>O Incidente de Kersey

>

Kersey em 1957. Aquarela de Jack Merriot.
Pensando bem, aquele silêncio era mesmo uma coisa muito estranha: os sinos das igrejas pararam de tocar e até os patos se calaram e ficaram quietos no pequeno riacho no começo da rua principal enquanto o trio de cadetes navais se aproximava do vilarejo. Mais tarde, segundo a recordação dos garotos, até o canto outonal de um pássaro de desvaneceu à medida que eles se aproximavam das primeiras casas. Nenhuma folha se movia nas árvores que, aliás, pareciam não ter sombras. Até mesmo o vento parecia ter deixado de existir.

A rua em si estava bem deserta. Isso não seria surpresa numa manhã de domingo de 1957, ainda mais no coração rural da Inglaterra. No entanto, mesmo os mais remotos vilarejos britânicos já mostravam então sinais de modernidade — carros estacionados nas calçadas, linhas telefônicas suspensas ao lado das ruas e antenas espalhadas pelos tetos. Mas não havia nada disso naquela vila. De fato, todas as casas daquela rua pareciam antiquíssimas: eram grosseiras, com estruturas de madeira, e “quase medievais em aparência”, pensava um dos garotos.

Um incidente temporal?
Os três jovens, que eram cadetes da Royal Navy, aproximaram-se da construção mais próxima e meteram seus rostos nas janelas encardidas, esforçando-se para ver alguma coisa. O que dava para ver era algum tipo de açougue, mas o interior era ainda mais perturbador. Segundo um dos meninos, em depoimento ao escritor Andrew MacKenzie:
Não havia mesas ou balcões, apenas duas ou três carcaças interias de boi que haviam sido esfoladas e em alguns lugares já estavam esverdeadas de velhas. Havia uma porta pintada de verde e janelas com diminutos painéis de vidro, uma na frente e uma do lado, com um ar um tanto sujo. Eu me recordo que enquanto olhávamos incrédulos através daquela janela para as carcaças mofadas e emboloradas… o sentimento geral era um de descrença e irrealidade… Quem acreditaria que em 1957 as autoridades sanitárias permitiriam tais condições?

Eles espiaram em outra casa também. Que, também, tinha janelas esverdeadas e gordurosas e que parecia igualmente desabitada. As paredes pareciam ter sido toscamente caiadas, mas os cômodos estavam vazios. Os garotos não conseguiam ver nenhuma mobília ou objeto e pensavam que as salas em si “não seriam de qualidade moderna”. Assustados, os cadetes voltaram as costas de deram no pé para fora da estranha vila. A trilha que seguiram subia por uma pequena colina e eles não olharam para trás até alcançar o topo da pequena elevação. Daí, segundo um dos três se lembrou, “subitamente podíamos ouvir os sinos tocando novamente e vimos fumaça elevando-se das chaminés, embora nenhuma chaminé estivesse fumando quando estávamos no vilarejo… Nós corremos por uma centena de jardas como que para nos sacudir do sentimento de estranhamento.” [MacKenzie, pp. 6-9]

O que aconteceu com esses três rapazes numa manhã de outubro há mais de meio século ainda permanece um tanto misterioso (ou não). Eles participavam de um exercício de leitura de mapa que deveria ser bastante simples. A ideia era fazê-los se orientar através de quatro ou cinco milhas de uma área rural até um ponto determinado. Depois, eles voltariam à base e relatariam o que encontrassem — o que, de acordo com o plano, seria a pitoresca vila de Kersey, no condado de Suffolk. Mas quanto mais pensavam no assunto, mas os cadetes se convenciam de que algo muito estranho havia ocorrido. Anos mais tarde, William Laing, o rapaz escocês que liderava o trio, colocou as coisas nestes termos: 

Era uma vila fantasma, por assim dizer. Era quase como se tivéssemos andado para trás no tempo… Eu experimentei uma sensação esmagadora de tristeza e depressão em Kersey, mas também uma sensação de hostilidade de observadores ocultos que dariam frio na espinha de qualquer um… Eu me perguntava que, se nós batessemos em uma porta para fazer uma pergunta, quem a teria respondido? Não suporto ter de pensar nisso.
Laing, que viera de Pertshire, nas Highlands da Escócia, era um estrangeiro para essas bandas do leste da Inglaterra. Assim também eram seus colegas Michael Crowley (de Worcestershire) e Ray Baker (londrino da gema). Esse era o problema. Os três tinham só 15 anos e haviam acabado de se alistar na Royal Navy. Isso os tornava facilmente enganáveis pelos oficiais responsáveis pelo treinamento. Seus superiores, segundo Laing, estavam “um tanto céticos” quando ouviram sobre aquela experiência, mas logo estavam “rindo bastante, concordando que havíamos visto Kersey corretamente.” [MacKenzie, pp. 8-9]

O incidente de Kersey ficou esquecido até meados da década de 1980, quando Laing e Crowley — que agora viviam na Austrália — conversaram por telefone e remoeram a história toda. Laing sempre foi perturbado pelo acontecimento. Crowley, por sua vez, não se lembrava com tantos detalhes quanto o colega, mas pensava que alguma coisa estranha havia mesmo ocorrido e recordava-se do quadro geral de silêncio, ausência de antenas e postes e especialmente do açougue bizarro. Isso foi o bastante para fazer Laing escrever ao autor de um livro que ele havia lido: Andrew MacKenzie, que era um dos líderes da Society for Psychical Research.

Retrocognição?

MacKenzie ficou intrigado com a carta de Laing e reconheceu um possível caso de retrocognição. Observando cuidadosamente os detalhes, ele pensou que os cadetes haviam visto Kersey não como era em 1957, mas como era séculos antes. MacKenzie e Laing trocariam correspondências por dois anos. Pesquisas em bibliotecas locais com auxílio de um historiador levaram MacKenzie a confirmar sua hipótese. Em 1990, o ex-cadete retornou à Inglaterra e visitou novamente o vilarejo, acompanhado do pesquisador.

O que torna esse caso particularmente interessante é que a retrocognição é o mais raro dos supostos fenômenos paranormais. O número de casos relatados não passa de uma mão cheia. Muitos fatores levaram MacKenzie a considerar como genuína a experiência dos garotos: a sinceridade óbvia de Laing e Crowley (Ray Baker foi procurado sobre o assunto, mas disse não se recordar da experiência); os detalhes de suas recordações; e algumas descobertas persuasivas. 

Entre os detalhes que mais impressionaram o investigador foi o fato de que a cada que Laing identificava como o açougue — que era uma residência particular tanto em 1957 quanto em 1990 — datava de cerca de 1350 e realmente havia sido um açougue até por volta de 1790. MacKenzie também se impressionou com uma sugestiva mudança de estação sentida pelos garotos ao entrar no vilarejo — dentro de Kersey, segundo Laing, “estava verdejante… as árvores estavam naquela cor verde magnífica que se encontra na primavera ou no começo do verão”. Intrigante também era a questão da igreja da vila. Laing notou como o grupo não a viu após entrar na vila sob um manto de silêncio. Aliás, ele lembra-se explicitamente de que “não havia sinal de uma igreja. Eu certamente deveria tê-la visto, já que tinha um campo de observação de 360 graus” no topo do morro. Crowley também se recorda de “nada de igreja ou pub.” [MacKenzie pp. 4, 6, 11]

Contradições Históricas

Tudo isso, porém, parece inexplicável. A Igreja de Santa Maria de Kersey data do século XIV e é o principal edifício do distrito, sendo bem visível a qualquer um que passe pela rua principal. No entanto, MacKenzie vê nisso uma evidência da data em que Laing e sua turma “visitou” o local. Segundo ele, a construção da torre do templo foi interrompida por um surto de Peste Negra (1348-9) que matou metade da população de Kersey. Para MacKenzie, os meninos viram o local como estava após a praga, quando a torre da igreja semiconstruída estava escondida em meio às árvores. Mas MacKenzie, contraditório como todo investigador de paranormalidade, também diz que a data mais provável seria por volta de 1420. Isso porque por essa época Kersey começava a enriquecer como comércio de lã [Kerridge p.5], o que permitiria o aparecimento das primeiras janelas de vidro.

No entanto, essa simples contradição de datas joga por terra a hipótese de que os garotos tenham se perdido no tempo. Kersey é exatamente o tipo de lugar que poderia causar confusões em visitantes novatos e estrangeiros. Quanto à falta de postes e antenas, há uma explicação bastante racional para isso. No começo dos anos 1950 a Suffolk Preservation Society lutou pela preservação da paisagem local [Electrical Review p.414; Electrical Times p.300]. O resultado dos protestos a favor da preservação histórica de Kersey podem ser encontrados em relatórios do Parlamento Britânico da época, que falam de “negociações que resultaram na transferência das linhas aéreas para o fundo das casas de cada lado da rua ou o enterro do cabo no subsolo no ponto onde a rua precisa ser cruzada.” [Command Papers p.96] Ou seja, havia sim linhas elétricas. Elas apenas estavam escondidas por motivos turísticos.

E quanto aos outros detalhes? Janelas de vidro, mesmo que toscas, eram bastante caras e portanto raras nos séculos XIV e XV [Cantor p.139]. Mesmo que a Kersey supostamente visitada fosse rica, porque suas casas estariam abandonadas e sem móveis? Se o local houvesse sido repentinamente abandonado por causa de uma praga, ninguém teria tempo de levar sua mobília.

O açougue bizarro

Quanto ao açougue, esse é um ponto crucial e demonstra a superficialidade das pesquisas históricas de MacKenzie. A questão é: um vilarejo medieval teria um açougue? Isso não quer dizer que tais estabelecimentos não existissem. Mas eles normalmente ficavam em cidades maiores, onde havia mais demanda. Isso porque a carne, nessa época, era um alimento bem caro. A maioria dos camponeses (e vilões) tinha uma dieta quase exclusivamente vegetariana. Quando se abatia um animal numa vila, o consumo deveria ser imediato, já que não havia muitos métodos de armazenar carne. [Mortimer pp.10-13, 93-4] 
O consumo de carne pode até ter aumentado bastante no século XIV (passando de “um décimo ou menos do orçamento alimentar para um quarto ou um terço do total”), mas há evidências de que tal consumo era ocasional: em Norfolk, não muito longe de Suffolk, apenas três cabeças de gado foram abatidas em um ano por volta daquela época. [Dyer pp.85-6] Portanto, parece absurdo supor que um lugar tão pequeno quanto Kersey tivesse não apenas um açougue, mas um açougue com duas ou talvez três carcaças inteiras por volta de 1420. Nessa época Kersey já tinha uma feira semanal onde seria muito mais fácil encontrar carne fresca em pequenas quantidades.

Confusão mental

Portanto, tudo parece indicar que os cadetes tiveram sim uma experiência excepcional — mas uma experiência puramente psicológica, a derrealização. A derrealização é uma condição psicológica na qual o mundo real subitamente aparenta ser irreal. A favor dessa hipótese há os elementos-chave do incidente: o silêncio, a ausência de vida, as “árvores sem sombra” relatados pelos garotos são comuns em casos de derrealização. As causas podem ser diversas, mas nesse caso tudo não passaria de uma forte impressão de irrealidade causada talvez pelo estresse a que os cadetes haviam sido submetidos durante seu exercício de localização. Assustados por estarem em um local desconhecido no espaço, ele teriam tido a impressão de estarem perdidos no tempo — o que só foi reforçado pela quietude de uma manhã de domingo em um vilarejo pacato do interior da Inglaterra.
Referências
  • Andrew Mackenzie. Adventures in Time. London: Athlone Press, 1997
  • Eric Kerridge. Textile Manufactures in Early Modern England. Manchester: MUP, 1988
  • Electrical Review vol. 145 (1949); Electrical Times vol.116 (1949)
  • Command papers. Great Britain: Parliament: House of Commons. London: HMSO, 1951. Vol. XX
  • Leonard Cantor. The Changing English Countryside, 1400-1700. London: RKP, 1987
  • Ian Mortimer. The Time Traveller’s Guide to Medieval England. London: Vintage, 2009
  • Christopher Dyer. Everyday Life in Medieval England. London: Vantage, 2000

>A anomalia da foto C-S11-32W071-03

>

Em 1976, uma foto de satélite da NASA, de número C-S11-32W071-03, revelou algo bastante incomum na densa floresta do sudeste do Peru: objetos piramidescos, alinhados em duas fileiras quase perfeitas. Seria aquele o esconderijo de incas-venusianos?

Aquilo, fosse o que fosse, tinha que ser nomeado. Afinal, não seria muito prático ficar usando “anomalia da foto C-S11-32W071-03” nas discussões.  Os entusiastas dos mistérios sul-americanos chamaram-nas de pirâmides de Paratoari (ou pirâmides de Pantiacolla; os crentes, para variar, discordavam sobre os detalhes). Os céticos simplesmente se referiam àquilo como os “pontos”. Entretanto, como quase todas as febres dos anos 1970, esse mistério da selva peruana acabou esquecido por um bom tempo.
Foi somente em 1996 que Gregory Deyermenjian, explorador e psicólogo norte-americano decidiu montar uma expedição e descobrir de uma vez por todas o que eram (ou não eram) as “pirâmides”. Acompanhado dos peruanos Paulino Mamani, Dante Núñez del Prado, Fernando Neuenschwander, Ignacio Mamani e dois índios, Deyermenjian se embrenhou na selva peruana. Foram os primeiros a chegar naquele local. O americano já era um experiente explorador e encontrou diversas evidências de ocupação inca na área: petroglifos, estradas pavimentadas (a.k.a. peabirus) e plataformas. Mas nada das “pirâmides”.
Porém, em uma investigação mais minuciosa, Deyermenjian encontrou algo e percebeu que aquilo não poderia ter sido feito por mãos humanas (muito menos incas-venusianas). O que ele encontrou era nada menos que uma formação geológica natural, as serras de cume truncado de arenito (em inglês, sandstone truncated spur). São apenas falhas de origem glacial ou tectônica com a surpreendente e ilusória forma de uma pirâmide.
Mesmo com o mito das pirâmides de Paratoari detonado, o interesse sobre a área e uma possível cidade perdida ressurgiu em 2001. Naquele ano, o arqueólogo italiano Mario Polia alegou ter encontrado documentos nos arquivos dos jesuítas em Roma. Segundo Polia, um missionário relatava a existência de uma cidade inca conhecida como Paititi naquela área. Faltava apenas descobrir as evidências físicas. Um “forte” chegou a ser descoberto em 2007 mas, como as pirâmides, também não passava de uma extravagância geológica feita de arenito.

>A Mosca Supersônica de Townsend

>

O Cheetah (ou Guepardo) pode alcançar velocidades de mais de 70 milhas por hora [112 km/h]. Em um mergulho, o Falcão-Peregrino pode chegar a 200 mph [322 km/h]. Mas, em 1927, o entomologista Charles Townsend (1859-1944) estimou que uma espécie de mosca-varejeira que ele observou no Novo México voaria a 400 jardas [365 metros] por segundo — o que equivale a 818 mph [1316 km/h]. Seria o suficiente não apenas para ultrapassar os dois animais mais velozes mas a própria barreira do som: 1226 km/h.
Por mais incrível que pareça, o suposto recorde de velocidade animal resitiu por longos 11 anos. Só caiu em 1938, quando o químico Irving Langmuir (1881-1957) detonou a estimativa de Townsend em um minucioso artigo publicado na Science. Entre outras coisas mais óbvias, Mr. Langmuir — laureado com o Nobel de Química em 1932 — apontava os seguintes contras para o recorde da varejeira:
  • A potência necessária para alcançar tamanha velocidade seria de 370 watts ou quase meio cavalo-vapor. Para voar tão rápido, a mosca teria que consumir 1,5 vez o seu próprio peso em comida — por segundo.
  • Fórmulas da Balística mostram que a pressão do vento sobre a cabecinha da mosca chegaria a 8 libras por polegada quadrada. Isso seria mais que o suficiente para esmagá-la completamente.
  • Uma mosca de 800 mph seria capaz de atingir a pele humana com uma força de 310 libras [140 kg]. “É óbvio que tal projétil penetraria profundamente na pele humana.”
  • Uma mosca supersônica seria invisível ao olho humano e não algo como o “borrão amarronzado” descrito por Townsend.
Além de tudo isso, um inseto supersônico também criaria o seu próprio “boom” ao quebrar a barreira do som. “As descrições apresentadas pelo Dr. Townsend” — concluía o artigo — “parecem corresponder melhor com uma velocidade na casa das 25 mph [40 km/h].”

>Fotógrafo-fantasma

>

Esta é Mary Todd Lincoln, viúva de Abraham Lincoln, com o fantasma de seu marido, em uma foto do “fotógrafo de espíritos”, Willianm H. Mumler.

Diz a história que Mary sentou-se para a foto no começo dos anos 1870, quando já havia se casado novamente e adotado o sobrenome Lindall. O fotógrafo não a conhecia até que a revelação mostrou o presidente-mártir.
É o que se diz por aí. Os céticos imediatamente acusaram Mumler de falsificação e ele não ganhou muitos amigos com sua carreira de “revelador” de fantasmas dos mortos da Guerra Civil para as famílias enlutadas.
Tal prática era de um nível tão baixo que até P.T. Barnum, dono de circo famoso por sua credulidade, testemunhou contra Mumler num julgamento de fraude em 1869. Ele foi inocentado, mas morreu miserável em 1884.
Talvez Mumler tenha realmente descoberto uma incrível e inovadora técnica… mas parece que seu próprio fantasma jamais foi fotografado.

>Uma dívida no bolso e uma enguia na cabeça

>

Em dezembro de 1964, o fotógrafo francês Robert Le Serrec, sua esposa e um amigo australiano chamado Henk de Jong estavam passeando de barco na Baía Stonehaven, na Ilha de Hook em Queensland. De repente apareceu uma criatura enguiesca (adjetivo ad hoc), que passou pelo barco deles. Mergulhados na água (onde mais?), Le Serrec e de Jong haviam acabado de começar a filmagem submarina quando a coisa abriu a boca, assustando-os. O bicho tinha mais de 20 metros de comprimento.
Essa foi a história publicada por Le Serrec na edição de março de 1965 da revista Everyone. Mas isso não é tudo. A verdade é que Le Serrec não era um simples turista sortudo. Ele estava fugindo de seus credores franceses quando teve a brilhante ideia de fotografar um monstro marinho. As dívidas seriam pagas com o dinheiro das fotos vendidas para a imprensa. A ideia, porém, morreu na praia: o francês conseguiu publicar as fotos, mas não recebeu nada depois que seus verdadeiros planos foram descobertos.

>Hélène Smith, a médium marciana

>

Hélène Smith (1861-1929), evidentemente, não era uma vidente de verdade. Mas sua farsa era notavelmente ambiciosa. Ela dizia ser uma reencarnação de uma princesa hindu e de Maria Antonieta. 
Mas Mademoiselle Hélène Smith foi também um ícaro espiritualista. Não se contentando em ser uma reencarnação única de duas princesas de épocas e lugares distintos, ela decidiu voar mais alto. Hélène afirmava ser capaz de visitar Marte:

Paisagem de Marte (pintada pela própria Hélène Smith): eram os marcianos hindus?

Que engraçados, esses carros! Dificilmente há qualquer cavalo ou pessoa a puxá-los. Imagine diferentes tipos de poltronas que se movem mas não têm rodas. São as pequenas rodas que produzem as faíscas. As pessoas sentam em suas poltronas. Algumas, as maiores, levam quatro ou cinco pessoas. À direita do braço da poltrona está espetado um tipo de vara, que tem um botão, o qual é pressionado com o polegar para por o veículo em movimento. Não há trilhos. Também se vê pessoas a pé. Elas são constituídas como nós e seguram-se com pequenos dedos. A vestimenta é a mesma para ambos os sexos: uma blusa comprida de gola alta, calças bem largas, sapatos de couro, com solas grossas, sem salto e cuja cor é a mesma do resto do conjunto: branco com detalhes em preto.

Entre 1894 e 1901, Mlle. Smith deu mais de 60 sessões, detalhando inclusive a suposta língua marciana. Suas “visões” inspiraram o livro Des Indes à la Planete Mars [Da Índia ao Planeta Marte], publicado em 1900 pelo (para)psicólogo suíço Théodore Flournoy (1854-1920). 

Flournoy (à esq.) fora amigo próximo de Catherine-Elise Müller (o verdadeiro nome de Mme. Smith), mas — talvez cedendo ao ceticismo de seu lado científico — ele não conseguiu engolir a história sobre Marte. Ele afirmava que as descrições do povo marciano eram baseadas no orientalismo que estava em moda (too mainstream); que o Planeta Vermelho apresentado pela médium era excessivamente “material”, pois se parcecia muito com a Terra. E a suposta língua marciana, com suas 22 letras e sua gramática era muito semelhante ao francês. Ele classificou Catherine Müller como um caso de “sonambulismo com glossolalia”. Depois dessa, a carreira de Mademoiselle Smith deveria ter ido para o espaço.

Mas não foi. Uma tal de Mrs. Jackson, rica (e crédula) espiritualista norte-americana, continuou impressionada e ofereceu-lhe dinheiro. Em troca, Catherine Müller deveria largar o trabalho e se dedicar exclusivamente à documentação de suas visões. É claro que Hélène Smith aceitou. E, como já não era mais boba, passou a ter visões mais “aceitáveis” — com Cristo. Pra quem começara vivendo como duas princesas e viajando pra Marte, foi um final bastante decadente.

Semelhanças suspeitas: a suposta escrita marciana e o alfabeto tailandês.

Para os curiosos (ou ociosos) de plantão, a primeira edição de From India to the Planet Mars está disponível on-line [em inglês].

>Jovens Ainda

>

Menos pessoas vivem até a velhice

A surpreendente ideia de que a vida humana está se tornando mais curta e não mais longa foi recentemente sugerida pelo Professor C. H. Forsyth, do Darthmouth College. A teoria recebeu uma corroboração inesperada das estatísticas sobre pessoas com mais de 100 anos que vivem nas Ilhas Britânicas — recém-compiladas pelo Dr. Maurice Ernest, do Centenarian Club de Londres. Em 1881, segundo o Dr. Ernest, a Inglaterra possuía 141 centenários, a Escócia tinha 57 e os atuais territórios do Estado Livre Irlandês relatavam 566. Em 1921, ano com o mais recente censo completo, as respectivas quantias eram de 110 na Inglaterra, 35 na Escócia e aproximadamente 120 no Estado Livre Irlandês. Ressalta o Dr. Ernest que “possivelmente o grande número de centenários relatado nos anos anteriores pode ser devido a falsas alegações de longevidade extrema, feitas pelas próprias pessoas e que não eram verificadas tão cuidadosamente quanto agora.” Mulheres que passam dos cem parecem ser o dobro dos homens. — Modern Mechanix, Janeiro de 1930

>Hamlet: Uma comédia de erros?

>

ham
Em 1889, Fredericka Raymond Beardsley Gilchrist propôs a teoria de que todo o sentido de Hamlet havia sido confundido por causa de um mero erro tipográfico. Na Cena V do Ato I, a sombra revela a Hamlet o adultério de sua mãe e o assassinato de seu pai. Então, Hamlet responde:
O all you host of heaven! O earth! what else?
And shall I couple hell? O fie!
[Ó legiões do céu! Ó terra! Que mais, ainda?
Invocarei o inferno?]
Mas Mrs. Gilchrist afirmava que o segundo verso deveria ser lido assim:


hamleto
O gatinho Hamlet — leva um tempão pra morrer.
Mrs. Gilchrist obviamente não queria um Hamlet encenado em forma de LOLcat. Desculpem a nossa falha. A redação proposta por ela é a seguinte:
And shall I couple? Hell! O fie!
[lit. E deverei eu formar um par? Para o Inferno!]
Ou, em bom português, “E eu ainda casar-me-ei? Não!” A autora de The True Story of Hamlet and Ophelia [A verdadeira história de Hamlet e Ofélia] argumenta que, no estado em que estava, após saber dos crimes em sua família, Hamlet não teria condições de parar e procurar algo para acrescentar a ‘céus!’ e ‘terra!’ em suas exclamações. 
Para ela, portanto, Hamlet se dá conta do risco de seu casamento com Ofélia. O príncipe da Dinamarca, então, desistiria de seu amor e o resto da peça é a história de um “amante infeliz”. Fredericka compara e apresenta diversas edições (como as de 1603, 1604 e 1623), mas reconhece que “Nenhures encontrei a leitura que eu procuro. Mas estou convencida de que a presente leitura não é a verdadeira.”
hamlet1
“A Trágica História de Hamlet, príncipe da Dinamarca” (edição de 1605).
No entanto, ela insiste:  “A pontuação do Folio não foi feita por Shakespeare. Essa pontuação diferia da dos Quartos, elas divergiam entre si e todas são distintas da pontuação moderna: Acredito que todas são incorretas.” Ela segue argumetando sobre as confusões da pontuação do inglês da época de Shakespeare.
Entretanto, ela parece se esquecer de que Hamlet surgiu numa época em que tanto a língua inglesa quanto a imprensa já estavam bem estabelecidas. Embora um erro de pontuação na transcrição ou na tipografia seja perfeitamente possível, ela não apresenta nenhuma edição que comprove sua tese. Mas defende sua interpretação de forma tão peremptória e apaixonada que ela tenta contrabalançar com uma dose de humildade (bastante falsa, diga-se de passagem):
Por quase três séculos tem sido possível mal-entender, não apenas passagens específicas, mas a intenção fundamental da peça. Durante esse tempo nenhuma explicação satisfatória de todas as suas obscuridades foi apresentada. Eu acredito que essa teoria as explica. Contrariando a aparente vaidade e presunção da afirmação anterior, tal crença baseia-se em cuidadosos estudos e comparações. — Fredericka R. B. Gilchrist, The True Story of Hamlet and Ophelia [A verdadeira história de Hamlet e Ofélia], 1889

>O Papagaio dos Atures

>

Em 1800, o naturalista alemão Alexander von Humboldt (1769-1859) explorava o Alto Orinoco na Amazônia venezuelana. Foi quando ouviu falar de uma tribo extinta recentemente, os Atures. A língua morrera com o último falante, mas Humboldt ainda pôde ouvi-la: “Naquela parte de nossa viagem, um velho papagaio nos foi apresentado em Maypures [...] e um fato digno de nota é que ‘eles não conseguiam entender o que ele dizia, por que ele falava a língua dos Atures.’”

Maipures, Venezuela

Humboldt tentou, na medida do possível, registrar foneticamente o que pareciam ser 40 palavras faladas pelo papagaio. Quase dois séculos mais tarde, em 1997, a língua Ature teria sido ouvida novamente. A artista Rachel Berwick alega ter ensinado dois papagaios da Amazônia a falar o que Humboldt havia registrado.

Mas há vários motivos para duvidar dessa história. Quando o naturalista alemão fez seu registro, não havia um alfabeto fonético internacional. Mesmo que os papagaios tenham sido treinados de acordo com os escritos de Humboldt, o “vocabulário” que ele registrou pode não ser muito fiel à suposta língua Ature.

Digo suposta língua por que o papagaio apresentado ao cientista alemão pode ter sido simplesmente um truque, uma forma de chamar a atenção e talvez até de obter dinheiro de forasteiros. Humboldt era um grande cientista, mas como ninguém é perfeito, ele pode ter sido enganado.

Para quem quer tirar as próprias conclusões, há uma gravação dos papagaios de Rachel Berwick aqui, mas não me parece muito convincente. 

>Imóvel Fantasma

>

Das séries “bizarrices do judiciário americano” e “um pouco de ceticismo não faria mal a ninguém”:
Cuidado! Esta casa é assombrada – ou pelo menos foi isso que disse a Justiça nova-iorquina.
Se você quer vender uma casa em Nova York, é melhor certificar-se de que o imóvel não é assombrado antes de fechar o negócio. Pelo menos essa foi a decisão da Suprema Corte do Estado de Nova York no caso Stambovsky v. Ackley — a.k.a. “aquele caso Ghostbusters de 1991”.
Quando Jeffrey Stambovsky fez uma oferta para comprar a casa de Helen Ackley em Nyack, NY, ele não sabia que ela (a casa, não a Sra. Ackley) era assombrada. O assustado (e crédulo) comprador tentou desfazer o negócio após assinar o contrato, mas foi judicialmente impedido de desistir da compra.
Stambovsky recorreu da decisão. Durante o novo julgamento, a corte superior notou que, uma vez que a vendedora havia relatado a presença de fantasmas em uma fonte confiável — a revista Seleções do Reader’s Digest —, ela não podia negar a existência deles diante do comprador. “Em termos legais,” determinou a justiça estadual de Nova York, “a casa é assombrada.”
E, por causa disso, um comprador não deveria descobir os fantasmas após a aquisição do imóvel. Os fantasmas seriam um “defeito” da casa e Mrs. Ackley seria culpada pela venda desonesta. Para a corte nova-iorquina, mesmo “a inspeção e busca mais meticulosas não revelariam a presença de poltergeists preliminarmente nem derrubariam a reputação fantasmagórica que a propriedade tem na comunidade.” 
Resultado: Stambovsky não sofreu qualquer dano, mas conseguiu sair de um contrato sem pagar multa. Moral da história: Caveat emptor [cave no vazio compre por sua conta e risco em latim juridiquês].

Categorias

Sobre ScienceBlogs Brasil | Anuncie com ScienceBlogs Brasil | Política de Privacidade | Termos e Condições | Contato


ScienceBlogs por Seed Media Group. Group. ©2006-2011 Seed Media Group LLC. Todos direitos garantidos.


Páginas da Seed Media Group Seed Media Group | ScienceBlogs | SEEDMAGAZINE.COM