitores que aproveitaram para apresentar suas próprias experiências com o literal advérbio:

Sir,

Eu apresento o seguinte, longo e adoravelmente lembrado exemplo de meus dias de “penny dreadful”: “Dick, calorosamente perseguido pelo caçador de couro cabeludo, virou-se sobre sua sela, atirou e literalmente dizimou o índio”.

Cordialmente,
Edward Evans

Penny dreadful era o equivalente vitoriano dos contos de ficção pulp, publicados em papel vagabundo e vendidos a preços baixíssimos.

Também houve relato de abuso por parte de uma agência de viagem:

Sir,

Um guia para a Grécia amplamente lido no pré-guerra costumava descrever os habitantes daquele país como tão interessados em política que poderiam ser vistos diariamente “em cafés e restaurantes literalmente devorando seus jornais”.

Atenciosamente,
F.J.B. Watson

Mr. Davidson foi um jornalista que se arrependeu e também escreveu para reconhecer, ainda que com décadas de atraso, seu mau uso do literalmente:

Sir,

Quando eu era editor-assistente do “Saturday Review” no começo dos anos 1920, durante uma ausência temporária do editor eu permiti que um revisor declarasse, naquelas páginas augustas, que seu coração estava literalmente em suas botas.

Atenciosamente,
Ivy Davidson

De Churchill para Churchill

Em junho de 1899, o então escritor e jornalista inglês Winston Churchill (1874-1965) escreveu uma carta para o romancista americano Winston Churchill (1871-1947):

Mr. Winston Churchill apresenta seus cumprimentos a Mr. Winston Churchill e implora para chamar sua atenção a uma matéria que preocupa a ambos. Ele soube através de notícias da imprensa que Mr. Winston Churchill se propôs a lançar outra novela, intitulada “Richard Carvel”, a qual é certa de ter uma venda considerável tanto na Inglaterra quanto na América. Mr. Winston Churchill também é autor de uma obra que está agora sendo publicada em forma seriada pela “Macmillan’s Magazine” e pela qual ele antecipa algumas crônicas sobre a Guerra Sudanesa. Ele não tem dúvidas de que Mr. Winston Churchill reconhecerá através desta — se não por outros meios — que há o grave perigo de que suas obras sejam confundidas com aquelas de Mr. Winston Churchill. Ele tem certeza de que Mr. Winston Churchill deseja isso tão pouco quanto ele-mesmo. No futuro, para evitar enganos tanto quanto possível, Mr. Winston Churchill decidiu assinar todas as suas publicações, artigos, estórias e outras obras como “Winston Spencer Churchill” e não “Winston Churchill”, como até agora. Ele acredita que este arranjo recomendar-se-á a Mr. Winston Churchill e ele ousa sugerir, com vistas a prevenir maiores confusões que possam originar-se dessa extraordinária coincidência, que tanto Mr. Winston Churchill quanto Mr. Winston Churchill devam ambos inserir uma breve nota em suas respectivas publicações para explicar ao público quais são os trabalhos de Mr. Winston Churchill e quais os de Mr. Winston Churchill. O texto dessa nota será assunto de futura discussão se Mr. Winston Churchill concordar com a proposta de Mr. Winston Churchill. Ele aproveita essa ocasião para congratular Mr. Winston Churchill pelo estilo e sucesso de suas obras, as quais sempre chamam sua atenção seja na forma de revista ou de livro e ele espera que Mr. Winston Churchill tenha tido igual prazer com quaisquer de suas obras que tenham lhe chamado a atenção.

No fim das contas o rocambolesco pedido de Churchill para Churchill foi desnecessário. Embora Churchill — o Americano — fosse mesmo mais famoso naquela época, seu sucesso não atrapalharia Churchill — o Britânico. Richard Carvel foi mesmo o auge do sucesso do romancista americano, mas depois desse livro, a fama do Americano desandou.

Como o Churchill Britânico, o xará do lado de cá do Atlântico tentou a carreira política. Porém, ao contrário do nobre homônimo bretão, Churchill não teve sucesso na política — talvez por falta de “sangue, suor, lágrimas e trabalho”. Depois de falhar politicamente, o yankee decidiu abandonar tanto a vida pública quanto a literária e, ainda em vida, foi rapidamente esquecido.

Contraproposta

Em 1744, após fazer um convite para que os nativos americanos mandassem alguns jovens índios para estudar em suas faculdades numa espécie de intercâmbio, o College of William & Mary, da Colônia de Virgínia, recebeu a seguinte resposta:

Nós sabemos que vós estimais altamente o tipo de educação que ensinam nesses Colleges e que a Manutenção de nossos jovens Homens, junto a vós, vos seria bastante cara. Nós estamos convencidos, portanto, que vosso objetivo é fazer-nos o Bem com vossa Proposta e nós vos agradecemos ternamente. Mas vós, que sois sábios, deveis saber que diferentes Nações têm diferentes Concepções das Coisas. E vós não deveis, portanto, considerar erradas nossas Ideias desse tipo de Educação por não serem iguais às vossas. Nós já tivemos alguma Experiência com ela: Muitos de nossos jovens foram antigamente levados aos Colleges das Províncias Nortistas. Eles receberam instruções em todas as suas Ciências, mas quando retornaram a nós, eles eram maus Corredores, ignorantes de todos os meios de se viver nas Florestas, incapazes de suportar o Frio ou a Fome, nada sabiam sobre como construir uma Cabana ou capturar um Veado ou matar um Inimigo; falavam nossa língua imperfeitamente e, portanto, não estavam preparados para ser Caçadores, Guerreiros ou Conselheiros. Eles eram totalmente bons em nada. Nós, porém, agradecemos vossa gentil Oferta, apesar de não aceitarmo-na. E, para demonstrar nosso Senso de gratidão, se os Gentlemen de Virgínia nos mandarem uma Dúzia de seus Filhos, nós tomaremos grande Cuidado de sua Educação, instruindo-os todos em tudo que conhecemos e fazendo deles Homens.

Mais de dois séculos e meio (e três revoluções científicas) depois, ainda há americanos para os quais os universitários são “totalmente bons em nada”. E esses americanos críticos das universidades não são exatamente nativos — há até (pré-)candidato a presidente que considera os colleges inúteis.

>Carta em Branco

>

Quando se trata de correspondências em tempos de guerra, censura é algo quase natural. Só que o censor nem sempre é alguém de patente superior ou do serviço secreto. Esta carta de William Kyzer, combatente da II Guerra Mundial, é um exemplo disso:

Querido Pai e Carmilita,

Eu estou OK. Os dias voam aqui em

Bem, pode acontecer mais cedo ou mais tarde. Estou rezando por isso. Escreva logo. Não há nada como uma carta do lar. Aqui em

Amor,
Bill

PS – Eles podem censurar essa carta.

Sessenta anos mais tarde após o fim da II Guerra, a correspondência que Kyzer escreveu para a família foi publicada assim mesmo no livro Behind the Lines [Atrás das Linhas], de Andrew Carroll. Carroll explica que nesse caso, a censura foi causada pela preguiça do missivista: “De fato, a correspondência de Kyzer não foi editada de maneira nenhuma. Ele simplesmente detestava escrever cartas e na verdade apenas redigia umas poucas palavras no começo e no fim, de modo que sua família acreditasse que os censores é que seriam os responsáveis por cortar o resto.”

>A carta da Martha

>

Em julho de 1833, George Harry Gray, sexto conde de Stamford e segundo conde de Herrington (1765-1845) recebeu uma carta que começava assim:

É com vergonha, com indescritível vergonha que eu presumo me dirigir a Vossa Senhoria com estas linhas. Mas, tendo conhecimento da pessoa de Vossa Senhoria desde minha infância e lembrando-me dos relatos do caráter empático e benevolente de Vossa Senhoria, eu estou prestes a confiar um assunto de grande infortúnio à honra e segredo de Vossa Senhoria.

Assinada por “Martha Turner”, a carta prosseguia, contando que ela havia abandonado sua mãe viúva no Natal por causa de um homem que lhe prometera se casar com ela [com “Martha”], mas que acabou abandonando-a, deixando-a “arruínada e perdida” (grifos originais). Ela, então, pedia “uma pequena assistência pecuniária”, implorando ao duplo conde para resgatá-la “da completa destruição” e de “uma morte miserável”.
Só que, da mesma maneira que o spammer nigeriano, Martha Turner simplesmente não existia. Seu apelo foi inteiramente inventado por Joseph Underwood, que era apenas mais um entre cerca de 250 missivistas impostores que enganavam as classes abastadas da Inglaterra dos anos 1830. Underwood escreveu a carta de Martha em uma letra (aparentemente) feminina. Para reforçar o golpe, ele também forjou mensagens do suposto sedutor da moça e de um clérigo que corroborava o relato trágico de Miss Turner.
Underwood chegou a ganhar quase mil libras por ano com o golpe da carta da Martha. Descoberto diversas vezes, o impostor passou por vários períodos de detenção. Em 1838, John Grant, outra vítima de Underwood, escreveu: 

Se a faculdade de criação é um dos principais atributos de [um] gênio, Underwood era um gênio de primeira magnitude. A força e a inspiração de seus fatos imaginativos eram notáveis. Tivesse ele voltado sua atenção à redação de romances, em vez da profissão de missivista impostor, não há o que dizer sobre quão alto estaria seu nome nesse momento na literatura corrente no país. 

Underwood, infelizmente, não deve ter visto esse conselho: ele faleceu na prisão de Coldbath Fields, em Clerkenwell, perto de Londres, naquele mesmo ano de 1838. 

>Trollagem de Carroll

>

Em 1873, Lewis Carroll emprestou o diário de viagem de sua pequena amiga Ella Monier-Williams, sob a condição de que ele não o mostraria para ninguém. Ele devolveu-o à menina junto com essa cartinha:

Minha querida Ella,

Eu, muito agradecido, devolvo seu livro. Você deve estar pensando porque o mantive por tanto tempo. Eu compreendo, com base no que você disse sobre ele, que você não tinha ideia de publicar nada em seu nome. Espero que você não fique brava por eu ter enviado três capítulos curtos, extraídos dele, para serem publicados no The Monthly Packet [O Paquete Mensal]. Eu não apresentei nenhum nome por inteiro nem coloquei qualquer título mais definido do que o simples Diário de Ella, ou As Experiências de uma filha de um Professor de Oxford durante um mês de Viagem ao Exterior.

Eu lhe remeterei fielmente qualquer dinheiro que eu possa receber de Miss Yonge, editora do Monthly Packet, por isso.

Seu afetuoso amigo,
C.L. Dodgson

Conhecendo bem o espírito de Carroll, Ella pensou que ele estava brincando e escreveu-lhe para dizer isso. Mas ele respondeu assim:
Fico muito sentido em ter que te dizer que cada palavra da minha carta era estritamente verdadeira. Eu agora vou te contar mais — que Miss Yonge não recusou o Manuscrito, mas ela não vai pagar mais do que um guinéu por capítulo. Isso será o bastante?

“A segunda carta”, escreveu Ella Monier-Williams, já adulta, “conseguiu me fazer entrar no jogo. Com um prazer infantil, eu escrevi dizendo que não entendia muito bem como meu relato poderia valer a publicação, mas expressei também meu prazer. Depois recebi esta carta:”
Minha querida Ella,

Eu temo ter lhe passado um trote grande demais. Mas era verdade mesmo. Eu esperava que você não ficaria brava, etc. simplesmente porque eu não o fiz. E eu não coloquei Diário de Ella como título, aliás não coloquei título algum. Miss Yonge não recusou o manuscrito porque ela nem o viu. E eu nem preciso explicar porque ela não lhe deu mais do que três guinéus!

Nem por trezentos guinéus eu o mostraria a qualquer um depois de te fazer uma promessa, eu não poderia.

Com pressa,

Afetuosamente seu,
C.L.D.

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