Em uma palavra [132]

iconódulo (i.co.nó.du.lo)
adj. Teolog. que ou aquele que pratica iconodulia, ou seja, a adoração de imagens ou ícones. “A Igreja Católica é uma religião iconódula”; “A iconodulia dos Cristãos Ortodoxos é diferente da Católica”; seu antagonista é o  iconoclasta, aquele que destrói imagens.

A iconodulia não é fenômeno exclusivo da religião. Podemos falar também que, desde o aparecimento do cinema e da televisão, a humanidade tem se tornado cada vez mais iconódula. Para muitas pessoas – verdadeiros fanáticos – qualquer crítica ao seu ator/modelo/cantor/banda/filme/série ou simplesmente seu ídolo preferido só pode vir de um iconoclasta detestável.

Anjos Cadentes

Um acidente assustador ocorreu na Sexta-Feira última [30 de abril] na igreja de Madeleine, em Bruges [na Bélgica]. Um dos párocos, durante uma missa, foi subitamente lançado ao solo pela cabeça de mármore de um menino Jesus que desprendeu-se de seu corpo [o da figura] e caiu em sua testa [a do padre]. Uma severa ferida e uma fratura craniana foram as consequências para o infeliz clérigo que, após resistir a grande agonia, faleceu ontem. — ‘Times’, segunda-feira, 3 de maio de 1847

Esse tipo de acidente não deve ter sido incomum num continente cheio de igrejas seculares ricamente decoradas como a Europa. Quatro décadas mais tarde, o mesmo Times reportava detalhadamente um caso em solo inglês:

Um extraordinário e fatal acidente ocorreu esta manhã na igreja da paróquia Católica de Kildare. Enquando o Reverendíssimo Dr. J. B. Kavanagh, P.P., estava diante do altar, com o cálice em mãos para levantá-lo ao fim da missa das 7 da manhã e se preparava para descer do altar para recitar o Rosário e a Ladainha da sagrada Virgem, a figura de mármore de um querubim sobre o altar caiu e acertou-o com grande força na cabeça. Ele caiu de costas, murmurou as palavras “Meu Deus” duas vezes e então perdeu os sentidos. Um grito de horror e angústia elevou-se entre a congregação que testemunhou o acidente. Algumas pessoas correram para assisti-lo, enquanto outras buscavam auxílio médico. Os Drs. Watson, Dillon e Chaplin logo se apresentaram e o Dr. Kavanagh foi posto em uma padiola e tranferido para o convento adjacente, onde, sem recobrar a consciência, faleceu em seguida. — ‘Times’, quarta-feira, 6 de outubro de 1886

De Profundis II

Durante o clímax do filme The Black Cat [O Gato Preto] — clássico de terror de 1934 —, Hjalmar Poelzig (Boris Karloff) reza uma “missa negra” que antecede o sacrifício da pobre e desesperada Jacqueline Wells (Julia Bishop):

 

Cum grano salis. Fortis cadere cedere non potest. Humanum est errare. Lupis pilum mutat, non mentem. Magna est veritas et praevalebit. Acta exteriora indicant interiora secreta. Aequam memento rebus in arduis servare mentem. Amissum quod nescitur non amittitur. Brutum fulmen. Cum grano salis. Fortis cadere cedere non potest. Fructu, non foliis arborem aestima. Insanus omnes furere credit ceteros. Quem paenitet peccasse paene est innocens.

Tudo isso pode parecer assustador na voz grave de Karloff. Mas qualquer um com um conhecimento mínimo de latim nota que se trata apenas uma sucessão de lugares-comuns em linguagem clássica:

Com um grão de sal. Um forte pode cair, mas não pode ceder. Errar é humano. O lobo muda o pelo, não a índole. Poderosa é a verdade e prevalecerá. Ações externas indicam segredos internos. Lembra-te de quando a estrada da vida é dura para manter sua mente calma. A perda que não se conhece não é uma perda. Relâmpago brutal. Com um grão de sal. Um forte pode cair, mas não pode ceder. Julgai a árvore pelo fruto e não pelas folhas. Todo louco pensa que todo mundo é louco. Quem se arrepende de pecar é quase inocente.

E assim, Finis coronat opus — o fim coroa a obra.

Ironicamente, durante séculos a Igreja forçou o uso do latim em suas missas como forma de manter as coisas sob seu controle direto. Mas como habitus non facit monachum (o hábito não faz o monge), não seria difícil para qualquer um com um raso conhecimento de latim fazer-se passar por padre e “rezar” missas repetindo meia-dúzia de lugares-comuns salpicados com in nomine Patris, et Filii, et Spiritūs Sancti. Amém.

>Saída Estratégica

>

Um Judeu muito velho chamou sua mulher para a cama e disse: “Eu estou morrendo. Por favor, chame um padre… Eu gostaria de me converter ao Catolicismo.” Chocada, a mulher lembrou ao seu marido que eles haviam sido judeus devotos durante toda a vida. “Eu sei, querida,” disse ele, “mas não é melhor que um deles morra em lugar de um dos nossos?” — Epígrafe anônima em John Martin Fischer, The Metaphysics of Death [A Metafísica da Morte], 1993

>Fé e Obra

>

Não sabia que a Igreja Católica aceita o cumprimento de promessas “por procuração”…

Catarina de Médicis (rainha da França) fez um voto de que se algumas de suas preocupações terminassem bem-sucedidas, ela enviaria um peregrino a Jerusalém. Ele iria a pé até lá e, a cada três passos para frente, ele voltaria um passo para trás. Havia dúvidas se poderia ser encontrado um homem suficientemente forte para ir a pé e suficientemente paciente para retroceder um passo a cada três. Um cidadão de Verberie se apresentou e prometeu pagar o voto da rainha do modo mais escrupuloso possível. A rainha aceitou sua proposta e prometeu-lhe uma recompensa adequada. Diz-se que ele cumpriu sua promessa com grande exatidão e que a rainha foi constantemente informada por relatórios. — William Granger, The New Wonderful Museum, and Extraordinary Magazine [Revista do Novo Museu do Maravilhoso e Extraordinário], 1804

Católica de origem italiana, Catarina de Médicis (1519-1589) foi rainha consorte e regente da França em diversas ocasiões durante a Reforma e Contra-Reforma. Entre outras “preocupações”, ela foi responsável pelo Massacre da Noite de São Bartolomeu, em 24 de agosto de 1572. Para alegria do Vaticano, mais de 30 mil protestantes franceses foram mortos numa única noite. Afinal, “a fé sem obras é morta”.

>Sex and the Vatican

>

Denúncia de pedofilia: você está fazendo isso errado

O papa pode não ser mais italiano há um bom tempo, mas mesmo assim, parece que o Vaticano acha que suas fronteiras vão além dos muros que o separam de Roma. Em meio aos escândalos político-sexuais de seu primeiro-ministro fanfarrão, a Itália está calada. Vergonhosamente, também está calada com o lançamento do livro Sex and the Vatican, do jornalista Carmelo Abbate. Não que se esperassem louvores à obra que devassa a vida dupla que padres, freiras, monges e bispos italianos levam. Surpreendentemente, também não houve críticas generalizadas. Nem um escândalo sequer.

Entre outras coisas, o livro apresenta a vida de mulheres que, mesmo na clandestinidade, se casaram com padres e ou tiveram filhos ou fizeram aquilo que a igreja mais condena — aborto. Freiras denunciam estupros que sofreram nas mãos de padres. A conclusão, porém, não é surpreendente: tais comportamentos só ocorrem por que a Igreja impõe a castidade e o celibato, fardos pesados demais na vida de quem deseja ser clérigo.
Na França — onde boa parte da população é católica —, o livro tornou-se um best-seller instantâneo. A primeira edição se esgotou em uma semana. Sex and the Vatican foi o 12º. livro de não-ficção mais vendido pela Amazon francesa. Carmelo Abbate tem aparecido em diversos programas de entrevistas na TV francesa. Diversos artigos e resenhas têm sido escritos em diversos diários franceses nas últimas semana. Há até mesmo um documentário para a televisão sendo preparado sobre o tema.
Mas se você atravessar os Alpes e entrar na primeira banca que encontrar na Itália, não vai ver nada sobre Abbate ou sobre seu livro. Também não vai adiantar muito zapear pela TV italiana. Exceto por uma pequena nota publicada pela Ansa, a agência de notícias italiana, tudo o que saiu sobre o livro na Itália se resume a uma breve resenha em um pequeno jornal econômico de Milão, Finanza e Mercati, e uma matéria na revista Panorama, onde o próprio Carmelo Abbate trabalha. 
Falar sobre as relações entre sexo e Vaticano continua sendo um enorme tabu na bota mediterrânea. É como se o livro — e tudo o que ele revela — tivesse sido escondido debaixo do tapete, ou melhor, da batina. Há alguns que consideram Abbate apenas como um jornalista sensacionalista. Mas nem mesmo os deméritos do livro estão sendo discutidos aberta e extensivamente na mídia italiana.
Um dos motivos para isso está fuora i muri do pequeno Estado teocrático governado por Bento XVI. Além de ser o primeiro-fanfarrão do país, Silvio Berlusconi é dono de um império midiático: o Canale 5, o Italia 1 e a Rete 4. Esses são três dos cinco grandes canais de TV aberta na Itália. A RAI, maior emissora de TV do país, é pública e tem diversos canais — mas tal como no Brasil, a TV pública na Itália nunca foi muito autônoma. Não é surpresa, portanto, saber que a TV italiana calou sobre um assunto tão polêmico. O capo de tutti capi já tá bastante ferrado publicamente. Se suas empresas pudessem criticar o Vaticano, ele cairia feito um anjinho de asas quebradas.

B-16 e Berlusconi têm muita coisa em comum: são chefes de Estado e líderes de gangues sexuais.

A mídia impressa também parece impor uma autocensura muito forte quando o assunto é sexo na Igreja. Aparentemente, os jornalistas italianos consideram mais importante o respeito a uma instituição decadente do que a revelação da verdade, seja ela qual for. Aliás, esse tipo de pseudojornalismo é o sonho do lulo-petismo (que mostrou-se muito católico ao condenar o aborto na última campanha eleitoral).
Entretanto, o que pode estar acontecendo na Itália é uma intervenção direta do clero para impor a lei do silêncio no país. Não é a primeira vez que isso ocorre. Em 2006, líderes católicos tentaram censurar a versão cinematográfica d’O Código da Vinci antes mesmo da estreia nos cinemas — não apenas na Itália, mas em diversos países. Onde não conseguiram, promoveu-se uma discreta porém verdadeira queima de livros de Dan Brown. Agora a estratégia é um pouco diferente: ignorar, orgullhosamente ignorar. Diferente, mas não muito. Essa tem sido a mesma estratégia católica diante das denúncias de abusos sexuais cometidos por padres e monges contra crianças e adolescentes. Em vez de enfrentar e reconhecer o problema, o Vaticano tem procurado abafar os casos, como se eles não existissem, como se eles fossem historinhas inventadas por criancinhas malvadas. 
Padres pedófilos não são punidos, denunciados nem mesmo excomungados: são transferidos para outra diocese e fica-se nisso até que cometam novos abusos e sejam transferidos ad nauseam. Em vez de jogar fora os frutos estragados, o clero prefere desacreditar os acusadores e proteger a reputação da fazenda onde esses frutos são produzidos. Nem que para isso seja necessário por em risco o Estado de Direito dando um verdadeiro golpe branco em um país soberano e independente do Vaticano. Ou que pelo menos deveria ser.

>Dia do Livro: É proibido proibir

>Para que esse dia (ou noite) não passe em branco:

Alguns dos autores listados no Index Librorum Prohibitorum da Igreja Católica: Galileu Galilei, Copérnico, Kepler, Montaigne, Descartes, Voltaire, Jean-Jacques Russeau, Sade, Victor Hugo, Dumas, Rebelais, Balzac, Zola, Anatole France, Jean-Paul Sartre, Laurence Sterne, Comte, Graham Greene, Maquiavel, Jonathan Swift, além da Encyclopedie e do Grand Dictionaire Universel Larousse
Entretanto, Karl Marx e Adolph Hitler jamais foram censurados pelo Vaticano.

>Moderna Páscoa Judaica

>Mudam-se os tempos, mas as sérias restrições alimentares do judaísmo continuam firmes e fortes:

Não ria se você for cristão — especialmente se for católico. Afinal você também não pode comer nem um Big Mac durante a quaresma. Ou não deveria.

>Voto de Pobreza

>

Por que a população do Vaticano não derruba o papa? Porque o ”povo” vaticano
 vive rica e fartamente com a renda de suas ovelhinhas.

>Pai de Todos

>

Bons eram tempos em que padres poderiam “tirar o atraso” livremente com mulheres. Nada de preservativos e um monte de filhos! Porém, até hoje não houve pároco com tanta vontade de “fazer filhos” quanto Francisco Costa, o lendário prior de Trancoso:

Sobre a união do homem com muitas mulheres, é curioso este documento que se acha arquivado na Torre do Tombo em Lisboa (armário 5º., maço 7º., datado do ano 1487):

“F…… C……, prior que foi de Trancoso, na idade de 62 anos, será degredado de suas ordens e arrastado pelas ruas públicas ao rabo de cavalos, esquartejado o seu corpo e posto em quartos e a cabeça e mãos em diferentes distritos, pelo crime de que foi arguido, que ele mesmo não contrariou, sendo acusado de ter dormido com 29 afilhadas, tendo delas 97 filhas e 37 filhos; de 5 irmãs teve 18 filhos e filhas; de 9 comadres teve 38 filhas e 18 filhos; de 9 amas teve 29 filhas e 5 filhos; de 2 escravas teve 21 filhas e 7 filhos; dormiu com uma tia chamada A…. C…… de quem teve três filhos e… da própria mãe teve 2 filhos!!!

Total — 275 filhos, sendo 200 do sexo feminino e 75 do sexo masculino, sendo concebidos de 54 mulheres!”

— Valmiro Vidal Rodrigues, Curiosidades: 1000 coisas interessantes para nossa cultura enciclopédica, Vol. III. 1960

O prior foi julgado e condenado e executado, certo? Errado! Lembre-se que estávamos em Portugal, um país que nos legou a rigorosa tradição jurídica do “prende e solta”:
“O rei João I perdoou ao fecundo sotaina e o mandou por em liberdade aos 17 dias de março de 1487 e guardar no Real Arquivo da Torre do Tombo esta sentença e mais papéis que formam o processo.”Idem.

Categorias

Sobre ScienceBlogs Brasil | Anuncie com ScienceBlogs Brasil | Política de Privacidade | Termos e Condições | Contato


ScienceBlogs por Seed Media Group. Group. ©2006-2011 Seed Media Group LLC. Todos direitos garantidos.


Páginas da Seed Media Group Seed Media Group | ScienceBlogs | SEEDMAGAZINE.COM