Conflitos Esquecidos [12] — Guerra(s) Luso-Turca(s)

Ao estudar a história da ascenção do Império Português no século XVI, poucos autores e professores lembram-se de mencionar os opositores de tal expansão. Não são apenas os nativos americanos que são historicamente desprezados. Até mesmo os longos conflitos com o poderoso Império Otomano pela posse do Oceano Índico e a influência sobre a África Oriental são esquecidos.

A rivalidade entre lusos e turcos remontava a 1509, quando os portugueses conquistaram Diu, na Índia. Embora não fosse um império colonial (ao menos não no sentido ocidental), o Império Otomano tinha grande influência econômica e política sobre o Oceano Índico. Consequentemente, a expansão portuguesa era uma ameaça aos turcos. Além dos motivos econômicos, havia a rivalidade religiosa: Portugal era então a maior potência cristã e a Turquia Otomana era a potência islâmica. Continue lendo…

Conflitos Esquecidos [11] — o Incidente Schäffer

Forte Elizabeth

Muita gente sabe (ou deveria saber) que a Rússia já foi dona do Alasca. Embora não tenham conseguido fazer muita coisa por lá — já que era preciso atravessar a Rússia inteira antes de por os pés do lado de cá do Estreito de Bering —, os russos também têm a duvidosa honra de quase terem conseguido ficar com o Havaí.

No começo do século XIX, a situação do Havaí lembrava muito a da Itália: cada ilha era praticamente um feudo. Como ocorreria com a Itália mais tarde, o Havaí foi unificado em 1810 e transformado em Reino por Kamehameha I, o Grande (1758-1819). Aí é que está o erro dos russos: eles chegaram um pouco atrasados. Continue lendo…

>Conflitos Esquecidos [9] – A Guerra do Hífen

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A Guerra do Hífen foi um dos mais curiosos conflitos do século XX. Embora tenha sido travada por parlamentares, gramáticos, professores e puristas das línguas envolvidas, a guerra acabou  não com a separação não de uma palavra, mas de um país inteiro: a Checoslováquia.
Antecedentes Históricos
Para quem tem menos de 20 anos e não sabe, a Checoslováquia foi um Estado criado em 1919, após a queda do Império Austro-Húngaro. O território foi formado pela união da Rutênia, Eslováquia, Morávia e da antiga Boêmia (não confundir com a “Boemiiiiiaa…”, de Nelson Gonçalves). No novo país deveriam conviver, em regime federativo, os checos e os eslovacos, além das minorias germânica, polonesa e ucraniana. Menos de vinte anos depois, a Checoslováquia foi o primeiro país não-germânico a ser anexado (ou penetrado, se você prefere piadas infames) pela Alemanha nazista.

Após a guerra, a Checoslováquia foi ocupada por forças soviéticas e tornou-se uma república socialista. Um dos Estados mais liberais por trás da cortina de ferro, a Checoslováquia foi duramente reprimida por tropas do Pacto de Varsóvia em 1968, quando tentou ser autônoma em relação a URSS ao propor um “socialismo de face humana”.
Duas décadas depois, quando a URSS caiu, a Checoslováquia começou a perceber as diferenças entre seus povos. Diferentemente da carnificina que ocorreria nos Bálcãs, a separação checoslovaca foi civilizada.
Uma guerra culta
Não apenas civilizada e pacífica, mas culta. As primeiras divergências surgiram em 1990, quando o nome oficial do país ainda era República Socialista Checoslovaca (Československá socialistická republika). O então presidente Václav Havel propôs apenas derrubar o “Socialista” do nome. Mas os líderes políticos eslovacos queriam mais.
Eles exigiam que o novo nome demonstrasse a igualdade entre ambas as etnias. Para isso, apresentaram a proposta de grafar o nome do país com um hífen (p. ex. “República da Checo-Eslováquia” ou “Federação da Checo-Eslováquia”). Eles alegavam que o nome do país originalmente era assim — embora o hífen tenha caído, tanto em checo quanto em eslovaco, após 1920. Havel, o presidente-poeta, aceitou e mandou um projeto de lei para o parlamento:  o nome do país seria República da Checo-Eslováquia.
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Se-parado ou Tudojunto?
No entanto, houve uma pequena divergência linguística durante a votação do projeto, em 29 de março de 1990, o que poderia ser chamado a Batalha do Hífen. Como solução de compromisso — ou talvez temendo o estouro de uma guerra civil dentro das faculdades de letras — foi decidido que, o nome do país teria hífen em eslovaco (Česko-slovenská federatívna republika), mas não em checo (Československá federativní republika).
Exatamente por mostrar as divergências de um país que, até então queria se manter unido, a solução criada pelos políticos pegou mal. Então, menos de um mês depois, em 20 de abril de 1990, o parlamento mudou o nome da Checo(-E)slováquia de novo.
No entanto, checos e eslovacos também não se entendiam muito bem sobre qual sinal usar para a separação dos nomes. Os eslovacos pediam um hífen [-]; os checos preferiam usar um travessão [—]. Embora haja uma clara diferença de uso entre hífen e travessão em ambas as línguas, os checos não viam muita diferença entre um e outro.
Como tanto em checo quanto em eslovaco se usa maiúscula apenas na primeira palavra do nome de um país, foi apresentada a proposta de “República Federativa Checa e Eslovaca” (checo: Česká a Slovenská Federativní Republika; eslovaco: Česká a Slovenská Federatívna Republika). Além de eliminar a divergência entre hífen, travessão ou tudojunto, tal arranjo com partícula aditiva permitiria que tanto “Checa” quanto “Eslovaca” fossem grafadas com letra maiúscula.
Mesmo assim, a República Federativa Checa e Eslovaca também não duraria muito tempo. Embora pequenas e, até certo ponto fúteis, as divergências linguísticas fizeram checos e eslovacos acordar e repensar suas identidades políticas, econômicas, sociais e históricas. Em 1992, líderes políticos de ambos os povos concordaram, pacificamente, que o melhor era dividir a federação em dois países. O chamado Divórcio de Veludo pôs fim a um casamento de 75 anos da melhor forma possível: a partir de 1º. de janeiro de 1993, a República Checa separou-se da Eslováquia. Não sabemos se é possível dizer o mesmo quanto a dicionários, mas nenhum tiro foi disparado.

>Conflitos Esquecidos [8] — As Batalhas de Khalkhin Gol

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As Batalhas de Khalkhin Gol, também chamadas de Incidente de Nomonhan pelos japoneses, foram uma série de escaramuças entre mongóis — apoiados por forças soviéticas — e o exército de Manchukuo, um Estado-fantoche formado pelo Império do Japão na Manchúria. As batalhas ocorreram entre 11 de maio e 16 de setembro de 1939. Embora tenham ocorrido longe do teatro europeu e tenham começado bem antes da II Guerra, as escaramuças em Khalkhin Gol (Rio Khalkha) mudaram o rumo da História. Por isso mesmo, Khalkhin Gol começa a ser considerada pelos historiadores como as primeiras batalhas da II Guerra.

O conflito naquela região começou por razões territoriais. Os japoneses e os manchus afirmavam que a fronteira entre Manchukuo e a República Popular da Mongólia era o Rio Khalkha. Já os mongóis e os soviéticos sustentavam que a fronteira era uma linha que passava a 16 quilômetros do rio, ao leste da vila de Nomonhan.
Embora o gabinete japonês tivesse reforçado as posições na fronteira com a Mongólia, as forças do Exército estacionadas na Manchúria estavam distantes das ilhas japonesas, dificultando as comunicações. Assim, forças armadas nipo-chinesas agiram de modo autônomo e invadiram o território mongol sem pedir a aprovação de Tóquio.
Trocando farpas
Tudo começou em 11 de maio de 1939, quase quatro meses antes da invasão da Polônia, quando uma unidade de cavalaria mongol, com cerca de 70 homens (algumas fontes citam 90 cavaleiros), entrou no território em litígio em busca de forragem para seus cavalos. No mesmo dia, a cavalaria manchu atacou os mongóis, obrigando-os a recuar para posições situadas antes do rio Khalkha. Dois dias mais tarde, os mongóis receberam reforços e retomaram suas posições anteriores. Em menor número, os manchus foram incapazes de desalojar os mongóis novamente.
No dia 14, forças japonesas, sob liderança de Yaozo Azuma, fizeram um reconhecimento da área e os mongóis se retiraram. Alguns dias mais tarde, tropas soviéticas e mongóis retornaram à zona em disputa e foram novamente desalojadas. Os dois lados ficaram assim, atacando e batendo em retirada quase que diariamente, até que no dia 28 as forças soviéticas cercaram as Azuma e destruíram-no. 97 homens foram mortos e 33 se feriram. Foram as primeiras baixas da II Guerra.
À Espera de Reforços
Depois disso, ambos os lados passaram um mês reunindo forças no território em disputa. Em 5 de junho, forças soviéticas blindadas e motorizadas chegaram junto com o comandante Georgy Zhukov. Pouco depois, a Força Aérea Soviética chegou à área de combate. Enquanto isso, os japoneses reuniam 30.000 homens e também traziam suas brigadas aéreas. O primeiro ataque aéreo foi lançado pelos japoneses em 27 de junho, destruindo uma base aérea soviética em Tamsak-Bulak, na Mongólia. A essa altura, notícias do conflito já haviam chegado a Tóquio. Para evitar uma escalada de violência que poderia atrair mais forças soviéticas, o Exército Imperial Japonês proibiu novos ataques aéreos.
Durante todo o mês de Junho, as escaramuças continuaram, com ataques em pequena escala que firmaram posições soviéticas. No fim do mês, o General Michitaro Komatsubara recebeu permissão para “expulsar os invasores”. Os japoneses chegaram a planejar um assalto duplo, para pinçar o Exército Vermelho, mas Zhukov percebeu a tática e respondeu com 450 tanques e carros armados. Embora a infantaria tenha dado pouco apoio, os soviéticos conseguiram virar o jogo, atacando os japoneses em três frentes. Correndo o risco de perder as linhas de abastecimento num território distante e isolado, os japoneses foram forçados a recuar em 5 de julho.
“Sou japa e não desisto nunca!” 
Em julho, Zhukov reforçou a linha de suprimentos com uma frota de 2.600 caminhões. Enquanto isso, os japoneses penavam para obter recursos por falta de transporte motorizado. Mesmo assim, dois regimentos de infantaria japoneses lançaram um ataque contra a ponte Kawatama em 23 de julho. O ataque teve algum progresso a princípio e foi muito agressivo: mais da metade da munição prevista para dois dias foi consumida em poucas horas. Apesar disso, os japoneses não conseguiram quebrar a linha de defesa mongol-soviética. A batalha encaminhava-se para um empate.
Os japoneses decidiram se reagrupar novamente e planejavam um terceiro ataque para o dia 24 de agosto. Ao saber da situação na Europa, onde as negociações entre Franceses, Britânicos e Soviéticos se complicara, deixando a Polônia à beira de um ataque alemão, Zhukov decidiu adiantar-se aos nipônicos e planejou uma ofensiva para 20 de agosto.
Zhukov planejando a ofensiva final
Às 5h45 da manhã do dia 20, mais de 550 caças e bombardeios iniciaram o ataque, na primeira ofensiva da história da Força Aérea Soviética. Em seguida, cerca de 50.000 soldados soviéticos e mongóis cruzaram rapidamente o Khalkhin Gol, atacando as tropas de elite japonesas com apoio com três divisões de infantaria, uma de artilharia e uma brigada de tanques, além do apoio aéreo.
O ataque foi tão rápido que “furou” os japoneses. O Exército Imperial reagiu de forma desesperada, usando até espadas enquanto os soviéticos voltavam, atacando-os pela retaguarda. Em 25 de agosto, os japoneses foram completamente cercados; tentaram contra-atacar nos dois dias seguintes, mas falharam. No dia 31, os restos da 23a. Divisão de Infantaria japonesa jaziam dentro de território incontestavelmente soviético.
Mudando o rumo da História
O Gal. Komatsubara, comandante japonês, não aceitava o resultado e preparava mais uma contra-ofensiva. Seus esforços foram abortados pela assinatura de um cessar-fogo em Moscou. O sucesso de Zhukov no Extremo Oriente mudou a situação na Europa. No dia 23, Ribbentropp foi recebido em Moscou e no dia seguinte era assinado um “pacto de não-agressão” entre a Rússia e a Alemanha. Hitler invadiu a Polônia em 1º. de setembro. Livre de qualquer preocupação com um front oriental, Stalin pode prosseguir com a ocupação da Polônia.
Com a derrota japonesa no Extremo Oriente, Tóquio desistiu de enfrentar os soviéticos e de tentar estabelecer uma ligação terrestre com a Alemanha através da divisão da Rússia. Os planos de expansionismo territorial na Sibéria — fonte de recursos minerais importantes, como ferro e carvão —, sustentados pelo Exército Imperial, foram cancelados.
Zhukov: o homem mais condecorado da URSS.
Em vez disso, ganhou peso a estratégia da Marinha, de expandir o Japão através da ocupação do Pacífico e das Índias Orientais (onde havia petróleo e borracha). Isso levou o Japão a atacar Pearl Harbor, no Havaí, forçando a entrada dos americanos e mudando o rumo da II Guerra. A URSS manteria uma paz com o Japão até as últimas semanas da guerra, em agosto de 1945. Khalkhin Gol foi a primeira vitória de Georgy Zhukov, que até então era um desafeto de Stalin. Zhukov foi fundamental na defesa de Moscou e na ofensiva que decidiu a Batalha de Stalingrado, tornando-se o maior herói de guerra soviético e o militar mais condecorado da história da URSS.
Por sua vez, os japoneses não aprenderam com os erros na Sibéria. Eles sempre subestimavam a capacidade de reação dos inimigos (os soviéticos de 1939 não eram os russos de 1905) e enfatizavam ações individuais de soldados como forma de contornar a inferioridade numérica. Isso culminaria nas ações camicases, que embora fossem bastante assustadoras e imprevisíveis, não foram capazes de deter o avanço americano — muito menos os bombardeios atômicos.

>Conflitos Esquecidos [7] — A Guerra do Sal

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Também conhecida como Guerra de Ferrara, foi um conflito iniciado em 1482, envolvendo Ercole I d’Este, duque de Ferrara e as forças pontifícias lideradas pelo arqui-inimigo de Ercole, o Papa Sisto (às vezes Sixto) IV, aliado aos venezianos. Embora não tenha chegado aos campos de batalha (e não sofresse de hipertensão), Sisto IV acabou morrendo por causa da guerra.

Em 1480, il signore de Florença, Lorenzo de Medici, numa arriscada manobra diplomática, fez as pazes com Ferdinando I de Nápoles, antigo protegido do Papa. Isso causou descontentamento tanto para o Papa Sisto IV quanto para os venezianos. Veneza havia acabado de resolver seu longo conflito com os turcos otomanos e agora estava livre para voltar a defender seus interesses expansionistas na península itálica.
Em setembro de 1480, Girolamo Riario — sobrinho do papa — havia capturado a estratégica fortaleza de Forlì. Após esse pequeno êxito e sob as bênção do tio, Girolamo passou a assediar Ferrara, que seria incorporada ao território dos Della Rovere, isto é, da família do papa.
Assim, em 1482, Veneza declarou guerra a Ferrara. Além dos atritos territoriais, havia interesses econômicos em jogo. A Sereníssima República detinha o monopólio do comércio de sal, mas mesmo assim a cidade ferrraresa de Este passou a controlar os salares de Comacchio. Isso parecia uma ameaça aos interesses continentais de Veneza.
O casus belli foi, como quase sempre, uma infração pequena. Veneza mantinha um representante em Ferrara — o visdominio — para proteger a comunidade vêneta nos domínios de Este. Em 1481, extrapolando suas prerrogativas ao prender um padre por dívida, o visdominio foi excomungado pelo bispo de Ferrara e expulso da cidade. Com essa desculpa, a guerra foi declarada pelos venezianos.
Os aliados de Veneza, além das tropas papais (não de pais, mas do papa) e de Riario comandando as forças de Ímola e Forlì, eram a República de Gênova e o pequeno Marcado de Montferrat.
Ercole I d’Este: o duque de Ferrara quase conseguiu
“unificar” a Itália ao ser perseguido por Sixto IV e Veneza

Do lado de Ferrara, unidos sob Federico da Montefeltro, duque de Urbino, estavam as tropas de Ferdinando de Nápoles (sogro de Ercole I), que invadiram os Estados Pontifícios pelo sul, bem como tropas de Ludovico, il Moro, de Milão, além de duas outras cidades ameaçadas por Veneza: Mântua e Bologna.

As tropas venezianas começaram a invasão do território ferrarês pelo norte, num saque brutal a Ádria, seguido de uma rápida captura de Comacchio e dois cercos: a Ficarolo (Maio-Junho) e Rovigo (Maio-Agosto). Em novembro, Veneza cruza o rio Pó e começa o cerco a Ferrara. A essa altura, Sisto parece ter mudado de ideia — talvez por achar que Veneza já tinha ido longe demais.
Enquanto isso, nos Estados Pontifícios, as batalhas contra os inimigos dos Della Rovere continuavam. A maior delas foi a batalha de Campomorto — que nome adequado! —, em 21 de agosto de 1482. As tropas aragonesas de Nápoles foram retumbantemente derrotadas por Roberto Malatesta e o duque da Calábria teve que ser resgatado por seus mercenários turcos.
Sisto IV: o papa-zumbi foi o pai da Inquisição.
E ai de você se mexesse com os sobrinhos dele!

Alguns castelos napolitanos caíram nas mãos do papa, mas quem ganhou foi a malária, que matou Malatesta em setembro, freando os planos de Sisto IV. O papa viu-se obrigado a pedir uma trégua em 28 de novembro e a fazer uma paz em separado com Nápoles, num tratado assinado em 12 de dezembro.

Sisto tentou fazer Veneza cessar as hostilidades, mas foi ignorado. Ele ameaçou excomungar a Sereníssima, que por sua vez retirou seu embaixador do Vaticano. O papa respondeu com a interdição eclesiástica de Veneza em maio de 1483.
Convocando toda a Itália a lutar contra Veneza, Sisto permitiu a passagem de tropas napolitanas em seu território para furar o cerco a Ferrara. Um reforço de Florença também foi enviado e a sorte de Ferrara começou a mudar.
A guerra terminou com o Tratado de Bagnolo, em 7 de agosto de 1484. Ercole teve que ceder o território de Rovigo e o delta do Pó e as forças venezianas enfim se retiraram. Ercole ainda conseguiu evitar a anexação de Ferrara aos Estados Pontifícios.
Apesar da paz, o papa Sisto IV não ficou satisfeito com os termos do tratado, por não ter sido consultado:
As notícias literalmente mataram Sisto. Quando os embaixadores lhe declararam os termos do tratado ele lançou-se numa ira violenta e declarou a paz como vergonhosa e humilhante. A gota subiu ao seu coração e no dia seguinte — 12 de agosto de 1484 — ele morreu.
E essa guerra não foi o único momento anticristão de Sisto IV. Foi ele quem criou a Inquisição Espanhola, em 1478. No mesmo ano, Sisto encabeçou a Conspiração de Pazzi, um plano maligno que eliminaria os Medici  para colocar sobrinhos do papa no lugar. Apesar de sua morte, Sisto IV conseguiu manter seu  sistema de nepotismo vivo com a eleição de seu sobrinho, Giuliano della Rovere (Papa Júlio II), em 1503. Mais tarde esse sistema foi uma das causas da Reforma.

>Conflitos Esquecidos [6] — A Batalha de Talas

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Representação chinesa da Batalha de Talas

Batalha de Talas (maio-setembro de 751). Apesar do nome, não foi uma batalhas entre exércitos de braços engessados. Confronto entre os árabes do Califado Abássida e os chineses da Dinastia Tang pelo controle do Rio Syr Darya, na Ásia Central. Duzentos mil muçulmanos lutaram contra 10.000 chineses e 20.000 mercenários Karluks. No desenrolar do confronto, os Karluks, mercenários que eram, mudaram de lado e os chineses foram duramente derrotados.

Essa batalha teve duas consequências importantes. A mais imediata foi a islamização da Ásia Central, inclusive da minoria Uigur, que ainda vive na China. Mas mais importante foi a contratação de Sun-Tzu para chefiar o exército chinês. a captura de diversos prisioneiros de guerra chineses pelos árabes. Segundo a historiografia árabe, foram esses chineses cativos que revelaram o processo de fabricação de papel — uma mídia que revolucionaria o mundo islâmico e, mais tarde, a Europa.

>Conflitos Esquecidos [5] — A Guerra dos Oito Príncipes

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De forma menos poética também pode ser chamada de Guerra da Sucessão Chinesa (290-307 E.C.). Como pode se imaginar, foi um conflito confuso e sangrento, que começou após a morte do Imperador Wu em 290. O sucessor, Imperador Hui, foi considerado incapaz de governar, gerando uma disputa dentro do poderoso clã Sima

Inicialmente, o poder ficou nas mãos da madrasta do imperador incapaz, que passou à História como Imperatriz Dowanger Yang. Em vista disso, a esposa do Imperador, Jia Nanfeng procurou a ajuda de Sima Wei, Príncipe de Chu (príncipe 1) e Sima Yao em 291. A madrasta-imperatriz foi deposta e morreu na prisão.
O poder foi entregue a Sima Liang, Príncipe de Runan (príncipe 2), sobrinho-neto do Imperador incapaz. Entretanto, a Imperatriz Nanfeng continuou conspirando com Sima Wei, e convenceu-o a matar Liang. Após o assassinato, ela declarou que o Príncipe de Chu agiu contra a ordem imperial e executou-o. A Imperatriz manteve-se no trono até o ano 300, quando desposou (e depois assassinou) Sima Yu, filho do marido dela com uma concubina (?!?) e considerado outro herdeiro do trono.
Após esse crime, Sima Lun (Príncipe de Zao e nº. 3), comandante da guarda imperial, matou a Imperatriz Nanfeng e exterminou os partidários dela. Estabelecido no poder, Lun buscou consolidar o controle sobre os outros príncipes. Em consequência, Sima Yao (príncipe 4) rebelou-se e marchou contra a capital, Luoyang — mas também foi morto pelas forças de Lun. Em seguida, o Príncipe de Zao deteve o Imperador Hui e declarou-se novo Imperador.
Em resposta, Sima Jiong (Príncipe de Qi, o 5º pretendente) liderou uma coalização, contando com o apoio de Sima Ying (Príncipe de Chengdu, o 6) e Sima Yong (Príncipe de Hejian, o 7) contra Lun. A coalização derrotou as tropas do Príncipe de Zao, matou-o e restaurou o Imperador Hui — embora de fato o poder tenha ficado com Jiong. Quando o Príncipe de Qi tentou centralizar definitivamente o poder em suas mãos, os outros príncipes se rebelaram novamente. Jiong foi derrotado e morto por Sima Ai (Príncipe de Changsa).
Ai também esteve no poder por curto período; foi derrotado por Sima Yue (Príncipe de Donghai, o 8) e também acabou morto. Eventualmente, Sima Ying, Príncipe de Chengdu, assumiu o poder, para em seguida ser derrotado e fugir, levando junto o Imperador. Ele foi capturado por Sima Yong, que por sua vez foi derrotado pelos homens de Sima Yue, Príncipe de Donghai. O Imperador Hui foi envenenado em 306 (como é que não pensaram nisso antes?) e o irmão dele, Huai, subiu ao trono.
Sima Ying e Sima Yong acabaram capturados e mortos em 307, marcando o fim do conflito. O Imperador Huai permaneceu no trono até 313, quando morreu.
Talvez seja mais fácil entender com a ajuda da árvore genealógica da dinastia Jin:
dinastia Jin

Ou não.

>Londres chamando, Londres chamando!

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Em 16 de Janeiro de 1926, um programa da Rádio BBC sobre a literatura do século XVII foi subitamente interrompido por um plantão jornalístico ao vivo — e chocante:
A Câmara dos Lordes está sendo demolida por uma turba enfurecida armada com morteiros de trincheira. A Torre do Relógio, com 100 metros de altura, acaba de desabar junto com o famoso relógio, o Big Ben, que batia as horas em uma bola de nove toneladas. Um momento por favor… Novos relatos dizem que a multidão capturou a pessoa de Mr.. Wurtherspoon, o ministro dos transportes, que tentava fugir sob disfarce. Ele agora acaba de ser enforcado em um poste na Ponte Vauxhall. Londres chamando. O ruído que vocês acabaram de ouvir agora foi a explosão do Savoy Hotel pela multidão. […]
Inseridos em meio a informações mais amenas sobre a última rodada de rúgbi ou pela previsão do tempo, os relatos ao vivo prosseguiam, com assassinatos e outros atos violentos em pleno centro da capital do Reino Unido, numa reportagem de 12 longos e assustadores minutos.
Aquele havia sido um fim de semana de muita neve em toda a Grã-Bretanha. Sem poder sair de casa para comprar jornais, milhões de ingleses fizeram telefonemas e mandaram telegramas à procura de mais informações sobre a calamidade. Por fim, após um breve pânico que durou alguns dias, a companhia radiofônica explicou que o plantão que entrou no ar era uma paródia intencional feita por Ronald Knox.
Um detalhe que poderia ter sido percebido pelos ouvintes explicaria a verdade por trás do plantão. De acordo com o relato radiofônico, a revolta na Trafalgar Square era liderada por um tal Mr. Popplebury [algo como Sr. Coveiro], secretário do Movimento Nacional Contra as Filas de Teatro. 
E ESSE TAL DE RONALD KNOX?
Ronald Knox (1888-1957), aliás Monsenhor Ronald Knox, era uma das figuras  mais controvertidas da sociedade britânica da época. Ele era teólogo, representante do papa em Londres e fez uma das muitas traduções da Bíblia para o inglês. 
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Knox parece muito sério — mas não era bem assim
Mas, nas horas vagas, o Monsenhor Knox escrevia sátiras e romances policiais de sucesso e foi um pioneiro do rádio inglês. Seu detalhado  “plantão radiofônico” da “Revolta de Londres” teria sido a inspiração para Orson Welles e sua versão radiofônica de Guerra dos Mundos em 1938 — que causaria um pânico muito maior entre os americanos.
Hoje em dia, ele é mais lembrado por suas obras de mistério e por criar uma revolta que nunca existiu do que por suas obras teológicas ou sua versão da Bíblia. Sinal de que a sátira, o sarcasmo, a ironia e o rádio valem mais do que qualquer teologia.

>Conflitos Esquecidos [4] — Operação Flocos de Milho

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Mesmo alguns aspectos do maior e mais lembrado de todos os conflitos acabam sendo esquecidos. Ainda mais se forem operações secretas. A Operação Flocos de Milho (Operation Cornflakes) foi uma ação de guerra psicológica realizada entre 1944 e 1945. O objetivo da ação era entregar cartas com propaganda anti-nazista através do próprio serviço postal alemão (Deutsche Reichspost).
A operação era simples: trens do serviço postal eram bombardeados. Em seguida, malas postais com cartas devidamente endereçadas e seladas — mas contendo propaganda anti-nazista — eram lançadas de aviões e espalhadas entre os destroços. Esperava-se que o serviço postal misturasse as cartas reais com as falsas e entregasse ambas corretamente.
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As cartas traziam cópias de Das Neue Deutschland (A Nova Alemanha), panfleto  de proganda aliado escrito em alemão. Além disso, alguns dos selos usados também eram falsos. Eles eram muito parecidos com o selo-padrão, que trazia a efígie de Adolf Hitler. Um olhar mais atento, porém, revelava que a efígie do Führer era um crânio semi-exposto. E em lugar da inscrição “Deutsches Reich” [Império Alemão], lia-se “Futsches Reich” [Império em Colapso].
A primeira missão da Operação Flocos de Milho ocorreu em 5 de Fevereiro de 1945 e foi um sucesso. Um trem postal foi bombardeado a caminho de Linz, na Áutria. Malas postais com cerca de 3800 cartas falsas foram plantadas nos destroços. Todas foram recolhidas e entregues pelo Deutsche Reichspost.

>Conflitos Esquecidos [3] — A Guerra dos 40 Minutos

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Formalmente conhecida como Guerra Anglo-Zanzibari, o conflito bélico mais curto da história durou apenas 40 minutos. De um lado, a Real Marinha Britânica; de outro, as improvisadas forças de Zanzibar. O motivo? Os britânicos não gostavam do sultão que havia sido coroado no dia anterior.
Antecedentes Históricos
Embora a guerra tenha sido curta, a História por trás dela é longa. Zanzibar é uma pequena ilha na costa leste da África. Foi conquitada pelos portugueses em 1499, mas eles foram expulsos por navegadores árabes vindos de Omã em 1698. Desde então, a ilha passou a ser governada pelo sultão de Omã. Em 1858, com apoio dos ingleses, Majid bin Said declarou Zanzibar independente de Omã. A capital foi estabelecida na Cidade de Zanzibar, onde os sultões contruíram um Palácio real e um Harém à beira-mar.

No dia 25 de agosto de 1896, morreu o sultão Hamad bin Thuwaini, sucedido no dia seguinte por Khalid bin Bargash. Hamad era grande amigo dos britânicos e após a morte dele, os ingleses preferiam que o novo governante fosse Hamud bin Muhammed, que também era pró-britânico.
De acordo com um tratado firmado entre os dois países em 1886 era que o todo novo sultão deveria ser aprovado pelo cônsul britânico. Como Khalid não era o escolhido, os ingleses consideraram que isto era um casus belli e mandaram um ultimato exigindo a renúncia do sultão recém-empossado. Em resposta, Khalid Bargash não só ficou no Palácio como mandou sua guarda palaciana montar barricadas e apontar armas para os navios da Real Marinha.
40 minutos e nada mais

Disposição da esquadra no porto de Zanzibar na manhã do dia 27 de agosto.

O ultimato esgotou-se às 9 da manhã de 27 de agosto. Os britânicos já tinham reunido, sob comando do contra-almirante Harry Hawson, três cruzadores, dois navios de guerra, 150 fuzileiros navais e marinheiros e 900 zanzibaris na área portuária, bem em frente ao Palácio do Sultão. Os zanzibaris, chefiados pelo General-de-brigada e ex-miltar britânico Lloyd Mathews, somavam 2800 homens. A maioria das forças de Zanzibar era formada por civis, guardas do palácio, funcionários públicos e até escravos.
Às 9h02min, as forças de Sua Majestade, a Rainha Vitória lançaram um bombardeio que, instantaneamente, incendiou e demoliu o Palácio do Sultão e parte do Harém. Em seguida, os navios britânicos afundaram o iate real e mais dois barcos menores. Algumas forças zanzibaris conseguiram atirar contra os ingleses, mas não acertaram. A bandeira do Palácio foi baixada por forças britânicas e o fogo cessou às 9h40min .
O Harém do sultão, semi-destruído após o bombardeio britânico.

As forças pró-Khalid somaram 500 baixas enquanto penas um marinheiro britânico foi ferido. Khalid recebeu asilo no consulado alemão e escapou para Tanganica. Rapidamente, os britânicos colocaram Hamud como sultão em um governo-fantoche. A guerra foi curta, mas marcou o fim de Zanzibar como Estado independente.
Atualmente, Zanzibar é um território pertencente à Tanzânia (ex-Tanganica). Após a derrota alemã na Primeira Guerra Tanganica passou para o domínio inglês.

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