>Um museu vivo dos refrigerantes

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Nesta era de globalização, quando os longos — e, vamos admitir, deliciosos — tentáculos da Coca-Cola ou da Pepsi alcançam até os lugares mais remotos do mundo, a Galco Soda Pop Stop é um lugar único. Nesse mercadinho cabe uma imensa variedade de marcas de refrigerante artesanais ou vintage, vindos de todos os cantos dos Estados Unidos e de lugares tão distantes quanto a Romênia. 
Em suas prateleiras, é possível encontrar tanto velhos e obscuros rótulos — o que sobrou de uma época em que quase todo condado americano tinha sua pequena fábrica de refrigerante e/ou cervejaria — quanto refris importados que só se encontram em poucos lugares do planeta. Entre 500 sabores disponíveis, dá pra escolher alguns tão estranhos quanto água de rosas (vindo da Índia), pepino (do Japão), banana (da América Central) ou café (dos EUA mesmo). Também é possível encontrar doces e balas oldschool. Será que a Galco tem ou conhece algum guaraná ou tubaína made in Brazil?
Nesbitt’s of California: refrigerante de pera pêssego
Mas o verdadeiro tesouro desse santuário refrigerântico é seu proprietário, John F. Nese, um homem que se considera o maior expert do mundo sobre o assunto. Ele sempre pode lhe explicar porque garrafas de vidro são melhores do que as de plástico (no que eu concordo) ou porque a Coca-Cola Kosher-para-a-Páscoa é melhor do que a versão comum (o que me parece absurdo). Ele também sempre pode sugerir uma nova marca ou sabor ao visitante de primeira viagem.

A seguir, o próprio Mr. Nese apresenta um pouco do seu tesouro para o CHOW, um programa de webTV sobre comes e bebes (em inglês, é claro):

A Galco Soda Pop Stop tem um site e faz vendas on-line, mas parece que não fazem entregas fora dos Estados Unidos.

>O Caso Coca-Cola (parte 2)

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O processo aberto por Wiley contra a Coca-Cola considerava o produto “adulterado e com anúncio inadequado”. A adulteração, é claro, estaria no uso de cafeína, que “poderia causar danos à saúde”. Baseado em análises químicas, o Químico-Chefe da América também alegava que a Coca-Cola enganava seus consumidores, já que quase não havia traços de coca e “pouco ou talvez nenhuma cola”. Entre os ingredientes, segundo os autos do processo, havia açúcar, água, cafeína, glicerina, suco de lima “e outras matérias flavorizantes.” (evidentemente, a fórmula completa não foi revelada por se tratar de propriedade industrial da Coca-Cola).

A companhia respondeu às acusações de Wiley reiterando que Coca-Cola era uma marca registrada e que a fórmula estava em uso há mais de 20 anos sem qualquer problema. Quanto à adulteração, era mais difícil provar que a cafeína não era totalmente danosa.

“É psicológico”
Na abertura do julgamento, em 13 de março de 1911 — há praticamente um século — um amplo rol de testemunhas foi ouvido por ambos os lados. Fundamentalistas religiosos (sempre eles) testificavam que beber Coca-Cola levava a festas selvagens, a indiscrições sexuais nas escolas de coeducação (na época, moças e rapazes começavam a estudar juntos em alguns colégios americanos e isso também era um assunto polêmico) e até mesmo falavam que a Coca “induzia os rapazes à sofreguidão masturbatória.” Como eles sabiam disso, ninguém dizia. Do lado da Coca, a maioria dos testemunhos era de natureza científica, embora a metodologia das pesquisas apresentadas fosse quase sempre questionável.

Ao perceber que haviam poucas pesquisas sérias sobre os efeitos da cafeína em seres humanos, a Coca-Cola teve a ideia de contratar um psicologista para estudar o assunto. Diversos psicológos eminentes apareceram, mas a Coca escolheu Harry Levi Hollingworth (1880-1956), então professor do Barnard College (parte da Universidade de Columbia). Entretanto ainda havia preconceito na comunidade científica contra trabalhos aplicados. Assim, Hollingworth só aceitou o trabalho sob duas condições: 1) a Coca-Cola não poderia usar a pesquisa em publicidade nem divulgar o nome do pesquisador para obter aprovação do público e 2) Hollingworth deveria ser livre para publicar o estudo independentemente dos resultados. 
Harry L. Hollingworth (1880-1957): ele salvou a Coca-Cola
levando a pesquisa aplicada à Psicologia.

Pesquisa Aplicada
Financiado pela gigante de Atlanta, Hollingworth criou e conduziu (com a ajuda de sua recém-formada esposa, Leta) o primeiro experimento duplo-cego sobre os efeitos da cafeína sobre a saúde. Apesar da limitação do tempo — cerca de três meses — imposta pela data do julgamento, Hollingworth procurou fazer um estudo tão longo e aprofundado quanto possível.

Em um apartamento de seis quartos, alugado em Manhattan especialmente para o estudo, dezesseis indivíduos (10 do sexo masculino e 6 do feminino), entre 19 e 39 anos, foram reunidos. Como voluntários pagos, eles deveriam obedecer uma série de condições, incluindo a abstenção total de álcool ou cafeína durante o experimento. Um médico examinou cuidadosamente os voluntários, que também deveriam manter registros diários sobre seus níveis de alerta, hábitos de sono e saúde em geral.

Na verdade, Hollingworth estava conduzindo três pesquisas de uma só vez. A mais complexa, com duração de quatro semanas, incluía múltiplos testes de cognição, percepção, julgamento, discriminação e atenção. Durante a primeira semana, os indivíduos receberam cápsulas de placebo e foram levantados os dados básicos enquanto eles se adaptavam à rotina da pesquisa. Na semana seguinte, os voluntários foram dividos em quatro grupos: três passaram a receber diferentes doses de cafeína e o quarto grupo foi mantido como controle e continuou recebendo o placebo. Como o estudo era do tipo duplo-cego, nem os pesquisadores que trabalhavam na pesquisa e nem os indivíduos sabiam quem estava em um grupo experimental e quem era do grupo de controle. As doses de cafeína usadas deveriam ser equivalentes àquelas consumidas diariamente por um consumidor típico de Coca-Cola.

Os outros dois estudos conduzidos por Hollingorth e sua esposa examinavam os efeitos da retirada da cafeína (i.e., possíveis sintomas de crises de abstinência) e os efeitos de diferentes doses de cafeína ingeridas com comida. Mesmo depois de dispensar os voluntários às 18h30 de cada dia, Harry e Leta Hollingworth, auxiliados por estudantes de graduação, trabalhavam até tarde da noite processando e revisando milhares de dados e medidas coletados (e todas as planilhas e o processamento de dados eram feitos à mão, já que ainda faltava quase meio século para o surgimento de computadores eletrônicos). Além disso, Harry Hollingworth exigia que todos os dados fossem arquivados em duplicata, em dois locais diferentes — ele temia que tudo fosse destruído por um simples (e talvez criminoso) incêndio.

Caso Encerrado
Quando os resultados foram apresentados no julgamento que se desenrolava em Chatanooga, Tennessee, a pesquisa de Hollingworth destacava-se diante de todos os testemunhos de especialistas apresentados no caso. Em seu testemunho, o professor de lógica e psicologia do Barnard College afirmou que não havia encontrado nenhuma evidência de efeitos negativos da cafeína sobre os sistemas cognitivo e motor. Como o caso Coca-Cola era um evento já bastante midiático, a psicologia aplicada em geral tornou-se publicamente conhecida.  Um repórter do Daily Times de Chatanooga ficou entusiasmado com esse testemunho, considerando-o “de longe o mais interessante e técnico dentre os já apresentados. A acareação falhou em derrubar qualquer de suas deduções.”

Após mais uma semana de deliberações, o julgamento acabou antes de chegar ao júri popular. O juiz Edward T. Sanford, respondendo a um apelo dos advogados da Coca-Cola, declarou inválidas as acusações do governo e deu um veridicto a favor da Coca. O caso foi encerrado por se tratar de uma pequena questão técnica (se a cafeína seria aditivo ou ingrediente da Coca-Cola). Com isso, a questão do possível perigo da cafeína não teve muito efeito na decisão. Após diversas apelações (mesmo nos EUA, o governo sempre recorre para tentar forçar sua posição), o caso foi definitivamente encerrado em 1916. A Corte de Apelações de Cincinnati, Ohio, manteve a decisão da primeira instância. [texto completo da decisão judicial, em inglês]

O Fanático e o Cientista
O caso marcou o fim da carreira pública de Harvey Washington Wiley, que foi forçado a se demitir em 1912. Mas ele não ficou calado, apenas trocou de barco. Ele assumiu a chefia dos recém-inaugurados laboratórios  de Alimentos, Saúde e Higiene da revista feminina Good Housekeeping (isso mesmo, uma revista com laboratórios próprios!). Ele ficou na revista até morrer, em 1930. Frequentemente usava sua posição para fazer propaganda contra refrigerantes cafeinados. Mas ele nunca mais foi levado a sério — nem pelas donas-de-casa para as quais acabou escrevendo.

Após sua vitória judicial, a Coca-Cola fez o que se esperava: lançou uma grande campanha publicitária proclamando sua “vindicação”. Havia até mesmo uma brochura intitulada Truth, Justice and Coca-Cola [Verdade, Justiça e Coca-Cola], que apresentava nomes e depoimentos de diversos especialistas que testemunharam a seu favor. O acordo com Hollingworth foi cumprido: seu nome não apareceu na brochura publicitária. Em 1912, ele publicou os resultados das pesquisas sobre cafeína em uma monografia de 166 páginas (“The Influence of Caffein on Mental and Motor Efficiency” [A Influência da Cafeína sobre a Eficiência Mental e Motora]). O estudo da cafeína por Hollingworth não apenas salvou a Coca-Cola, mas também foi o primeiro estudo comportamental do tipo e tornou-se um clássico citado até hoje.

>O Caso Coca-Cola (parte 1)

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Harvey Washington Wiley tinha uma missão a cumprir. Ou pelo menos era o que ele acreditava.

Harvey W. Wiley: sem saco para um cafezinho.

Harvey Wiley (1844-1930) era Químico-Chefe da Divisão de Química do Departamento [Ministério] da Agricultura dos Estados Unidos. Ele também foi um dos fundadores da Association of Official Analytical Chemists [Associação Oficial de Químicos Analíticos]. Com essas credenciais, Wiley estava determinado a lançar uma cruzada contra o uso de aditivos químicos em alimentos e medicamentos.

Com o apoio de um seleto “esquadrão do veneno” (doze voluntários que ele usava para testar a segurança alimentar), a luta de Wiley por comidas e bebidas mais puras se tornaria legendária. Embora a Divisão de Química não tivesse, inicialmente, qualquer poder regulatório, Wiley e seus colaboradores publicaram suas descobertas em uma série de dez artigos durante o ano de 1902. Depois, ele procurou vários médicos e grupos de interesse especiais para fazer lobby por uma reforma no setor.

A cruzada de Wiley começou na mesma época do lançamento da obra mais famosa de Upton Sinclair (1878-1968), The Jungle (que denunciava as verdadeiras condições dos operários dos frigoríficos de Chicago). Maiores exigências na segurança e no preparo da comida industrializada chegaram à agenda política. A pressão popular liderada por Harvey Wiley levou à aprovação do Pure Foods and Drugs Act [Lei dos Alimentos e Medicamentos Puros] em 1906. No ano seguinte, o químico-chefe norte-americano publicou Foods and Their Adulteration [Alimentos e Suas Adulterações], que seria parte da bibliografia básica da área.

Com a aprovação da lei, cresceram os poderes da Division of Chemistry (que mais tarde seria substituída pela Food and Drug Administration, a FDA). Evidentemente, a cruzada de Wiley não agradava às indústrias alimentícias. Ele continuava a lançar ataques cada vez mais puritânicos contra alimentos e bebidas que se tornavam cada vez mais populares. E, com seu poder legalmente reforçado, Harvey Wiley voltou-se contra os refrescos cafeinados.
Molécula de Cafeína: substância foi descoberta após uma dica de Goethe a um químico alemão.

Antecedentes Históricos
Embora a cafeína fosse usada desde os primórdios da civilização, o ingrediente ativo do café e do chá só seria isolado e reconhecido quimicamente em 1819. Friedrich Ferdinand Runge (1795-1867) extraiu a cafeína de grãos de café (daí o nome). No fim do século XIX, os químicos já conseguiam sintetizar a cafeína, que se tornou um ingrediente comum em muitos alimentos e bebidas.

O papa Clemente VIII: ele deveria ter banido
 o café das mesas cristãs. Mas não resistiu.

Apesar da ampla popularidade da cafeína (e, segundo a crença popular, sua capacidade de curar a ressaca), as autoridades médicas sempre se mostraram preocupadas com os efeitos daquele estimulante no organismo humano. Desde a chegada do café e do chá à Europa, no século XVI, inúmeros tratados e panfletos contra seus efeitos circularam pelo Velho Continente. Em 1600, o papa Clemente VIII chegou a proibir os católicos de tomar café — mas liberou a “bebida do demônio” e dos “mouros” depois de prová-la. Os ingleses consideravam-no como a bebida dos sediciosos que derrubaram Charles I. E até mesmo os holandeses, sempre famosos por sua liberalidade, tiveram um movimento anti-cafeína. Apesar disso, os caffés se espalharam pela Europa e, dali, para o resto do mundo. 

Em 1833, John Cole publicou um artigo no jornal médico The Lancet no qual descrevia os efeitos do consumo excessivo de chá e café. Cole apresentou nove estudos de caso para descrever os vários sintomas da intoxicação por café (ou chá). Ele perguntava se “o aumento nas doenças cardíacas dos últimos anos não teria sido influenciado consideravelmente pelo aumento no consumo de café e chá?”. Esse artigo de Cole criaria bastante preconceito quando começaram a surgir outras bebidas cafeinadas.
O que nos leva à Coca-Cola

O marketing agressivo dos primeiros anos da Coca-Cola incluía a distribuição
de cupons que valiam “um copo grátis”

Começando sua carreira como um simples tônico vendido em farmácias do fim do século XIX, a Coca-Cola herdou seu nome de seus dois ingredientes principais: as folhas de coca e as nozes de kola. Originalmente receitada como tratamento para diversos males (entre os quais vício em morfina e impotência), a Coca tornou-se um refresco popular na virada do século.

Nozes de kola: a fonte de (e a solução para) todos os problemas do refrigerante mais famoso do mundo.

Com sua crescente popularidade, mudanças na fórmula foram consideradas necessárias. Por volta de 1904, o extrato de folhas de coca puras (o que dava estimados nove miligramas de cocaína por garrafa) foi trocado pelo extrato “empobrecido” de folhas de coca — a cocaína foi removida. Qualquer efeito estimulante que sobrou devia-se apenas à cafeína, que vinha da noz de kola e era reforçada por uma dose de 46mg de cafeína sintética a cada 12 onças fluidas (pouco mais de 350 ml, o equivalente a uma latinha moderna). Infelizmente para a Coca-Cola, foi exatamente com isso que Harvey Washington Wiley encasquetou.

Mesmo com a grande popularidade da Coca-Cola — até mesmo entre os proibicionistas, que a consideravam um exemplo de bebida não-alcoólica —, Wiley estava preocupado com a cafeína presente no refrigerante e decidiu fazer algo a respeito com seus poderes recém-adquiridos. Ele alegava que havia grande diferenças entre chá e café e Coca-Cola e seus similares (que também começavam a aparecer). E embora os adultos fossem livres para tomar quanta cafeína desejassem, Wiley queria proteger as crianças dos efeitos negativos da cafeína. Como desde o princípio as crianças sempre foram as maiores consumidoras de Coca-Cola, o suposto risco era enorme — mesmo por que a publicidade da Coca fazia poucos alertas sobre a cafeína. 

Asa Candler: de dono de farmácia
a magnata ( não sem alguns contratempos)

Por seu lado, a Coca-Cola era defendida por seu então presidente, Asa G. Candler (1851-1929). Ele protestava contra as acusações levantadas por Wiley e insistia que seu produto era seguro. Mas isso não convenceu o químico-chefe. Usando sua autoridade, Wiley convenceu o governo norte-americano a prender um carregamento de Coca-Cola. Em 9 de outubro de 1909, um carregamento foi confiscado enquanto estava sendo levado da principal fábrica, em Atlanta, Georgia, para a principal engarrafadora, situada em Chatanooga, Tennessee. Sob a lei de 1906, a Pure Food and Drug Act, a carga foi considerada contrabando, dando início a uma das mais memoráveis batalhas judiciais envolvendo uma indústria alimentícia.

 De um lado, Harvey W. Wiley contava com apoio total do governo dos Estados Unidos. Do outro lado, a Coca-Cola Company, que já era uma das maiores empresas do país. Seria uma batalha e tanto, de proporções épicas.

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